Morri. E daí?E lá vou eu de novo. A história se repete mais e mais uma vez. Esse negócio de morrer já está ficando cada vez mais cansativo. O fato, é que certos padrões de acontecimentos em vida e em morte, se mantém, como se fosse a mesma partitura de uma música, só mudam os arranjos — ou desarranjos, sei lá. Será que isso não tem um meio de acabar de uma vez por todas? Quando penso nessa repetição de existências espaçadas, concluo que só pode ser reencarnação. Mas como posso ter certeza de uma afirmação dessas se não lembro de minha encarnação anterior? Mas, todas vez que eu morro, quando acho que vou viver o permanente, o eterno... pronto! Um profundo adormecimento me leva a esquecer de tudo o que se passou, e sou levado a morrer também depois que estou morto. Dá pra entender uma coisa dessas? Morro aqui e morro lá?
Observando a confusão que se estabelece em meio a corre-corres, lufa-lufas, comoções exacerbadas, burocracias desgastantes...depois de escolado por tantas idas e vindas, isso não me chateia mais. Que monotonia! A sensação é de que já nasço com a passagem de volta comprada. E ainda tenho que pagar por ela em vida. Nada é de graça mesmo.
Olhando aquele corpo estendido no chão (isso dá samba), inerte, pálido e azulado, não tenho a mínima intenção de tentar ressuscitá-lo. E pra quê? Deixa quieto. Parece uma roupa usada jogada no chão.
Tanta correria, tanta preocupação, e agora aí, duro que nem um boneco de corda (levando-se em conta que de certa forma esse era o meu estado normal quando “vivo”).
E o tal de velório então? Parece que jogaram gás lacrimogêneo no ambiente. Lamúrias, choramingos e choros compulsivos é regra de ordem do protocolo cerimonial. Ou teatral. Se eles soubessem como isso me chateia e perturba...Não sabem que não aconteceu nada? Eu só morri, gente!
Mas também morro de rir quando pego uns flagras de alguém num canto, contando piada, ou outro que não sabendo o que dizer ao parente do falecido aqui, em vez de falar “meus pêsames”, gagueja e solta um “felicidades”. Mas tudo bem, esse é o lado branco do humor negro.
O tal túnel de luz? Ah, de tanto fazer esse trajeto, durmo na viagem. Quando acordo, tô lá em meio à... como é mesmo? Ih, deu branco. Mas até onde me lembro, muita coisa já esqueci. E olha, vou dizer mais uma coisa: esse negócio de inferno e céu não é bem assim não. Está tudo aqui na nossa cabeça. Cabeça? Bem, seja lá onde for, o que eu quero dizer é que nós mesmos construímos, ou esse inferno, ou esse céu. A proporção está diretamente ligada ao grau de importância que damos a isso. E só se descobre isso depois de morto. Isso é que é ser burro, né?
Por isso que eu morro sempre e até hoje não descobri a fórmula certa. É por essas e outras que a gente tem que ser vivo. Não se deixar levar por qualquer tiri ti ti atemporal; como alguém, te metendo medo pelas coisas que você faz ou pelas que não faz. O céu e o inferno, está tudo aqui dentro, ó! Somos nós que construímos. É mais ou menos como construir a casa de seus sonhos: pode ser feliz em um barraco, ou infeliz em uma mansão.
Bem, pra quem já morreu, falei demais. Fui.Tchau, até a próxima...
Se você gosta de bom humor inteligente, nossa equipe de cronistas oferece diferentes abordagens sobre qualquer tema. Nosso objetivo é a interação. BOA LEITURA!
No Balcão do Quiosque
terça-feira, 28 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
A última saudade
Um quarto vago, cheiro de abandono por certo o dono, sem desafios, correu mundos sem ir além de algumas quadras. Nada faltou ao homem grotesco, sem parentesco com reflexos e nexos de uma arte qualquer. Lei que deságua, no rosto expressão brava, o mundo deu de ombros ao canto da sereia a um Ulisses, que se tu visses, despercebido seria tamanha abundância de alma vazia.
Feito de sonhos, um homem medonho tem de si um medo tamanho guardado no bolso como um trocado barganha na feira de gente esquecida de dor tão doída sem ter mais o que sentir inventa felicidade no fim da idade pra ser melhor sem tristeza, chega de mentir.Ah! ... minha santa bondade, vem outra idade e eu que já fui, agora só penso na demora do fim que sou dentro de mim. Minha esperteza é destreza talhada por sombras feitas de giz.
Quero partir mas sou-me inteiro inútil e cansado corro pros lados recolho todos meus fardos como gari. A planta saudade me faz ter vontade de ao menos um tempo fugir de teu tempo, voltar à raiz. O ponteiro minuto não é mais arguto; pobre coitado não anda ao lado do último segundo que não mais está por aqui. Estrelas minhas memórias que em mim estão guardadas obnubiladas pelo brilho lembrança sol de meio dia.
Na minha morte será que dou sorte de virar pro lado e dormir como um soldado que o inimigo tombou; piscar meu olho direito depois de ter feito um pedido a quem me aceitou? Indo embora agradeço sem demora ao menos um adeus reconhecendo uma por uma no fim da idade está minha última saudade.
Feito de sonhos, um homem medonho tem de si um medo tamanho guardado no bolso como um trocado barganha na feira de gente esquecida de dor tão doída sem ter mais o que sentir inventa felicidade no fim da idade pra ser melhor sem tristeza, chega de mentir.Ah! ... minha santa bondade, vem outra idade e eu que já fui, agora só penso na demora do fim que sou dentro de mim. Minha esperteza é destreza talhada por sombras feitas de giz.
Quero partir mas sou-me inteiro inútil e cansado corro pros lados recolho todos meus fardos como gari. A planta saudade me faz ter vontade de ao menos um tempo fugir de teu tempo, voltar à raiz. O ponteiro minuto não é mais arguto; pobre coitado não anda ao lado do último segundo que não mais está por aqui. Estrelas minhas memórias que em mim estão guardadas obnubiladas pelo brilho lembrança sol de meio dia.
Na minha morte será que dou sorte de virar pro lado e dormir como um soldado que o inimigo tombou; piscar meu olho direito depois de ter feito um pedido a quem me aceitou? Indo embora agradeço sem demora ao menos um adeus reconhecendo uma por uma no fim da idade está minha última saudade.
Interação
O Quiosque da Lu, nosso também, sempre tem pasteis bem quentinhos.
Isso em grande parte se dá graças à interação e à coparticipação. O blog já nasceu interativo. Tão jovem ainda, e já anuncia traços de uma personalidade própria, que nada mais é que o somatório das tantas personalidades e estilos individuais. Muito interessante.
Porque aceitei participar, este tornou-se mais um espaço virtual onde escrevo. Aqui chegando, sinto-me em casa, por assim dizer. Leio sempre o que saiu de novo e em geral comento, mesmo quando sob pressão de tempo.
Colegas como a Chica, que tive o prazer de conhecer aqui mesmo, deixam posts essencialmente interativos e que realmente funcionam. Isso me lembra os tempos de estudante, quando à volta de uns chopinhos a gente escrevia páginas de fosse lá o que fosse a várias mãos, literalmente. Não raro alguma parte era lida pel@ própri@ autor(a), por conta de questões como caligrafia. Era muito bacana. Não sei dizer se algo daquilo tudo ficou preservado. Provavelmente não.
Aqui, fica tudo guardado na blogosfera, e teoricamente ao menos tem preservação indefinidamente garantida.
O que tenho a dizer hoje é do carinho que já tenho por este Quiosque, com os quiosqueiros em maior ou menor atividade sempre participando, as sempre interessantes inserções trazendo mais comentaristas, que aparecem a cada nova postagem e em geral se tornam mais lugares virtuais a visitar.
Compartilharemos decerto muitos petiscos ainda, com o recheio por conta do paladar de cada um. Acredito que ainda degustaremos pastel de tudo, com crônicas, minicontos, contos, ensaios, poemas, reflexões, insoliteratura, ecologia, humor, reminiscências, MPB, tudo enfim. Tudo de bom.
Isso em grande parte se dá graças à interação e à coparticipação. O blog já nasceu interativo. Tão jovem ainda, e já anuncia traços de uma personalidade própria, que nada mais é que o somatório das tantas personalidades e estilos individuais. Muito interessante.
Porque aceitei participar, este tornou-se mais um espaço virtual onde escrevo. Aqui chegando, sinto-me em casa, por assim dizer. Leio sempre o que saiu de novo e em geral comento, mesmo quando sob pressão de tempo.
Colegas como a Chica, que tive o prazer de conhecer aqui mesmo, deixam posts essencialmente interativos e que realmente funcionam. Isso me lembra os tempos de estudante, quando à volta de uns chopinhos a gente escrevia páginas de fosse lá o que fosse a várias mãos, literalmente. Não raro alguma parte era lida pel@ própri@ autor(a), por conta de questões como caligrafia. Era muito bacana. Não sei dizer se algo daquilo tudo ficou preservado. Provavelmente não.
Aqui, fica tudo guardado na blogosfera, e teoricamente ao menos tem preservação indefinidamente garantida.
O que tenho a dizer hoje é do carinho que já tenho por este Quiosque, com os quiosqueiros em maior ou menor atividade sempre participando, as sempre interessantes inserções trazendo mais comentaristas, que aparecem a cada nova postagem e em geral se tornam mais lugares virtuais a visitar.
Compartilharemos decerto muitos petiscos ainda, com o recheio por conta do paladar de cada um. Acredito que ainda degustaremos pastel de tudo, com crônicas, minicontos, contos, ensaios, poemas, reflexões, insoliteratura, ecologia, humor, reminiscências, MPB, tudo enfim. Tudo de bom.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Café, telefone e etc (o dia a dia no Quiosque)

Ô de casaaaa! Tem alguém aí?
Tem sim, espera que to indo abrir a porta. Olá, bom dia, meu nome é Chica ...O que deseja?
__ Ah, eu sou Valentina, lá da Editora La Femme. É que a Lu Cavichioli me ligou e pediu que eu viesse até o Quiosque procurar pela Rejane. Você conhece?
Ouve-se uma gostosa gargalhada.
__Rejane? Ah, pois não, ta falando com ela.
Ah, hã... é... ahh.. Bom dia!
_ Mas que modos os meus, nem te convidei a entrar. Venha, acabei de passar um café e tem biscoito de mel que o Luiz Ramos trouxe hoje bem cedinho. Mas você dizia sobre uma tal editora?!
__ Sim, EDITORA LA FEMME... Com licença.
--Claro, fique a vontade.
Logo se ouve passos apressados. Alguém descendo as escadas. É o João neo-quiosqueiro Alves. Passa pela copa rouba um café, dá um bom dia cordial sem estender a mão porque no braço esquerdo carrega uma pilha de livros e na outra leva a xícara com café.
_João? Pergunta Chica- você viu a Lu por aí?
-Pior que não, eu precisava falar com ela. Avisar que a sala dos morangos está mal assombrada. Acho que a Madalena esqueceu algum tipo de magia por lá.
Valentina olhava tudo aquilo com os olhos arregalados.
Dizendo isso, João saiu prometendo voltar no fim da tarde.
Quando Chica retomava sua prosa com a moça toca o telefone:
_Alou... ahhhh ligação internacional. Tapou o bocal do aparelho dizendo: desculpa Valentina, só um instante.
Valentina era jovem, cabelos louros e ondulados que lhe caíam como rendas por sobre os ombros. Seus olhos de jabuticaba reviravam-se já sem paciência. Metida num terninho cor de vinho com risca de giz, arrumava a gola da camisa de seda rosa, pigarreando. Olhava agora para seu pé direito, fazendo certa careta esboçando desconforto. Usava um scarpin no mesmo tom da roupa. Aproveitou que chica estava de costas e por sobre o sapato massageou o dedinho, pensando entrementes: Ai, meu Santo Agostinho, me tira dessa.
Não entendia muito de santos, mas esse foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça.
E a conversa rolava solta ao telefone:
Era Joice que voltou pra Espanha em férias. Mas queria saber a quantas andava
sua correspondência .
De repente, ouvimos um FOM FOM! Era a Rosemari com a Rafaella. Elas traziam um embrulho enorme...
O que seria?
Um ponto que vale um conto
Alguém por favor continue daqui.
Beijos da Lu
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Ponto de Encontro no Bar com direito a Café

As almofadas estavam espalhadas pelo chão, o salão era amplo, com algumas divisórias.Havia quem gostasse de sentar nas almofadas macias, mas também tinham aqueles que preferiam sentar-se em cadeiras confortáveis, à beira da mesa com cinzeiros e drinks.
Nas paredes, molduras de todos os tamanhos e cores, abrigavam poemas, rimados ou não. Histórias reais ou recheadas de utopias que me faziam sonhar a ponto de incluir-me conhecendo a essência de cada uma.
Nos fundos do bar via-se uma escada que levava ao piso superior, na parede uma seta indicava: Colunas do Empório do Café. O local era frequentado por artistas, poetas e gente que sabe sonhar.
O salão dos versos era cheio de almofadas fofas e coloridas, todas espalhadas pelo chão.
Vez por outra me sentava junto às mesas, tomava um martini, jogava conversa fora, ria muito com o bom humor do pessoal e aprendia com artistas que lá entravam para beber alguma coisa, ler alguns poemas e escutar boa música.
Lá fiz muitos amigos porque na vida o que importa é participar, e acima de tudo viver intensamente.
E como dizem por aí que a noite é uma criança, eu chegava cedo e ficava até altas horas, um bom período para me aproximar dos quadros, que forravam as paredes daquele bar.
E antes que o dia amanhecesse, sentia o aroma inigualável do café coado na hora, que eu sorvia de um gole só. E munido de meus companheiros, chapéu e casaco, eu saía.
Olhava o letreiro apagado, atravessava a rua, seguindo meu caminho.
Por Lu Cavichioli
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Silêncio
O silêncio. Quem o quer? Um par em mudo diálogo? Como se a ausência do som das palavras ou do quase inaudível farfalhar do nada a roçar ouvidos esforçados, solidificasse a certeza do... silêncio.Absoluta solidão? Não, não há silêncio na solidão. O homem só não é silencioso. Ao contrário, nele abunda e fervilha caldos de diálogos inflamados consigo próprio. Só há monólogos onde dois ou mais circundam-se a chacoalhar seus argumentos e interpretações – que Deus tenha piedade de quem os tem – numa acirrada e disfarçada disputa pelo efeito de maior contundência na exposição
Um ente não dialoga; ele “monologa” diante de outros vários e tantos atentos monologantes. Ele apenas dialoga consigo mesmo tentando convencer-se com a precisão de um raro entendimento. Mas vã é a tentativa. Sabendo disso, engana-se a si próprio com a mesma elegância com que interpreta o mesmo engano que para si aprovou, para dar a outrem que o ouve atentamente como se o estivesse entendendo. Um consentido acordo de cavalheiros ocos, a preencherem-se de inócuas tentativas significantes.
Mas, e o sentido? O sentido, contido ficou enquanto internalizado no vasto mundo do imanifesto. A partir da manifestação, deixa de fazer sentido; apenas consente-se para que as delongas não prolongue enfados como em uma sala de espera a espera de se fazer entender.
Diante desse quadro – o qual não decoraria nenhum interior – espatulado com vigorosas pressões na realidade, mostra-se o quanto é praticamente quase impossível a socialização igualitária. Por único motivo: a individualidade. O homus-individualis, nada divide. A sociedade não é composta de “dividuais”. É decomposta por individuais.Nunca será possível a longeva sociedade humana igualitária mas sim a circunscrita e desigual “saciedade” humana.
No silêncio de nossas alcovas individuais planejamos um “mundo melhor”. No máximo “dias melhores” com prazo de validade é o que se consegue. Resta-nos o consolo da engenharia “sensitiva” a construir pontes de acesso ao distante próximo, como uma forma de substituição à individualidade demarcada em nosso DNA.
No ensurdecedor barulho dos monólogos, acenamos com a esperança de que em um dado momento possamos nos fazer entender assim como nos entendemos a nós mesmos antes que interrompidos pela morte, possamos soçobrar em um eco perdido.
Um ente não dialoga; ele “monologa” diante de outros vários e tantos atentos monologantes. Ele apenas dialoga consigo mesmo tentando convencer-se com a precisão de um raro entendimento. Mas vã é a tentativa. Sabendo disso, engana-se a si próprio com a mesma elegância com que interpreta o mesmo engano que para si aprovou, para dar a outrem que o ouve atentamente como se o estivesse entendendo. Um consentido acordo de cavalheiros ocos, a preencherem-se de inócuas tentativas significantes.
Mas, e o sentido? O sentido, contido ficou enquanto internalizado no vasto mundo do imanifesto. A partir da manifestação, deixa de fazer sentido; apenas consente-se para que as delongas não prolongue enfados como em uma sala de espera a espera de se fazer entender.
Diante desse quadro – o qual não decoraria nenhum interior – espatulado com vigorosas pressões na realidade, mostra-se o quanto é praticamente quase impossível a socialização igualitária. Por único motivo: a individualidade. O homus-individualis, nada divide. A sociedade não é composta de “dividuais”. É decomposta por individuais.Nunca será possível a longeva sociedade humana igualitária mas sim a circunscrita e desigual “saciedade” humana.
No silêncio de nossas alcovas individuais planejamos um “mundo melhor”. No máximo “dias melhores” com prazo de validade é o que se consegue. Resta-nos o consolo da engenharia “sensitiva” a construir pontes de acesso ao distante próximo, como uma forma de substituição à individualidade demarcada em nosso DNA.
No ensurdecedor barulho dos monólogos, acenamos com a esperança de que em um dado momento possamos nos fazer entender assim como nos entendemos a nós mesmos antes que interrompidos pela morte, possamos soçobrar em um eco perdido.
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