No Balcão do Quiosque

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sacrifício

As igrejas monoteístas como o Judaísmo, o Islamismo, o Catolicismo, assim como as igrejas evangélicas tradicionais, como as igrejas Batista, Protestante, Luterana, etc, tinham nas instalações de seus templos, uma certa austeridade de conforto. Desta forma, parte do sacrifício e do exercício da humildade, tão importantes para todas elas, eram obtidos simultaneamente à execução dos cultos.

Com o advento das Igrejas Neo-petencostais, o conforto foi introduzido aos templos, com ambientes climatizados com ar condicionado, ótimo sistema de som, iluminação de qualidade e poltronas confortáveis.

Obviamente que nessas condições a humildade ficou em segundo plano, visto que todos sentem-se como se estivessem num grande teatro, ou num cinema de primeira.

Restou apenas o exercício do sacrifício. Como o sacrifício do templo virou conforto, só resta ao rebanho pagar por isso.

Haja grana.

Marcos Santos
Rio de Janeiro

sábado, 25 de abril de 2015

VOO INSONE

Não havendo como
conciliar o sono
nada a fazer, ponho-me
a monologar

Nesse modo insólito
e que me é bem próprio
de no solilóquio
ágil, divagar

Voo de passarinho
pra longe do ninho
curtindo o caminho
livre pelo ar,

Pilho-me sozinho
sinto-me mesquinho
minto-me um tantinho
só, que vai passar!

Pleno adejo, vejo
gente, afã, desejo
um penhasco, um seixo
- vou me estatelar!

Só me lembro o beijo
de cair o queixo
queixo-me mas deixo
isso me levar

Pego uma corrente
Amiga, de ar quente
Rumo indiferente
Pra qualquer lugar

Já fico contente
Ao pensar que, à frente
Vou, possivelmente
A você chegar

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

SEM EUFEMISMOS!

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Sem Eufemismos!


Há coisas pelas quais todo mundo passa na vida. Todos passamos e / ou passaremos por perdas, doenças, rompimentos, despedidas, desentendimentos e outras coisas. Até podemos, enquanto elas não acontecem, achar-nos merecedores exclusivos da misericórdia divina e acreditar que tais eventos jamais nos atingirão; afinal somos todos tão bons...

Mas estas coisas são todas inevitáveis, e nos chegam mais cedo ou mais tarde. E quando elas vem, só nos resta aceitá-las e aprender o que pudermos através delas.

Assim também é a velhice. Ninguém escapará dela, a não ser aqueles que morrerem jovens. Mas como os outros eventos desagradáveis, podemos ficar durante muito tempo negando-a, ou tentando difarçá-la com eufemismos, usando termos como "terceira idade," "melhor idade" ou "espírito jovem." Mas nenhuma dessas coisas farão com que deixemos de envelhecer. Canso-me de ouvir pessoas dizendo: "O que importa, é ter o espírito jovem!" Mas o espírito, antes do corpo, é o que temos de mais velho! Quantas e quantas vezes já estivemos aqui? Bem, eu acredito que algumas... 

Eu não quero ter o espírito jovem, eu quero que ele envelheça, e que, aos cinquenta anos de idade, ele e eu nos identifiquemos totalmente.

Não gosto de envelhecer. A vida era bem mais fácil quando eu tinha um corpo mais ágil e bonito, saúde melhor,  podia caminhar sem sentir dores nos joelhos e desfrutar de um metabolismo sensacional que me permitia comer o que quisesse e jamais engordar. Mas o tempo passou, e eu envelheci, e o envelhecer traz algumas modificações importantes e nada agradáveis. Mas é fato. E fato é fato. Apesar de não gostar dessas mudanças, tenho que conviver com elas, aceitando-as e fazendo o possível para que elas sejam minimizadas através de cuidados com a alimentação e a saúde (se bem que sou do tipo que adora chutar o pau da barraca de vez em quando, e sem o menor sentimento de culpa).

Eu vejo esses grupos de terceira idade como uma forma de exclusão. Não deveria ser assim. Os mais velhos não deveriam ser deixados sentados em um cantinho durante as reuniões de família, e muito menos, serem tratados como crianças sem vontade própria. Comigo não vai ser assim, porque se eu tiver saúde, não vou permitir que me digam o que comer, o que vestir, aonde ir, que horas dormir. O ideal seria que os jovens e os velhos convivessem normalmente, aceitando uns aos outros como são, sem essa coisa de terceira idade ou melhor idade. Ah, o quanto todos perdemos quando convivemos apenas com quem é da nossa faixa etária!

Mas fomos nós que criamos essas divisões. Em outras culturas, a experiência da velhice é louvada! Por que não aqui? Acho que é tudo uma questão de educação. É preciso mudar a forma como encaramos os idosos. Quantas vezes, ao vermos um idoso atravessando a rua, não exclamamos: "Coitadinho!" Mas coitadinho por que? É um ser humano igualzinho a nós, só que mais experiente! Ao mesmo tempo, vejo idosos que adoram despertar essa piedade, adoram ser tratados como se fossem crianças e ouvirem as pessoas mudando a voz para falar com eles como os adultos fazem quando se dirigem às crianças. Sim, é uma questão cultural... logo que vemos a idade virando a esquina, tratamos de tentar nos comportar como achamos que os mais jovens esperam de nós. Como nossos avós se comportavam. 

Assim, entramos na roda-viva do preconceito de livre e espontânea vontade. Até pulamos nela!

OK, eu envelheci. E isso só significa uma coisa: que eu envelheci. Não tenho e nem quero ter o espírito jovem. Quero ter um espírito milenar, muito, muito velho, experiente, que enxergue bem além das falsas aparências que criamos, e que viaje além das barreiras que a ignorância ergueu. Não me tornei uma bonitinha coitadinha, que gracinha, e jamais me tornarei. 

Quando chegar a hora, quero caminhar à beira do precipício e olhar lá para baixo sem medos e sem apegos, sentindo-me pronta para quando o vento soprar e chegar a minha vez de cair. Acho que será no exato momento em que eu descobrirei que posso voar.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A MELHOR RECEITA




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A minha nhoqueira é assim!




Gosto muito de cozinhar, principalmente quando tenho tempo. Mas é irônico que, na maioria das vezes, a minha comida fique mais gostosa quanto mais improvisada ela for devido a, justamente, falta de tempo! Se tenho tempo demais, eu acabo tentando personalizar um pouco as receitas, e acabo personalizando demais... e não dá certo!


Mas toda vez que faço uma receita, percebo que no fim, para dar certo, é preciso o toque pessoal. Com cuidado, é lógico. Por exemplo: quando se fala em meio quilo de batatas, nem sempre se especifica qual o tipo ou o tamanho das mesmas. Há várias qualidades diferentes de batatas, algumas mais e outras menos aguadas. Talvez, para complementar a receita, seja preciso uma colherinha de farinha de trigo. Se alguém diz "mexer até dar ponto de calda," não se sabe se o cozinheiro está usando uma panela teflon ou de vidro, nas quais é mais difícil identificar se a calda está em ponto de calda... achei sensacional uma receita de calda caramelada que achei na internet, onde o cozinheiro, ao invés de somente dizer "deixar ficar em ponto de calda grossa," colocou uma fotografia com a cor que a calda deveria ter. Deu certinho!


Domingo passado eu fiz nhoque. Tem gente que acha que dá trabalho, mas eu faço num instantinho; é só cozinhar as batatas com sal a gosto (quantas? Depende da quantidade que você quer fazer), colocar uns dois ou três ovos, ir pondo o trigo e mexendo até a massa ficar durinha. Enquanto isso, já está fervendo uma panela de água com um pouco de azeite, sal e algumas folhas de louro. Depois, vou derramando a massa na nhoqueira e após escolher o tamanho que quero as bolinhas, vou apertando o êmbolo e cortando a massa com uma faca de cozinha comum, dentro da água fervendo. Assim que elas começam a boiar, retiro com escumadeira. Faço um molho rápido e fácil, colocando molho pronto à bolonhesa (ponho umas folhinhas picadas de manjericão daqui do quintal), salpico com queijo ralado grosso e ponho no forno até o queijo derreter. É rápido e fácil, e serve como prato único.


 Lembro-me bem da minha primeira tentativa de brigadeiro: era aniversário de meu marido (estávamos casados a apenas um ano) e eu quis fazer uma surpresa; as panelas eram de teflon, e deixei a massa passar do ponto. As bolinhas, ao esfriar, ficaram tão duras, que quicavam na mesa. Mas nos divertimos, comendo as minhas... balas de chocolate!

Acho que a melhor receita para que a minha comida fique boa é: paciência, bom humor, uma boa música de fundo, dois cachorrinhos deitados no chão atrás do cozinheiro, a porta aberta para o canto dos passarinhos, algum tempo livre e a necessidade imprescindível de estar relaxada, tendo a capacidade de rir se não der certo... e muitas vezes, quando não dá certo, acabamos criando uma outra coisa!


sábado, 26 de abril de 2014

MORAR E VIVER




Acho que morar é diferente de viver. Moramos em qualquer lugar. Podemos morar em casas, apartamentos ou até mesmo debaixo de uma ponte. Mas viver é diferente: a gente vive aonde se sente bem, mesmo que seja em um parque, caminhando por uma rua ou por dentro de uma floresta. Viver é estar consciente de tudo o que está em volta, é olhar atentamente, sentir-se bem e agradecer. Conheci pessoas que moravam em casas ou apartamentos lindos, mas não viviam neles.

Acredito que o ideal seja encontrar um lugar onde se possa morar e viver, ao mesmo tempo. Na minha vida, já morei em cinco lugares diferentes, mas só vivi realmente em três. Lembro-me da primeira vez que vi esta casa - não tinha intenção nenhuma de comprá-la e nem sabia que estava à venda. Meu cachorro Aleph, durante um passeio, praticamente arrastou-me para esta rua, e chegando em frente ao portão desta casa, ele sentou-se. Olhei para dentro do jardim, e pensei: "Que lugar bacana! Adoraria morar em um lugar assim..." Antes, havia tido alguns sonhos estranhos com uma senhora idosa de quem eu comprava uma velha casa com uma estufa no quintal dos fundos. Meu marido também sonhara com o carro cheio de materiais de construção dirigindo-se para esta rua (antes mesmo de sabermos da existência da casa).

Bem, comentei com uma vizinha sobre a casa que acabara de ver, e ela me respondeu: "Aquela casa está à venda, e eu conheço a proprietária." Ela fez as apresentações, e fiquei surpresa ao ver que tratava-se de uma senhora idosa, mas diferente da que eu vira em meu sonho - ela era morena, e a do sonho, loira. Mas quando ela passou-nos os documentos para que déssemos início à transferência, vi que na fotografia da identidade, ela estava loira: igualzinho a senhora com quem eu tinha sonhado! Descobri que aqui era o lugar que eu queria não apenas morar, mas também viver...

Não tenho uma estufa no quintal dos fundos, mas tenho um Orquidário para cujas estufas eu tenho uma vista da varanda do andar superior da casa. Coincidência?...



Crônica do meu blog A casa & a Alma





terça-feira, 25 de março de 2014

O sol da praça vazia

Conto nº 3
by Joice K. Worm
  
Com um skate na mão chegou à praça. Havia ali mais alguns conhecidos dele. A cada um que cumprimentava, batia com o punho fechado duas vezes, com as costas da palma da mão mais duas vezes e por fim uma cruzada de dedo mindinho. Era o cumprimento do grupo. Todos deveriam saber a senha para que fossem reconhecidos como um grupo.
Naquela tarde a ida à Praça tinha um propósito. Gostaria de impressionar alguém com a sua arte. Aprendera uns truques e já tinha tido quedas suficientes. Suas cicatrizes não o deixavam mentir. Incluindo aquela que tinha na testa que de qualquer forma lhe dava um certo charme. Para ele, as cicatrizes eram marcas de bravura. Gostava de exibi-las aos colegas de jogo. Quanto mais profundas eram as marcas, mais coragem e resistência comunicavam.
Zim, zim, zim… Assim fazia o som do seu skate enquanto levava um pé em cima e o outro a dar impulso e velocidade. Entrou na pista. Rodopiou e parou no meio da curva de pé. Olhou para seu público à procura de quem iria impressionar desta vez. Aquele velho, talvez. Hum… não me parece interessado. Não por ser velho, mas assim que o viu virou a cara. Ou por desprezo ou por inveja. Não parou para analisar. Limitou-se a isolá-lo dos seus supostos admiradores. Talvez aquele menino que estava a sorver um gelado com o olhar fixo no seu skate. Mas assim que deu a primeira passada, a mãe do menino o chamou e ele obedeceu deixando para trás o espectáculo sem sofrimento. Mais uma parada e mais uma lançada de olhar. Hoje a Praça estava quase vazia. Talvez fosse melhor assim. Ao menos ainda poderia perder algum tempo na sua ‘performance’ e quem sabe tornar-se um profissional e entrar em torneios. Não era propriamente o seu sonho, mas tudo é possível quando se é jovem.
Enquanto pensava em situações de futuro, uma menina da sua idade o olhava com interesse. Por incrível que pareça, não olhava para seu skate, nem nas luvas sem dedos, nem para o seu ténis de marca novo. Olhava para seus olhos. Profundamente. Que desconcertante - Pensou ele.
Não poderia falhar, estava a ponto de dar a partida para uma investida por cima dos degraus que circundava a estátua. Havia lá uma rampa improvisada, mas preferia ir pelo caminho mais difícil. E se falhasse? Não isso não poderia acontecer. A menina era bonita e parecia interessada nele. Será que ela já o tinha visto ali? Ele nunca a tinha visto. Ficou ainda mais interessado em fazer uma boa figura. Olhou seu skate-amigo durante um tempo com as duas mãos descontraídas sobre a cintura e fez uma espécie de reza. Falou com o companheiro de madeira que aquela seria a oportunidade deles para conquistar alguém duplamente. Neste caso, pela capacidade de ambos.
Zim, zim, zim… deu o embalo. Uma ida e vinda de aquecimento, outro rodopio. Uma mirada ao objectivo e um canto de olho para ter certeza que a sua admiradora o estava a olhar. Estava. Perfeito. A sorte será lançada. Àquela distância nada poderia dar errado. Estava tudo rematado. Não havia muitos concorrentes para partilhar aquela que lhe parecia a menina mais bonita do mundo. O sol estava a aquecer suavemente a pele de ambos como se fosse cúmplice daquele segredo. Ele prosseguiu. Ainda com as duas mãos na cintura, deslizou suavemente dando três passos largos de embalo. Zim, zim, zimmmmmm… Agora! Zás!! Um salto de perito!!
Olhou para trás rapidamente para ter certeza que ela viu e constatou satisfeito que não só viu como estava com a mão sobre o coração como se não pudesse aguentar tamanha e perigosa façanha. Isso lhe deixou desconcertado mas ela lhe retribuiu com um sorriso e um gesto simulado de palmas sem som. Foi tudo à distância: O olhar, o sentimento recíproco, o espectáculo, o susto, o agradecimento, o adeus e o até outro dia.
Nada como uma tarde de sol numa praça quase vazia e duas pessoas que se admiram para tornar o dia ainda mais sublime.


Fim.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Da Série Pastel requentado - garimpando relíquias


 
CORDAS

A vida é muito generosa. Ela sempre nos dá muita corda. Podemos, com elas, construir pontes, amarrar os barcos ao cais, montar escadas que vão até o céu.



Cordas também podem ser desfiadas, e com elas, construímos belos cestos, e até mesmo redes para descansar. Já vi uma luminária feita de corda que era a coisa mais linda, lá em Natal. Pena que ficaria meio-sem jeito, trazê-la dentro do avião. Mas tenho um abajur em minha sala cuja cúpula é feita de corda trançada.



Tive belas sandálias com solas de corda, e uma vez, um chinelo, desses de andar dentro de casa, todo feito de corda.




Minha vizinha tem uma cadeira com assento de corda, bem rústica, que é uma belezura só.



Se alguém pode falar com propriedade sobre as cordas e os cipós, este alguém é o Tarzan. Ele os usa para locomover-se com rapidez dentro da floresta, evitando, assim, os percalços do solo. Paira sobre as árvores, em seu voo alucinante, acompanhado de seu tão famoso grito: "Ôôôôô..."



As cordas são uma invenção muito útil. Pena que, um dia, foram usadas para punir seres humanos. Mas aquelas eram outras cordas, de uma época selvagem.




Mas infelizmente, algumas pessoas recebem uma grande quantidade de corda da vida, que lhes é generosa. Mas o grande problema é que não sabem o que fazer com elas. Acabam enrolando-se completamente nas suas cordas, ao invés de criar alguma coisa útil com elas. Pior: alguns acabam enrolando-a em volta do próprio pescoço, e infelizmente... matam-se com as cordas da vida.



Isso sempre acontece quando alguém tenta 'enrolar' o outro. As atitudes ficam sempre muito óbvias. Acham-se grandes vencedores, pois pensam ter derrotado os seus inimigos, sem perceberem que seus maiores inimigos são eles próprios. Mas todo mundo vê. E de nada adianta alguém tentar avisá-lo.


Assim é bem melhor!

By Ana Bailune