No Balcão do Quiosque

terça-feira, 30 de julho de 2013

JUCA E ANA PAULA


Juca nunca namorou na vida, apesar dos seus 88 anos. Minto! Ele namorava a Ana Paula Padrão toda noite quando assistia o Jornal da Record [na verdade nem prestava atenção às notícias, mas sim na moça] . Era sua namorada. Gostava da sua voz firme e macia, do olhar direto que lhe arrancava suspiros e do sorriso largo quando lhe dava boa noite. Todo dia lá estava ela no único cômodo que era sua casa. Até que dia 20 de março desse ano foi o último dia que a moça apareceu para lhe visitar. Sumiu...

Juca ficou emburrado com o vizinho que cuida dele. Foi mais de um mês sem lhe dirigir uma única palavra. O vizinho tentou de tudo para saber o porquê da revolta e raiva, mas Juca apenas lhe devolvia o silêncio e o desprezo...  Depois de longo período calado ele desengasga o que lhe fere a alma:

- Pensa que não sei? Eu sei... Ela nunca mais veio me ver porque você fez saliências pra ela! Ficou de cueca na frente da minha namorada e ela ficou zangada comigo, e nunca mais veio me visitar.

O vizinho pensou, pensou e lembrou que no dia da despedida da moça do Jornal da Record, ele estando sem chuveiro e pediu para tomar banho na casa do Juca. Tirou as calças e camisa e colocou em cima da cama [já que não tinha cabide no banheiro] e rumou para o chuveiro de cuecas... E não é que a Ana Paula estava justamente nesse dia dizendo que ia sair do jornal da Record para “Cuidar das causas da mulher.”? Não adiantava dizer que a culpa não era dele, pois para um coração apaixonado era impossível argumentar as tecnologias e as suas possibilidades...

Juca ficou sem a única e agraciada namorada. Perdoou o amigo, mas mesmo hoje, quando lembra do sorriso que ela lhe dava, sempre vem uma magoazinha...

Marly Bastos







terça-feira, 16 de julho de 2013

O AMOR É ESTRANHO


Ahhh quão estranha é essa forma de amar! Seria perfeita se fosse aquela que o apóstolo Paulo nos ensina em I Coríntios 13:4-7: “O amor é sofredor, é benigno, não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça e sim com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
Todavia, amamos um amor enciumado, com contendas bobas às vezes. Sentimos medo de perdermos um ao outro; sentimos raiva por não sermos entendidos, de não sermos notados... Pensamos em desistir no meio do caminho quando sentimos os obstáculos maiores que nossas possibilidades[e muitas vezes voltamos ao ponto de partida...]. Irritamos por coisas corriqueiras, e fazemos de simples pingos de chuva uma tempestade.
Apesar de tudo, sinto que vale cada dia contigo, quando ao acordar vejo que me contempla com olhos de admiração. Admiração?? Como pode amor? Já não sou mais a jovenzinha que você conheceu e ao longo dos anos notou o meu transformar em mulher madura, um tanto mais segura, com uma voz mais mansa, uma personalidade mais flexível e um olhar mais profundo.
Esses dias, você me emocionou quando ao abrir meus olhos espantada pela hora já perdida para o trabalho,  disse-me simplesmente: “Eu podia ter te acordado, mas também perdi a noção do tempo ao contemplar sua beleza.”” Eu bela, e logo ao amanhecer? Cabelos desalinhados, lábios e olhos inchados?” “Sim, linda! Assim, lábios carnudos, olhos profundos que eu não canso de olhar a quase 30 anos...”
Veio-me tantas coisas para lhe dizer, mas fiquei com um nó na garganta... Aconcheguei-me em teus braços e deixei que as horas perdidas ficassem no tempo. Quase trinta anos sim! Conheci o amor quando olhou nos meus olhos! Conheci a paixão quando me beijou a alma, quando me despiu de pudores, quando me fez andar na “corda bamba” por mostrar-me que o céu pode ser tocado se os corações estão na mesma sintonia.
Houve sim muitos obstáculos em nossos caminhos, destrilhamos nossos rumos, mas os atalhos nos levaram ao mesmo lugar: Nossa vida juntos! Creio que os desencontros fazem parte do aprendizado, e é comum para qualquer ser humano. Somos humanos!
Inúmeras vezes já te declarei o meu amor, e nunca fui leviana em nenhuma dessas vezes! Leviana eu fui quando deixei de mostrar-te de formas diferentes o que tenho guardado na alma: Uma mistura madura de sentires tal como respeito, carinho, amor, amizade, confiança... Também não poderia mentir, dizendo somente coisas boas, pois em muitos momentos me sinto confusa e um pouco insegura, pois tenho medo que te vás e não me compre uma passagem para o mesmo destino...
Sinto raiva sim de você! Quando não consegue entender-me, quando teima em não ouvir o que realmente eu quero dizer, mas passa logo, pois sei que você não tem o dom da premonição, e nem de ter as mesmas opiniões que eu [afinal não são os opostos que se atraem?]. Fico chateada quando não percebe que troquei o esmalte “Vermelho Desejo” pelo “Vermelho Paixão”, sinto seu descaso quando não nota que tirei 2 cm do cabelo...  Mas te perdoo quando diz que sou linda ao acordar!
Sei que tenho me tornado mais dengosa, mais carente e isso se deve talvez porque já me sinto órfã dos filhos que criaram asas e querem deixar o ninho. Sou carente de você, de me fazer notar quando está concentrado em seus livros e estudos, de te provocar com gestos sensuais para ver aquele famoso brilho nos teus olhos.
Você sabe que sou louca e aceita a minha loucura! Sabe que eu busco no arco-íris o mundo coloridofeito pra nós, pois sei que ele existe.  Eu sou muitas em uma só e te amo de forma única, estranha, lúdica e misturada, pois o amor é tudo junto e separado: [In]certezas, [des]apego,  companhia,  amizade, paixão, respeito e por último, definitivamente ele é eterno [mesmo contrariando o poeta Vinícius de Moraes]

Marly Bastos

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Armagedon

     Em março/abril de 2010 o vulcão islandês Eyjafjallajökull deu uma tossidela que fechou metade dos aeroportos da Europa. Durante algum tempo, os noticiários deixaram de lado as matérias sobre o programa nuclear norte-coreano para roer um osso mais suculento. Isso me levou a publicar no Sete Ramos o artigo que se segue:

     Dizem que o poder de destruição do arsenal nuclear das grandes potências é suficiente para arrasar o mundo não sei quantas vezes. Não é bem assim: a energia liberada por terremotos, erupções vulcânicas e furacões excede em cada ano, por milhões de vezes, o total de megatons acumulados nos arsenais do mundo. Está aí o Eyj-seiláoquê, que não me deixa mentir.
     Acontece que as forças naturais atacam cegamente e geralmente deixam um saldo positivo na natureza, mesmo quando ceifam vidas humanas. As cinzas dos vulcões enriquecem o solo, os abalos sísmicos formam novos relevos, os fenômenos meteorológicos equilibram as diferenças climáticas.
     Já a arma atômica foi concebida com o único propósito de destruir. As ogivas têm endereço certo: locais de grande concentração humana e tecnológica. Por isso, é melhor dizer que uma eventual guerra atômica destruiria, sim, a civilização, mas não o mundo.
     E Gaia, após sacudir a poeira radioativa (em alguns milhares de anos, simples momentos para ela), voltaria à vida de sempre - e talvez melhor, sem a interferência desse acidente evolutivo que arrogantemente se autodenomina Homo Sapiens.
     Mas talvez tenhamos uma segunda chance. Após a destruição e o morticínio iniciais, o que restar da população humana continuará decrescendo, não só por conta dos efeitos da radiação residual, mas também pela falta absoluta de recursos tecnológicos, principalmente medicinais, dos quais nos tornamos cronicamente dependentes - remédios em geral, vacinas, antibióticos etc.
     E quando a Seleção Natural tiver descartado os menos aptos e talvez favorecido uns poucos mutantes positivos, é possível que surja uma nova humanidade, menos tecnológica e - com sorte - mais ajuizada. Resta saber se nela haverá lugar para gente como eu e você...