Em 1325, Afonso IV assumiu o trono em Portugal e iniciou um intenso intercâmbio comercial com Florença. Como subproduto, a cultura toscana passou a ter grande - e duradoura - influência em Portugal. PETRARCA chegou a ser "clonado", duzentos anos depois, pelo próprio Camões - senão, vejamos:
Petrarca:
Questa anima gentil che si diparte,
Anzi tempo chiamata a l'altra vita...
(Esta alma gentil que agora parte,
Chamada antes do tempo à outra vida...)
Camões:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente...
Questa anima gentil che si diparte,
Anzi tempo chiamata a l'altra vita...
(Esta alma gentil que agora parte,
Chamada antes do tempo à outra vida...)
Camões:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente...
Pois foi também Petrarca que cunhou a bela frase (muitas vezes atribuída a Fernando Pessoa): "NAVEGAR É PRECISO; VIVER NÃO É PRECISO"
Vejamos algumas acepções que ilustram a riqueza dessa frase:
Acepção original, de Petrarca: "A navegação é uma ciência exata (precisa); a vida, não".
Acepção de Fernando Pessoa, celebrando as grandes navegações portuguesas: "É necessário navegar; não é necessário viver". Veja o poema em
http://www.casadobruxo.com.br/poesia/f/navega.htm
Para maiores detalhes sobre a origem da frase, consulte
http://cdclassic.com.br/navprec.htm
Há inúmeros outros contextos que utilizam essa frase, completa ou pela metade. E eu peço ao leitor licença para apresentar minha própria interpretação: "Navegar é preciso; viver é navegar."
O texto que se segue é uma transcrição revisada da matéria publicada no "Sete Ramos de Oliveira", em 18 de janeiro de 2010. O significado de "preciso'' deixo a critério do leitor. E a imagem da nau vem de Portugal, bordada pelas mãos habilidosas de Amélia Costa, do "blog" Estados de Alma.
NAVEGAR É PRECISO
Navegar é preciso. Remar contra a corrente nada resolve, e abandonar-se a ela pode ser pior. É preciso navegar.Navegar é conhecer as correntes e redemoinhos, as pedras e arrecifes, o vento e as marés, a enseada segura e a praia traiçoeira. É escolher um destino alcançável e planejar a rota em cada trecho. É estar preparado para o tufão imprevisto e saber contornar obstáculos intransponíveis. É saber usar o mapa e a bússola, o sextante, a barquilha e o cronômetro. Navegar, em suma, é saber chegar a salvo ao porto escolhido, mesmo sem o auxílio do GPS.
Navegar pela vida não é diferente. Aprendemos desde a mais tenra infância a distinguir o alcançável do inalcançável, e como chegar aos objetivos mais tentadores. Conforme crescemos, nossos pais nos mostram os redemoinhos e escolhos da vida e nossos mestres nos fornecem os instrumentos de navegação - que mais não são que a educação formal que recebemos. E nós vamos nos aperfeiçoando na arte de navegar pela vida, começando pelas pequenas rotas lacustres e fluviais, e as linhas costeiras, onde os menos ambiciosos se acomodam, enquanto os aventureiros prosseguem até chegar à navegação de cabotagem e finalmente às travessias de longo curso.
Mas nem todos têm a fortuna de nascer com o talento de um Torben Grael, e podemos vislumbrar muitas vezes um navegante solitário lutando contra a corrente ou dando voltas em um redemoinho. E nem sempre podemos socorrê-lo.
Pois não podemos descansar em cada porto mais que o necessário para recuperar as forças, costurar as velas e reabastecer o navio. Sempre haverá uma próxima derrota* a ser planejada e vencida.
Enquanto pudermos navegar.
* Derrota (Náut.): curso, caminho percorrido ou a percorrer
