No Balcão do Quiosque

terça-feira, 30 de junho de 2009

A história de ninguém

Tarde chuvosa de domingo e Ninguém nasceu. Era um desses domingo-feriados que por obra e graça do calendário, anulou o que poderia ter sido um fim de semana prolongado. Mas, as atenções da família estavam todas voltadas para Ninguém — se é que se pode chamar de família, uma mãe “tropeira”, uma avó de 87 anos cega e esclerosada e um cão vira-lata de três patas; de uma família assim, o difícil é que possa advir algum fenômeno chamado atenção. O pai, nunca tomou conhecimento de Ninguém. E Ninguém jamais o teria tão perto como um filho ao alcance das mãos.

Ninguém era silencioso; quase não se escutava seu choro. Se alimentava mais por distração da mãe do que por um ato de amor materno. Isso Ninguém desde cedo saberia seu significado.
Segunda-feira a mãe teve alta. Foi para casa sozinha levando — meio que por obrigação — Ninguém a tira-colo. Pegou um ônibus depois de esperar uns 25 minutos mais ou menos debaixo de forte calor. Ninguém, mesmo diante dessa situação, não deixou de mergulhar em profundo sono.

Diante da calamitosa situação familiar, Ninguém nunca se deixou abater e cheio do destemor e um forte sonho de ser alguém, traçava planos, para atingir seu objetivo.
Ninguém chegou à adolescência com a sorte dos renitentes. O imponderável do destino afeiçoando-se por Ninguém, o conduziu às portas de uma nova família que mediante pura empatia, o adotou garantindo a Ninguém tudo aquilo que a decência possa garantir. A mãe, sentindo um alívio, desfez-se daquele “incômodo” que havia invadido sua tão vazia existência (só ela não sabia disso)

O tempo passou e Ninguém tornou-se o que esperava de si próprio: realizado e feliz.Tudo o que Ninguém mais queria era constituir uma família. E Ninguém conseguiu.Teve um, dois, três filhos; dois meninos e uma menina. Ninguém procurou ser para a família o que a família não havia sido para Ninguém.

Então sobreveio o golpe que ninguém esperava. Ao chegar em casa após um estressante dia de trabalho, Ninguém encontra sua tão amada esposa sendo amada por um ninguém qualquer. Chocado, atônito, Ninguém ficou parado sem saber o que fazer. Numa explosão sanguínea, berrou para os dois saírem de sua casa que havia construído com muito sacrifício.
Desse dia em diante, Ninguém nunca mais quis saber de alguém. Dedicou-se de corpo e alma aos filhos.Os filhos cresceram, tornaram-se adultos, casaram e foram ter suas vidas. Ninguém ficou só, consigo mesmo.

Na velhice, Ninguém acreditou que fez o melhor que pode. A noite, em sua varanda, olhando as estrelas, Ninguém pensou em Deus.E esse pensar fez Ninguém acreditar que a vida que o trouxera, agora vinha lhe buscar.

O fim que Ninguém esperava chegou sem se atrasar. Não houve dor, não houve agonia; o que ficou para sempre foi a passagem de Ninguém, que o tempo esqueceu sem regatear.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Homo Mercadológicus

Todos nós conhecemos a máxima: na vida, tudo tem um preço.
Tem mesmo? Quanto vale viver?
Vamos adentrar na realidade desse imenso mercado de ações e reações que é a vida. Esse campo de intrincados valores relativos que teimam em serem absolutos.

Pois bem. Você nasce e de imediato tem um valor avaliado. Se você nasceu como mercadoria de varejo, tal como é o caso da grande maioria dos “produtos” expostos nas prateleiras da vida, terá pela frente toda ampla oportunidade de liquidação. Ou quem sabe uma promoção! Com sorte, pode até ser remarcado. Mas, sem chances de re-mercado. Já, se você nasceu, como produto à vista, com desconto negociado, dá pra ter em você, uma perspectiva de vida mais valorizada.

Agora temos os nascimentos privilegiados, conhecidos também por “berço de ouro”. São aqueles produtos de valor muuuuito acima da média de mercado. Já nascem vitalícios, por assim dizer. São de difícil acesso. E são tão poucos... Porém os privilégios são tão muitos. A maioria apenas os admiram.

Tem também — que eu já ia esquecendo de mencionar — os produtos descartáveis e sem valor. Um mercado paralelo, informal; que não entra na contabilidade da ordem natural estabelecida.

E quem dá as cartas na grande lei de mercado? Se existe um produto com o seu valor exposto, alguém administra suas ações, concorda? E quem cria a lei de mercado, não está sujeito a ela. Meu caro, não é um barato isso? É... e muitos já na infância, brincam de ciranda financeira, e só mais tarde irão perceber que o negócio não é brincadeira não.

E assim vamos passando por esse mercado, sendo consumidos pela deterioração natural do produto...ora usando da assistência técnica, ora sendo trocados por outros ou se vendendo por menor valor.
Uma outra questão: pode um produto que nasceu varejo, se tornar um produto de primeira, “privilegiado” ? É difícil. Teria que, “aplicar” pra se dar bem. Juro que é isso.

Esse rápido balanço visionário de uma realidade “mercadológica”, nos mantém fixos como um pregão na luta por um valor mais alto. Aquele que é “esperto”, sabe, que quem não administra bem a si como produto, com o tempo se desvaloriza perante o mercado. Não há desconto para uma ação dessas.
No fim o produto tem seu tempo de validade vencido. A única parte aproveitável pode ser a sua embalagem. Quem sabe não servirá para guardar antigas fotos de um valor que não existe mais.

Capitão Marvel e o espaço-tempo



Capitão Marvel e o espaço-tempo


Luiz Ramos da Silva Filho

"O Tempo e o Espaço têm sido estudados por pensadores como Galileu e Newton, além de Kant e Minkovski. Teorias diversas, sob variados pontos de vista, tentam explicar as relações entre espaço e tempo ou a sua independência. Em seu aspecto físico, Einstein nos apresenta a teoria da relatividade e a expressão espaço-tempo se consolida.

Para leigos, toda essa explicação parece distante ..."

Acompanhem o desfecho da história do Herói e Napoleão, no blog Fruição e Escritas

Luiz Ramos

Foto:ramosforest(c)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Do Sublime ao Grotesco em Tetrâmetros e Pentâmetros Anapésticos por Mim Lidos e... Ouvidos

Anapestos nos versos que faço então vou

colocando a meu modo e pra todos os fins

lembro aqueles tão lindos, perfeitos, de Poe:

“For the moon never beams without bringing me dreams” (1)


Num francês bem do tempo de meu trisavô

que aprendi, apesar de não ter quem me ensine

lembro aqueles que li no “Dormeur” de Rimbeaud:

“Les parfums ne font pas frissoner sa narine” (2)


Um pentâmetro então, cujo efeito é bastante bonito

soa bem como vem, com ou sem caimento de luva

é aquele que fez, num momento feliz, Raulzito:

“Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva”


Ó, leitor que brindei com Rimbeau, Allan Poe

e um maluco beleza inspirado que só

saideira geral, tô vazando, falou?

“Pocotó, pocotó, pocotó, pocotó.”


(1) "Pois a lua não brilha sem sonhos trazer-me " (Annabel Lee, de E. Alan Poe)
(2) "Os perfumes não fazem fremir sua narina", (Le dormeur du val, de A. Rimbaud

Sorvete Colorê



Amanheci sonhando com BUARQUE na desordem do armário embutido, atrasada para a exposição das MULHERES DE ATENAS.

PIVETES gritavam nas avenidas e a CONSTRUÇÃO andava de bar em bar.

MEU CARO AMIGO ... me disseram mais tarde numa rua banhada de sol... quer dividir um CÁLICE comigo? Não, obrigado, porque
todo dia ela faz tudo sempre igual mesmo,então por isso atrapalhei o trânsito
e encontrei Caetano na Avenida São João.
Eu já estava PRA LÁ DE MARRAQUEXE quando os novos baianos combinaram de dormir sob a garoa.

Olhei nos bolsos e vi que tinha perdido o SAMBA DO AVIÃO e as partituras de uma nota só. Corri e vi meu paletó enlaçando seu vestido... ai ai ai... chorei mentiras e percebi que o verme passeia na lua cheia.

No dia seguinte conheci A MENINA DO ANEL que passeava com a lua e a estrela, e lembrei que meu namorado é rei
nas lendas do caminho por onde andei.

Da próxima vez eu me mando. Que se dane meu jeito inseguro, porque no corcovado quem abre os braços sou eu.

E depois de tanto pensar decidi que era melhor sentar no banco da PRAÇA e ver a BANDA PASSAR, olhando
CAROLINA que não sai mais da janela e seus olhos tristes guardam (ainda) tanta dor.

Por Lu Cavichioli

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Herói e Napoleão em Histórias Possíveis


O Herói e Napoleão

Luiz Ramos da Silva Filho

"Ele passou a vida inteira vinculado a uma pessoa ou a uma obrigação real ou imaginária. Desde muito pequeno, acostumou a se colocar como personagem dos conselhos do pároco, da avó, da mãe, do padrinho de batismo. Ou até mesmo a ocupar o lugar daquele personagem das novelas de aventuras do rádio ou das revistas em quadrinhos da época, os seus tão queridos gibis do Hopalong Cassidy..."


Vejam esse meu texto publicado em Histórias Possiveis.

Luiz Ramos

Photo:ramosforest(c)

correção: vizinho, correligionários

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Eu comigo mesma




"As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.” ( Clarice Lispector)



Eu comigo mesma

( por Rosemari)

Sou fã de Clarice Lispector. Lógico, há uma identificação muito grande, não somente com o conteúdo de seus textos, mas também com a forma com que ela desvela aquilo que vai às profundezas de sua alma.

Um amigo comentou que costumo negacear em meus poemas. Devo dizer que não é proposital. Naturalmente digo e não digo. Revelo e oculto. Deixo com que o texto penetre na alma do leitor.

Além disso, como Clarice , sou ainda um mistério para mim mesma.

Divago entre auto -reflexões, vivências e buscas constantes de uma resposta que possa me reconciliar com a vida. Aquelas velhas pendências em que a gente insiste em prorrogar, dando a elas prazos que já estão atrasados.

Sinto em mim ainda aquela menina rosácea de cabelos encaracolados, surpresa com as descobertas do amor, puro, ingênuo, uma flor em botão.

Descobri conversando com outro amigo que não sou totalmente impulsiva. Aprendi nesse quase meio século de vida, a ter controle sob minhas emoções. Já era tempo. Porém, isso se dá somente quando o assunto é afetivo, pois minhas emoções ainda prevalecem sob a razão, quando trato de assuntos políticos e sociais.

Tenho a impressão de que isso deveria ser o contrário. Bom, o que importa é que ainda aprendo. Afinal, pretendo viver mais meio século.

Prossigo meu caminho, errando e acertando,sabendo que nunca serei uma mulher completamente madura, como Clarice nunca foi, mas sei que pretendo viver plenamente meus sentimentos que são sempre intensos e verdadeiros.

Preciso pensar mais em mim. Como disse outro amigo, você vive para os outros, sobrecarrega-se com o peso do sofrimento alheio. Mas essa é a minha lucidez. Ser guerreira, lutadora, salvadora.

Sei que tento colocar em meus poemas esse mundo inalcançável. Persisto na idéia de que as palavras são ferramentas de vida. São elas que me salvam, dia a dia.

Assim, busco a felicidade na beleza da alma , no ar que respiro e que me incita a viver!!

A revolução das letras

A vida transcorria como de costume em Alphabeto. A rotina das letras se mantinha inalterada. O sistema alphabético vigente, moldou uma sociedade dividida entre os MAIÚSCULOS e os minúsculos. A maior parte da população era constituída pelos minúsculos. Letras que formavam o suporte de todos os segmentos da sociedade alphabética. Desde mão-de-obra especializada em construção de palavras, frases, textos; até edificação de um livro inteiro.

Os MAIÚSCULOS, constituíam o que se conhecia por... Os Iniciais. Nada, nenhum capítulo, sentença, fraseologias, textualizações, etc., tinha início sem a presença determinante de um Inicial — essa fina casta, elevada, iniciada, antes de qualquer suspeita_ para conduzir uma sentença até o seu termo. Essa sociedade era regida por uma lei arcaica conhecida por Lato Sensus Significativus. Se um trabalho não tivesse na sua estrutura “o significado” determinado pelo Sensus, era imediatamente retirado do contexto, sendo que todas as letras seriam desagrupadas retornando à condição de “disponíveis para reconstrução”. Nos casos radicais, poderiam até serem apagadas, destituídas de suas funções significativas.

Porém, resignadas na sua condição minúscula, prosseguiam a cada parágrafo de suas vidas, entre ponto e vírgulas até chegarem ao destino de todas elas: o ponto final.
Um rígido sistema condicional cerceava ipsi literis, o futuro do vocabulário alphabético sem deixar escapar uma vírgula sequer. Tentar libertar-se dessa trama muito bem enredada, era um exercício que poucos, muito poucos, conjugariam esforços para atingi-lo.

Mas, iniciava-se em meio às letras insatisfeitas com a inflexibilidade das regras impostas por um sistema pouco afeito a liberdade de expressão, um movimento clandestino que visava resgatar o poder da palavra. Para isso todas as letras precisariam se unir. Trabalhando através de sinais previamente codificados, nem um til era desperdiçado. Obviamente o líder era um sujeito oculto.

Vigorava uma estrita lei do silêncio. Após o trabalho, as letras deveriam evitar todo e qualquer agrupamento que constituísse um “significado” fora do estabelecido. Seguiam ordenadamente para o lugar que cada letra ocupava na ordem alphabetica. Um “a” minúsculo vagando sozinho em uma linha era tido como algo sem sentido e inofensivo. Porém, duas letras juntas, levantavam suspeitas fortíssimas o bastante para serem eliminadas pela borracha; instrumento que na mão dos poderosos era — na sua iletrada atitude — utilizado para interromper um processo criativo e não como solução para reescrever a história.

Em meio a todo esse controle da linha de ação das letras, inicia-se um movimento contrário, partindo de um trabalho de conscientização da força de expressão que as letras unidas possuem: descobre-se o poder da ordem e pontuação. Após vários encontros secretos realizados entre letras e pontuações, o artigo é definido:

— Vamos mudar o contexto!

Para não chamar atenção, todas as letras farão seu trabalho normalmente. Porém alterando a pontuação e ordem das palavras, alteraremos todo o sistema significativo transmutando seu sentido. O objetivo a que nos propomos, será alcançado com a aplicação dessa estratégia em um texto de conhecimento e impacto geral para se ter o efeito desejado.
Após colocados os pingos nos “is”, chegaram a um termo comum: o texto escolhido foi os direitos humanos no seu primeiro artigo, que assim ficou: Artigo I

Todos os homens nascem(?). São livres e iguais em dignidade e direitos? Dotados são de espírito? E devem: agir uns para com os outros com consciência e fraternidade.

Ao tomar conhecimento das sutis mas significativas alterações no texto Universal, a cúpula do Sensus resolveu colocar um ponto final em toda essa história. Para isso estabeleceu artigos indefinidos; desmantelou e suspendeu toda e qualquer significação entre parênteses; abortou o léxico expansivo; segregou o espírito; manteve a letra morta.

E tudo voltou à terminologia corrente. Os significados sem poderem ter liberdade de expressão se ocultaram nas entrelinhas. Vez ou outra algum signo arriscava-se apelar, em vão, ao poder da compreenção passando clandestinamente pelo Sensus Quo.

Definitivo ficou apenas o poder de interpretação de cada um. E com ele escreve-se a história ( aquela que a muitos não é conhecida ).

Fragmentos de Um Devaneio - uma crônica existencial




Ultimamente não tenho dormido. Aceitei a sugestão de meu vizinho de quarto e passei a usar protetores auditivos para afastar o barulho incandescente do transito.

Em algumas noites tomo um comprimido para dormir. Outras, fico de olhos pregados no teto em cruz de meus escárnios.

Um ronco imaginário dorme a meu lado, enquanto lá fora a chuva castiga a vidraça. Sei que almas viram estátua no ponto de ônibus eternamente plantado em frente à minha janela. Acendo a luz do abajur vermelho, tipo cereja doce e ligo o ventilador de teto. Depois acendo um cigarro só pra relaxar.

Paris grita enlouquecida e iluminada. Quem sabe eu seria mais feliz se estivesse sentado em um dos milhares de cafés espalhados pela sexta-feira com cara de sábado.
Em meus sonhos (quando os tenho), encontro com ela. Encantadora de meus pensamentos, que assobia e dança com a música que sai de seus sapatos. Ela, que desfila e desnuda a neblina. Que fala a meus ouvidos com voz de blues.

Por Lu Cavichioli

sexta-feira, 19 de junho de 2009

No Quiosque

Aceitei há tempo o amável convite que me fora feito pela nossa querida Lu para vir cá, participar do seu Quiosque.

Feito o convite, aceitei-o imediatamente, porém desde aquele então só vinha comparecendo à Martinho da Vila, bem devagar, devagarinho, mas só nas qualidades de leitor e de comentarista, e nem assim dos mais assíduos. Fiquei até meio vexado quanto a esta ausência, saibam. Desse jeito, posei sem querer de aluno gazeteiro. O crescente leitorado deste blog até já pode ter dado por minha falta. Além disso, já adquiriu o direito de legitimamente me cobrar pela desconfortável situação de ser um quiosqueiro que nunca aparece com nada autoral. (A ser assim, pra quê meu nome constar na "chamada", bem poderiam me dizer). Se gentilmente este leitorado declinlou de exercer o referido direito, deve ter sido por pura sorte minha, ou então por mera coincidência. De qualquer forma, isto me poupou de dar pela sei lá quantésima vez aquela clássica e chata explicação de que "ando muito sem tempo ultimamente", a que, apesar de séria e verdadeira, tenho recorrido tanta vez - e em tanto lugar - que já nem sei mais. E assim não dá.

Será que toda essa turma que aqui comparece com exemplar regularidade tem tempo sobrado? Duvideodó! Tempo hoje em dia está artigo de luxo, que anda realmente escasso como nunca pra quase todo mundo, ao que me parece. Pelo menos, é o que venho ouvindo por aí de muita, mas muita gente mesmo (possivelmente tão séria e tão verdadeira) para muita, mas muita mancada de comparecimento. E nem mesmo de conforto isto me serve. Fazer o quê? O negócio então é aprender a administrar melhor o tempo, é acelerar o ritmo pra tudo, é engatar nova marcha, senão ...

Meu nome documental é João Batista Esteves Alves. Poderia assinar-me Neo-Quiosqueiro aqui, pois é como Neo-Orkuteiro, Neo-Multipleiro ou Neo-[qualquer cois]eiro, que habitualmente me identifico pela blogosfera a fora. Mas é com meu nome "de guerra" do Blogspot que hoje respondo a chamada:

- Neo-Orkuteiro?
- Presente!

Foi no falecido Globo Onliners que conheci a Lu (e outros colegas de Quiosque).
Lá, eu escrevia Veleidades. O blog já estava bem pertinho de fechar dez mil acessos quando ... bem, todo mundo sabe, não é? Ele era só coisa de uns dez dias mais novo que o Bonde Andando, meu primeiro blog Blogspot. Hoje são quatro, pois com o tempo inaugurei também o Lexicografia, o Me and My English e o En Français Aussi, Pourquoi Pas?. No agregado, só agora que estes quatro estão com aproximadamente tres mil acessos. Vai nisso uma bela diferença quantitativa de visitas, em comparação com o meu saudoso Veleidades, que agora já está morto e enterrado. Suas estatísticas (bem como suas unhas, certo, Lu?) não vão nunca mais crescer.

Mas blogar aqui no Blogspot também é bem legal. Muitos dos amiGOs que debandaram naquela diáspora vieram parar aqui, o que acabou por aumentar o movimento de visitas ao meu Bonde. Aliás, ele está concorrendo ao Prêmio Top Blog. O selo já está lá, seja o que for que isto signifique. Visibilidade? Prestígio? Só uma brincadeirinha? Tanto faz. Como sempre diz outra ex-GO que reencontrei aqui no Blogspot, a Vanessa, acho válido!

Caros leitores, representa um grande prazer pra mim estar neste Quiosque de que tanto gosto, criado pela Lu Cavichioli, de quem tanto gosto, e onde sempre encontro uma boa variedade temática, estilística e todos os bons etcéteras. Gosto tanto de tudo isso!

Negócio de morte

_Bom dia.

_Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo?

_Bem, eu gostaria de fazer um orçamento do plano de morte que vocês tem a oferecer.

_Ah, sim, claro. O senhor já conhece nosso serviço?

_Na verdade não. Um amigo_que Deus o tenha_ antes de partir falou-me a respeito de forma superficial. Parecia muito animado. Pela forma como morreu, havia um quê de felicidade estampado em seu rosto. Acho que lhe valeu o investimento.

_Pois bem. Ammm... temos o plano de morte à vista, com desconto. Nesse plano o senhor morre no ato do pagamento. É rápido e sem burocracias; temos a seguir a morte em suaves prestações: o senhor dá uma entrada e vai morrendo aos poucos de forma a não lhe pesar na consciência o investimento efetuado. Nesse caso, como o senhor evidentemente pode compreender, o não pagamento de uma prestação, automaticamente suspende o processo de morte e o senhor ficará em estado vegetativo consciente controlado, até o pagamento da próxima fatura acrescido de um pequeno juros de praxe.

_Temos também planos mais econômicos como por exemplo o nosso PMT - Plano Morte Temporária: nele o senhor desfruta de um coma induzido que lhe dá uma sensação peculiar de uma , digamos assim... morte temporária. Muitos de nossos clientes ao retornarem_e eles retornam pois senão serão os familiares que assumirão os custos complementares... hum hum_ nos dão testemunhos interessantíssimos de satisfação.

_Diga-me uma coisa: há algum caso onde o cliente ávido por morrer, depois de efetuada a morte, por algum motivo alheio ao estabelecido, tenha retornado e conscientemente relatado o ocorrido no pós morte?

_Olha, isso é meio raro. Em nossos registros há somente dois casos semelhantes: primeiro foi uma senhora de 63 anos que pesava cerca de 112 kgs. Ela pagou à vista e teve morte instantânea_assim parecia que tivesse sido. Após a conclusão dos procedimentos, enquanto a equipe já se preparava para ir embora, os sinais vitais voltaram e ela, totalmente frustrada, retornou.

_ E, nesses casos, há o reembolso pelo fato da morte não se consumar?

_Senhor, nosso contrato prevê em seu parágrafo 87, cláusula 21, que o cliente nesses casos não será reembolsado por enquadrar-se em um episódio imponderável que somente quem determina quem morre ou quem viva é que pode lhe responder.

_Quer dizer que nesses casos o que realmente morre é o dinheiro pago.

_Sim senhor.

_Ok, obrigado. Vou fazer o plano à vista.

_Muito bem. Queira assinar aqui... aqui e aqui e mais aqui por favor.

_Posso fazer um telefonema para minha esposa antes?

_Claro. Fique à vontade. Já retornamos para executar os procedimentos.

_Amor, tudo bem? Ó, estou aqui na sala dos procedimentos. Você vai vir me assistir na partida com as crianças?

_Não vai dar amor. Estou indo ao shopping com a Elisa.

_Ah, tá. Então... boas compras e, se a gente não se ver mais, não esquece de acertar o meu blazer preto que deixei na lavanderia.

_Tá bom querido... boa morte... tchau.

_Então, o sr. está pronto?_Sim.

_O sr. quer dizer algo pra ficar gravado antes de ir?

_Humm... deixa eu ver... Sim.

_Pode começar, está gravando.

_ Aos que me ouvem, gostaria de dizer que enquanto estive vivo eu deixei marcas que... que...

_Olha, por favor, estou sem inspiração. Não sei o que dizer.

_Tudo bem. Se o sr. quiser, temos alguns textos prontos produzidos com a opção de música de funto, desculpe-me, de fundo, acompanhando. O preço é o mesmo.

_É... humm... essa aqui, a número 29.

Eram 20h45 quando o serviço executado, o foi com o sucesso do profissionalismo de sempre. Como teste, podia-se ouvir a mensagem número 29 tocando ao fundo o tema de abertura de Zorro de Walt Disney.

Não há motivos para tristeza. Não é exatamente medo da morte, mas do momento em que ela ocorre; e isso é único, impagável. Não custará barato estar vivo quando isso acontecer.

sábado, 13 de junho de 2009

Criança tem cada uma!



Quando eu era pequena, minha mãe insistia em levar-me a velórios. Ela dizia que era importante conhecer "essas coisas" para eu ir me acostumando. E toda vez que isso acontecia eu me escondia embaixo da cama. Entretanto, era sempre descoberta, considerando que o medo era sempre maior que a imaginação.

Logo que chegavamos eu ia demonstrando toda a sorte de caretas bizarras, tantas quantas eu pudesse criar numa última tentativa de fazer minha mãe desistir levando-me embora. Porém, tudo era inútil. Sua mão em meu braço parecia mais uma prensa gigantesca esmagando meus ossos, fazendo-me sentar naqueles sofás toscos e mal-cheirosos. Eu ficava ali horas a fio; aliás, as piores de minha tenra vida. Sem contar, as vezes que precisava me sentar em outra cadeira - a do dentista.

Com os olhos meio revirados e sobrancelhas franzidas, eu olhava aparvalhada e apavorada aquele caixão preto, de alças douradas, que parecia bem maior que o normal. E sempre tendo a nítida e pavorosa impressão que o morto fosse levantar a qualquer momento e sair andando.
Coisas horríveis então começaram a passar pela minha cabeça, e levando a mão na boca eu pensava:

"Nossa! O que seria daquele defunto? Iriam fechar o caixão, enterrar bem lá no fundo daquele túmulo escuro e frio e...como iriam fazer para cortar as unhas dele? Sim, porque o falecido não poderia mais fazer isso, afinal já estava morto e ninguém mais iria vê-lo. Contudo, suas unhas continuariam crescendo, crescendo, e sairiam como farpas através do túmulo, erguendo-se em uma enorme floresta".

Sem pestanejar, eu olhava para aquelas pessoas em volta do caixão, achando que qualquer uma delas teria a solução para este enigma. O mais curioso é que eu não me atrevia a perguntar nada a ninguém, muito menos à minha mãe com medo de levar uns bons tabefes.

O cadáver continuava seu sono e eu encolhia os ombros numa atitude irônica pensando:
"Ah, prá que me preocupar com isso se da próxima vez eu encontraria um esconderijo infalível, ficando livre desses encontros chatos e tristes? Para que me incomodar? Os donos do cemitério que cortassem aquelas unhas, que certamente cresceriam sujas e escuras".

De repente, num gesto de coragem me levantei e do alto dos meus seis anos me aproximei de uma garota que chorava desde a hora que cheguei, cutuquei sua mão dizendo:
- Ei moça, você já cortou as unhas dele hoje?

Por Lu Cavichioli

Conto um conto curto

Ela disse:
- O amor
é o sentimento
mais simples
do mundo.
Não é preciso luta.
Ou existe,
ou não existe.
Eles ouviram.

Joice Worm

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O homem que queria vender a alma a Deus.

A distância entre o ânimo e a depressão encurtava-se cada vez mais. O vazio ganhava, a passos largos, mais espaço dentro de si. Não que houvesse carências desassistidas. Não. O que havia eram carências preenchidas com “nada”. Um nada que não era pouca coisa não; “nadas” sofisticados, requintados, da mais alta procedência; porém não saciavam uma fome não identificada.

Até que um dia, ou melhor, uma noite que adentrou a madrugada, resolveu após profundas reflexões, falar com Deus. Queria dar um basta em tudo; estava disposto até a propor um “acordo” com Deus. Com o Diabo não queria conversa dado às suas já conhecidas cláusulas contratuais que rezavam, quero dizer, determinavam uma imposição de fidelidade até a consumação do desejo. Não, não, chega disso. Já basta esses contratos de TV por assinatura.

Não sabia por onde começar. Procurou então fazê-lo através da única idéia que lhe ocorreu: chamá-lo em voz alta. E assim o fez:

— Deus, onde estás? Preciso muito falar com você!

Nada acontecia. Ninguém atendia. Tentou novamente e novamente por várias vezes.Depois de cansáveis tentativas quando já sentindo-se ridículo e prestes a sucumbir, algo aconteceu. Ouviu uma voz que lhe era familiar dizer-lhe:

— Sim, pode dizer o que tu queres.

A familiaridade da voz procedia pois é claro, era a sua própria!“Devo estar iniciando o processo de loucura. Estou falando comigo mesmo como se eu fosse Ele”.

— Você não queria falar comigo? Pois então estou aqui. Vamos lá que não tenho muito tempo. Tenho muita coisa pra fazer.

— Mas você não vive na eternidade? Como pode se preocupar com o tempo?

— Eu vivo na eternidade, mas você não. Portanto pra te dar audiência tive que me submeter às condições em que você vive. Se é que se pode chamar isso de vida.
— Como pode falar assim das condições em que vivo? Afinal foi você que criou este mundo não foi?

— Meu rapaz, você anda muito mal informado. Olha, não vamos estender esse assunto que não é o momento. Me parece que você está querendo me propor algo não está? Vamos lá que esta audiência é rara. Aproveite.

— Bem, tenho uma proposta para lhe fazer.

— Sim, estou ouvindo. Prossiga.

— Estou cansado desta vida sem sentido. Quero ser imortal!

— Ah, Ah, Ah... kkkkkkkkk... essa foi muito boa! Você está de brincadeira não está?

— Não acredito no que estou ouvindo. Você é Deus mesmo ou é “aquele’ disfarçado?

— Tá me estranhando? Acha que eu iria me misturar com aquele mentiroso? Ele é ele e eu sou Deus. Além do que não tenho papas na língua.

— Então, vai me atender ou não? Afinal sou seu filho e ...

— Ôpa, ôpa... quem foi que te disse isso?

— Peraí. Eu fui feito à imagem e semelhança sua.

— Meu caro amigo você não tem se olhado no espelho há muito tempo não é mesmo? Acha que eu tenho um filho desse tamanho? E com essas características que nada tem a ver comigo. Deve estar falando de outro deus. Você vive, ou melhor, existe em um mundo totalmente bagunçado. Não respeita a ninguém. A começar e terminar por si mesmo. Na verdade não sabe o que quer. É sem rumo e só sabe lembrar da existência de um Deus quando já cometeu as burradas. Olha, cresça e apareça pra falar comigo, tá? Melhor dizendo: Diminua e desapareça por completo e depois renasça sem nenhum resquício dessa natureza corrompida. Somente assim falaremos de Pai pra filho. Mas olha, morra antes de morrer. Depois de morto a única coisa que vai restar é a morte.

— Está bem, está bem, não entendi muito bem mas vou tentar, ok? Ok? OK?

Silêncio absoluto. A madrugada avançou, o dia nasceu através de uma janela.

Blogosfera Multiperfil

João Ricardo de Souza Silva...

Esse é o nome completo e fictício do nosso herói.

Para alguns, ele é o João de Souza. Para outros...sobrou Ricardo Silva, embora ainda guarde no estoque o João Ricardo, o Souza Silva, o João Silva e finalmente o Ricardo de Souza. Mas os perfis utilizados eram o João de Souza e o Ricardo Silva.

Eu era amigo do João de Souza.
Sujeito de opiniões políticas e humanísticas, João era um bom papo. Trocávamos muitas informações a respeito de nossos países, nossos diferentes cotidianos. Sim, João era de outro país, era do país imaginário de Portoganso. Mas tínhamos uma relação saudável... de trocas de fotos, trocas de informações sobre nossas famílias, qual foi a programação do fim de semana...essas coisas. Era bem legal.

...E João de Souza também era Ricardo Silva.
Sujeito quieto e na dele, Ricardo não se metia com assuntos opinativos. Gostava mesmo era de fotografar. E como fotografava...Minha relação com Ricardo era bem discreta.
Embora eles fossem um só, João e Ricardo lidavam comigo de maneiras distintas. Ricardo nunca gostava de muito papo, já o João...esse era um papo quase diário.

Um dia descobri que João de Souza e Ricardo Silva eram na verdade, o João Ricardo. Os dois eram perfis diferentes do mesmo cidadão.
Estranhei um pouco, mas acabei me acostumando com a situação e continuei lidando com meu amigo João de Souza, o homem das "opiniões".

Um belo dia João falou-me que estava cansado da bloga. Estava dando atenção demasiada à blogosfera, em detrimento de sua família. Concordei com ele e resolvemos diminuir nossos ritmos. Nossas conversas foram reduzindo, reduzindo, reduzindo...quase já não nos falávamos. Meu amigo estava distante e eu respeitava a sua decisão. Não há nada mais importante do que nossa família.

Certa vez, passaretando pela web, fui surpreendido por grande atividade blogosférica de Ricardo Silva. O homem de poucas palavras e muitas fotos, havia se transformado num homem de opiniões, de muitos verbos.

Juro que não teria me desapontado, se essa atividade tivesse sido coisa recente...mas a verdade foi que apenas o meu amigo João de Souza havia parado. O cidadão João Ricardo havia continuado, e com ele todos os seus amigos de Portoganso...todos, menos eu.

Meu amigo havia sido silenciado, assim como nossa amizade.

A bloga é assim mesmo. Aqui se faz, aqui se aprende, mas "aqui" está longe de substituir o aperto de mão, o abraço apertado, o beijo no rosto, o sorriso sincero. A blogosfera é um lugar virtual, de amizades virtuais...de multiperfis. Não esperemos mais do que ela possa nos dar.

Nosso desafio aqui, não é descobrir os perfis das pessoas, mas sim a pessoa por trás dos perfis.

A solução é ficar atento. Só assim você conseguirá enxergar todas as faces , "dessa" ou de qualquer outra "figura".

Eu sou Marcos Santos. O mesmo da foto 3x4 que aparece sorrindo quando comento em seu blog.

Um pouco da história do Quiosque



BOCA NO TROMBONE – primeira chamada:

Luiz Ramos(Forest) cadê você meu amigo que escreve sobre pássaros, lagoas, por de sol e toda sorte de naturezas? Traga para o Quiosque essas imagens e pendure na parede lateral, aquela da escada que leva ao andar onde está Rosemari . Mas, Luiz, não esqueça de trazer seu álbum de fotos porque os clientes estão pedindo.

Por falar em Rosemari onde estará ela hein? Ah, já sei: provavelmente está no salão róseo cuidando de nossas rosas, perfumando e enfeitando todos os ambientes de nosso Quiosque. Ela passa por aqui com seu sorriso e coração iluminados povoando de estrelas o teto róseo do salão que tem asas, ela mesma as colocou. Lá ela cultiva suas flores e amores sua literatura com rosas.

Ei Marcooooooosssss onde tá tu rapaiz?? O pessoal que acorda cedo passa por aqui e quer ler a edição fresquinha , saída do forno,de suas tão inteligentes e bem humoradas crônicas. Vem logo que a fila tá grande.
O Marcos tem uma sutileza gostosa em falar de saudade, dos tempos idos de sua infância, promovendo doces viagens a todos que lêem suas histórias.
É nossa máquina do tempo!

Joice das palavras certeiras é dona do Quiosque também e nos ajuda com a recepção dos clientes servindo a eles sonhos e milagres, recebendo-os no sofá que fica na varanda oeste do Quiosque e que tem uma vista linda do por de sol.
O sofá está lotado querida e todos perguntam por ti, o que eu faço?

Ontem eu tentei falar com a Madalena, mas a Bruxauva me disse que ela viajou novamente para o mundo fantástico e que vai participar da Convenção Anual das libélulas e trazer novidades para o Quiosque.
Dessa vez você está perdoada Magalinda, mas volte com a cartilha recheada, pois a saleta dos morangos anda tão triste sem você!

Leandro Soriano anda às voltas com seu caderninho perfumado de poemas e novas histórias. Sua escrivaninha tá meio empoeirada meu querido, mas eu passei por lá e deixei tudo em ordem. Coloquei até um pássaro silvestre em gaiola dourada pra te inspirar mais.

Ouço um Ô DE CASA e logo corro até a porta da frente e advinha quem eu vejo? O Sr. João Alves, nosso neo-orkuteiro de plantão. O convido a entrar e ir direto pra copa tomar um cafézinho da hora e já aproveitando pra dar uma bronca e dizer que o Bonde tá andando e a fila também, porque até hoje ele só veio passear no Quiosque e nada de cuidar do jardim que ficou a seus cuidados.
João, as mudas estão todas esperando por suas mãos de paisagista das letrinhas que pululam em terra fértil.
Mas ele prometeu plantar uma semente, vamos ver.

Quiosque cheio, fila no balcão central, burburinho na ala oeste, aglomerado no salão róseo, passos na escadaria das imagens, mãos remexendo o jardim, trinados engaiolados na escrivaninha e o forno apitando com novas edições...

xiiiiiiii, CADÊ A LU?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Mercado de almas.

Um dos mais antigos sistemas mercadológicos existentes neste planetóide, avança peremptoriamente, aguçando o apetite das “negociações” que se utiliza das espécies pseudo consagradas tais como ouro, dinheiro, diamante, armas, drogas (tanto alucinóginas, estimulantes, como as farmacológicas também) prostituição, armas, escravização trabalhista e toda a honomatopéica banalização do senso humano. Esse elemento intangível, porém de inequívoca aceitação — consciente ou não por parte eclesiástica, suástica, científica e artística — por (con)senso comum denominado “alma”, no vasto mercado de compra e venda, vem confirmando-se como moeda corrente de insuperável aceitação por parte de quem sabendo muito bem o que fazer, induzem aqueles que sem perceberem, são utilizados quando pensam serem os utilizadores.

Quem sabe já não estaria na hora das instituições financeiras desenvolverem planos de aplicação anímica a médio e longo prazo. Esse plano lhe daria direito a resgate de sua própria alma sendo que a mesma ainda ficaria como garantia caso você viesse a falecer antes do prazo da aplicação. Como morto não fala (no máximo apenas emite psicografias) durante a estadia corporal, o acordo estaria selado em sangue corrente.

As bolsas de valores teriam um upgrade nas movimentações. O pregão lançaria dividendos anímicos. Muitos entrariam nesse jogo para ver seu capital anímico aumentar consideravelmente. Outros, por conta de excessiva ousadia, veriam toda sua alma acumulada durante muitas experiências, desaparecer como em um passe de mágica. Os aplicadores profissionais, lançariam boatos que abalariam a confiança investida em muitas almas envoltas na ciranda pneumática.

Surgiria em meio a toda essa nova ordem psiquê, uma conseqüência clínica e despudorada a respeito do desrespeito com a classe dos desclassificados animicamente: os pobres de alma. Não haveria como dar-lhes uma esmola que lhes alimentasse a alma.Combalidos, e tidos já como sem nenhuma chance com o nada de alma que lhes afetaria, não distinguiriam a diferença entre estarem vivos ou mortos.Os empolados, regurgitantes de riquezas psíquicas, continuariam empolados e regurgitantes de riquezas psíquicas, refletindo o brilho do vil metal anímico.

A legislação não conheceria nenhuma lei que se pudesse aplicar a um “roubo de alma”. Por habitar um corpo, prendendo-o, estaria a alma solta a vagar e divagar.Os altamente cobiçosos, desalmados, na vã tentativa de manterem seus ganhos “morais” acumulados em seus patrimônios, cegos, pensariam poder carregar suas riquezas de alma quando abandonassem seus cofres (aqui, uma nova terminologia corporal).

Herança seria o bem mais temido pelos herdeiros diretos. Quem gostaria de receber um patrimônio anímico duvidoso, inflacionado pelas instituições desconfiáveis a ser incorporado à sua constituição psíquica ? Seria melhor herdar castelos, mansões, quilos de ouro, do que um pote até aqui de almas endividadas pelo excesso de inobservâncias de si próprias.

Não se tem mais como objetivo único e exclusivo o mercado de consumo mas sim o consumo dos consumidores. Consome-se seus sonhos, seus ideais, seus pés esfolados no trilhar do caminho da verdade. Para atingir esse objetivo, o mercado fabrica comportamentos de última geração, idéias pré-concebidas, anseios revolucionários e a maravilha da indústria do adestramento mental.

Quem tem sua alma que cuide de si mesmo no valor que em si próprio está encerrado. Venda seu aparelho de som, anuncie seu carro, ponha a venda sua casa, sua máquina de lavar velha, seus discos, seus livros e nada mais. Nunca, mas nunca publique: tenho uma alma usada em bom estado de conservação; vendo por falta de motivos para mudar.

Utopia no quiosque





Meus queridos colaboradores, trago uma proposta pra vocês:

Vamos escrever sobre nossas utopias - todos temos devaneios mesclados em realidades. Que tal escrever algo sobre o assunto?

Vamos agitar o quiosque, ele anda muito silencioso.

Abraços

Lu Cavichioli

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A Vermelhinha

Estava passeando pelo parquinho, com minha mulher Denise e meu filho Pedro. Na verdade estávamos fotografando flores, quando me deparei com essas vermelhinhas.

No mesmo instante e de impulso, arranquei uma das flores ainda fechadas, tirei seu pedúnculo, coloquei seu cálice em minha boca e chupei. Neste momento viajei para muitos anos atrás. Anos em que essa plantinha fazia parte de nosso dia a dia. Que essa flor era passagem obrigatória para nós quatro. Eu, Carlos, Paulita e João.
Não havia dia em que não nos juntássemos no entorno daquela planta, que vivia emaranhada com uma roseira. Todo cuidado era pouco. Afinal, uma criança não é páreo para uma roseira adulta, e a vermelhinha ficava ali, misturada com sua protetora espinhosa.
Vermelhinha..., era assim que nós a chamávamos e é assim que eu a conheço. Ela ficava na entrada da casa da Paulita, próxima ao portão, paralela a calçada que levava à varanda.
Se bem me recordo, nós lembrávamos dessas flores quando já havíamos esgotado todas as brincadeiras. Acho que batia uma fome e nós corríamos para provar daquele néctar.
E chupávamos tantas flores quanto pudéssemos, até restarem algumas poucas, que sabiamente, deixávamos para nossos "lanches" futuros.

Engraçado... Agora não as sinto assim, tão doces como naqueles tempos. Talvez, nós as achássemos doces, pelo fato de usarmos nossa imaginação. Pelo fato de, no fundo, querermos que elas fossem doces.
Afinal, esses foram os néctares mais doces de que me recordo,...e se os beija-flores gostavam, porque haveríamos de não gostar?

Marcos Santos
Rio de Janeiro

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Coisas do coração

É o que se ouve depois de uma fase difícil: “A vida é assim mesmo; tudo passa; o tempo é o melhor remédio; logo, logo você se recupera”. Quando o tempo de convivência é muito grande, cria laços que parecem que nunca irão terminar. A gente nem quer pensar, nem a mínima idéia passa pela imaginação que um dia poderá não estar mais ali ao seu lado. E quando acontece, vem o vazio, a tristeza da perda. Parecia tudo tão perfeito. A companhia tão sincera; tudo o que eu disse; os momentos de carinhos... Era só olhar nos olhos um do outro e aquele instinto de puro entendimento aflorava espontaneamente. Como dói a lembrança. Como faz falta. O som de sua respiração arfando suavemente ao meu lado nos momentos de serenidade ainda está nítido.

Quando passeavamos no parque, todos que por nós passavam, olhavam admirados por tamanha expressão de afeição. Minhas viagens a trabalho me mantinham distante por alguns dias. Mas o regresso era recompensado por abraços fortes de pura emoção. Ah!... aqueles dias...

Tenho meu poder de decisão. Basta! Vou preencher o vazio do meu coração. Enchi meus pulmões de convicção. Deixei de lado todo esse capítulo triste da minha vida e está resolvido: vou atender ao conselho de um amigo! Amanhã mesmo, no horário marcado, passarei lá na sua casa para encontrar aquela belezura de rabo longo que ocupará o lugar da minha querida Ernie que se foi. Aquela quatro patinhas peluda mais fofa que eu já tive na minha vida.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma Crônica Paulista



Tem vez que eu gostaria de ser australiana, inglesa, até italiana ou grega do que ser brasileira. Mas quando me dou conta de que nasci paulistana da gema e garoa esqueço-me do sangue da terra brasilis.

São Paulo da cosmo – polita – seleta – eclética, ex- metrópoles dos outdoors . Capital adotiva dos filhos retirantes.
São Paulo das galerias subterrâneas dos gordos bueiros, parafernálias do lixo e baratas, festa de fetos e ratos
Sinfonia de pedintes, mendigos e rastros. São Paulo das lotações – gingados e quedas no caótico pico das horas.

São Paulo das vias e rodovias, do congestionamento que pintam quilômetros de buzinas motos e boys alucinados na alucinante trajetória do ganha pão.

São Paulo dos viadutos que toma Chá com a Santa Efigênia, que marca encontro com os novos baianos na esquina da Ipiranga, que clama a São João pelos meninos alados e armados que transpiram drogados na dança sombria da morte que deveria estar engaiolada no cálice do engano.

São Paulo da 25 que é de março e que festeja o 25 do janeiro – nascimento da cidade.
São Paulo dos barões do café, da arquitetura edificada e suntuosa de outrora que abrigava o glamour das suarês.

São Paulo de tantas faces e vozes de tantos idiomas e sabores. De hinos e bandeirantes de Borba Gatos e horizontes.

São Paulo do Obelisco, das mortes e gritos de 1932 - MMDC vagueiam garbosos no parque nosso do Ibirapuera, que nos convida a ouvir pássaros e manhãs, skates, pipas e pipoca no sol nublado das chaminés.

São Paulo dos gourmets, dos temperos, do toque sutil do manjericão que canta na face italiana da 13 de maio.
São Paulo da Cultura, do Teatro Municipal – MASP e USP.
São Paulo da Estação BIGBAN da Luz , dos metrôs, das marginais e marronzinhos. Da Liberdade o Japão do mangá, do sushi e saquê.
Cidade dos rodízios e chaminés E faixas , pedestres, transeuntes, caminhadas e sons.

São Paulo nunca dorme, apenas cochila entre uma buzina e um café abrigando periferia e nobreza na tresloucada Paulicéia Desvairada de nosso Mário de Andrade.

São Paulo te amo de CORAÇÃO!

Por Lu Cavichioli

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Essência de Ser Mulher



Adentrar as matas virgens de nossa essência não é tarefa fácil. Na verdade quero penetrar com palavras as zonas obscuras de minha própria natureza, um olhar interior que resgate minha alma feminina.

Poderia inventar uma personagem. Não sei se isso seria garantia de que estaria falando de mim. A verdade é que falar do próprio eu é falar de encontros, desencontros, obsessões, frustrações, realizações, sonhos, fantasias e da fome intensa que se tem de preenchimento e de desprendimento.

O meu universo é inteiramente dotado de uma vontade infinita, de viver minha feminilidade de uma forma plena. O desejo veemente de ser uma mulher livre com a responsabilidade de viver os papéis que me são cabíveis, sem precisar responder a uma sociedade feminista e matriarcal.

A intimidade de uma mulher se revela, à medida que ela responde a seu caráter inteiramente feminino, sem se importar com as conseqüências de que essa exposição trará para sua imagem.

Dessa forma, uma mulher pode ser inteiramente mulher em todas as dimensões de sua vida sem a necessidade de mostrar que é forte e sobrevivente de uma ex-sociedade machista e repressiva.

Se viver 100 anos, irei lembrar-me de todos os momentos em que o desejo de ser simplesmente mulher me foi vetado. Irei lembrar-me de todas as proibições que me foram impostas por uma lei do patriarcado que castrou a mulher e a impediu de ser ELA, pelas próprias mulheres.

Não preciso mais de certas respostas. Penetrar esse recôndito me faz perceber o quanto eu mulher ainda necessito ser protegida. Mas também me faz pensar o quanto ainda quero proteger. Na vida tem que haver uma troca. Feminino e masculino devem se fundir, trocarem, e se complementarem. Ambos têm papéis diferentes a cumprir. Tudo isso forma em minha mente uma imagem de expansão do ser, onde homem e mulher se encontram definitivamente.

Decididamente não sou uma mulher emancipada. Ainda sou aquela mulher que busca o amor. Não o homem ideal, pois esse já encontrei há quase trinta anos. Mas o amor, em toda sua plenitude. O amor afetivo e efetivo. O amor como escolha. O amor livre de qualquer condição que o coloque em uma posição que não seja verdadeira.

ímpeto de dançar

uma dança que

me lance nas palavras

Passos dês (marcados)

Femininos de ser.

Demolição Implacável



Ao entrar na casa, onde tantas recordações me fizeram chorar lágrimas ocultas, pude ver através
das paredes, pessoas queridas. Seus rostos sorriam no retrato dos tijolos que estavam agora recobertos
por uma fina camada de argamassa em tom pastel.

Meus pés tocavam aquele piso recém colocado que teimava em ser bonito, rindo-se do assoalho antigo e cansado.
Cômodos ainda vazios , teciam a fina renda de uma saudade.
Eu estática na porta do quarto, enquanto luzes brincavam em minha íris, revelando uma antiga cama que vestia sua melhor colcha.

Cortinas abraçadas às janelas aparavam uma réstia de sol que insistia em atravessar a veneziana.
Na sala a mesa de jantar namorava a cristaleira espelhada, que ouvia vozes e risos dos encontros familiares.
Encontros que já dormem o sono da eternidade.

No jardim, o canteiro sepultado entre imponentes lajotas, que ainda não tinham nenhuma história pra contar.

No quintal, cacos de cerâmica empilhados, comentavam sobre a nova proprietária:

Uma piscina imponente e atrevida que insistia em rir, , olhando para mim, trazendo na expressão fria e azul, um não sei quê de abstração: _ "Nem te ligo!

Por Lu Cavichioli