
Quando eu era pequena, minha mãe insistia em levar-me a velórios. Ela dizia que era importante conhecer "essas coisas" para eu ir me acostumando. E toda vez que isso acontecia eu me escondia embaixo da cama. Entretanto, era sempre descoberta, considerando que o medo era sempre maior que a imaginação.
Logo que chegavamos eu ia demonstrando toda a sorte de caretas bizarras, tantas quantas eu pudesse criar numa última tentativa de fazer minha mãe desistir levando-me embora. Porém, tudo era inútil. Sua mão em meu braço parecia mais uma prensa gigantesca esmagando meus ossos, fazendo-me sentar naqueles sofás toscos e mal-cheirosos. Eu ficava ali horas a fio; aliás, as piores de minha tenra vida. Sem contar, as vezes que precisava me sentar em outra cadeira - a do dentista.
Com os olhos meio revirados e sobrancelhas franzidas, eu olhava aparvalhada e apavorada aquele caixão preto, de alças douradas, que parecia bem maior que o normal. E sempre tendo a nítida e pavorosa impressão que o morto fosse levantar a qualquer momento e sair andando.
Coisas horríveis então começaram a passar pela minha cabeça, e levando a mão na boca eu pensava:
"Nossa! O que seria daquele defunto? Iriam fechar o caixão, enterrar bem lá no fundo daquele túmulo escuro e frio e...como iriam fazer para cortar as unhas dele? Sim, porque o falecido não poderia mais fazer isso, afinal já estava morto e ninguém mais iria vê-lo. Contudo, suas unhas continuariam crescendo, crescendo, e sairiam como farpas através do túmulo, erguendo-se em uma enorme floresta".
Sem pestanejar, eu olhava para aquelas pessoas em volta do caixão, achando que qualquer uma delas teria a solução para este enigma. O mais curioso é que eu não me atrevia a perguntar nada a ninguém, muito menos à minha mãe com medo de levar uns bons tabefes.
O cadáver continuava seu sono e eu encolhia os ombros numa atitude irônica pensando:
"Ah, prá que me preocupar com isso se da próxima vez eu encontraria um esconderijo infalível, ficando livre desses encontros chatos e tristes? Para que me incomodar? Os donos do cemitério que cortassem aquelas unhas, que certamente cresceriam sujas e escuras".
De repente, num gesto de coragem me levantei e do alto dos meus seis anos me aproximei de uma garota que chorava desde a hora que cheguei, cutuquei sua mão dizendo:
- Ei moça, você já cortou as unhas dele hoje?
by Lu C.