No Balcão do Quiosque

domingo, 25 de outubro de 2009

As horas

O dia amanhece como se eu estivesse empurrando um trem. Não foi fácil me levantar. As horas pesavam e o ombro de minha consciência, dolorida, carregou mais um peso do mundo. Faltava-me algo mas não sabia o quê exatamente. Um esforço hercúleo foi o que tive que fazer para lavar o rosto. Tinha que me olhar no espelho. Vagarosamente levantei o rosto para encarar-me. Rosto? Onde está meu rosto? NÃO TENHO ROSTO!!! Um pavor indescritível dominou o que, creio, ser eu mesmo. Levei instintivamente minhas mãos ao... seria rosto? Inútil esforço. Minhas mãos só existiam quando olhava para elas. Se tentasse tocar meu rosto sumido, elas também sumiam. Pensei: “estou morto?” Não, não estava morto. Sentia minha respiração e ouvia o arfar de meus pulmões. Ainda em meio a confusão mental, toquei levemente em meu coração. Lá estava ele em rápidas batidas como querendo dizer: “aqui estou eu, vivo, ao seu lado”. Não estava só. Tinha a companhia de meu coração, meus pulmões, minhas mãos e minha mente confusa. Minha mente? Posso pensar, pensei. Vou falar em voz alta o que estiver pensando. E soltei: “ONDE ESTÁ MEU ROSTO!?”. Ouvia nitidamente minhas próprias palavras.

Já sei. Vou sair às ruas e observar a reação das pessoas. Claro. Se tudo isso for real saberei imediatamente. Assim fiz. Peguei meu casaco, vesti meu jeans, calcei meu tênis branco sujo e fui para rua.

As pessoas passavam por mim e não me olhavam. Ninguém me olhava. Um casal de idosos taciturnos que caminhavam sem trocar uma palavra entre si, passaram por mim como se passassem por uma estátua desinteressante. Estava a ponto de gesticular propositalmente para chamar atenção ao primeiro que passasse.

Lá vinha um adolescente. Aquele jeitão desligado, desencanado me estimulou a um gestual qualquer que chamasse sua atenção.

— E aí brother, sabe onde posso... Nem terminei a frase e o garoto passou por mim como se eu fosse invisível. Invisível?

Foi então que percebi que eu apenas percebia. Eu era um “percebedor!” Existe isso? Não sei explicar mas eu falava e não havia voz; eu me movia mas não haviam membros que me conduzissem; eu pensava e via o que eu pensava... Sentia-me totalmente perdido diante dessa situação. Poderia correr, saltar, gritar, imaginar... e tudo isso não bastaria para me dar uma forma definida. Eu era e ao mesmo tempo não tinha como provar isso aos outros.

Cabisbaixo caminhei até o parque. Sentei-me, ou achei que estava me sentando, no primeiro banco vazio que encontrei. Diante de mim a visão de um lago salpicado de miríades de pontilhos resplandecentes. Isso me reconfortou. Entrei espontaneamente em um relaxamento sem corpo ou algo assim. A brisa massageava o que poderia ser meu rosto. O devaneio era inevitável.

— Você irá se acostumar. O tempo lhe será indiferente.

Disse-me uma voz quase que sussurrando em meus ouvidos. Se é que eu os tivesse.

— Quem é? — perguntei.
— Sou uma voz assim como você.

Devo estar ficando louco, pensei ou, disse isso a mim mesmo. Mantive-me surpreendentemente calmo. O suficiente para encarar a voz amorfa.

— De onde você é?
— Sou daqui, desse mesmo instante que o seu.
— Você é apenas uma voz?
— Sou se isso lhe deixa à vontade.
— Você sabe me dizer por que há apenas vozes e não formas ?
— Porque a realidade é feita somente de vozes. O mais são apenas formas dissimuladas.
— O que está acontecendo comigo?
— Nada de importante, que eu saiba.
— Como isso pode não ser importante?
— Calma, calma... se acalme
— Ok. Me diga o que acontece então com as vozes?
— Como assim?
— Ela duram para sempre ou isso em dado momento se acaba?
— Claro que se acaba. Ou você acha que uma voz se manifesta indefinidamente? Um dia todo esse vozerio silenciará por completo.
— E o que vem a seguir?
— O silêncio.
— Então é o fim?
— Não. É o silêncio.
— Qual a diferença entre o silêncio e o fim?
— O silêncio não se acaba. O fim, sim.
— Qual a utilidade da voz então?
— Só existe uma utilidade: entender o silêncio.
— E o que há de tão importante no silêncio?
— Nele, cessam-se todas as perguntas.
— Mas sem perguntas como poderei chegar à compreensão das coisas?
— As perguntas servem apenas para se chegar a conclusão que não se compreende as coisas.
— Isso não tem fim?
— Sim, tem.
— Onde se encontra então a compreensão das coisas?
— No silêncio.

7 comentários:

Bloguinho da Zizi disse...

Cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silencio.
Lindo texto.
Sou grata
Alzira

Chica disse...

Lá , no silêncio, não precisaremos pensar no tempo, nos rostos, nem nada...Viveremos apenas, e por lá, não passaremos despercebidos... LINDO, Leandro.abração,linda semana,chica

Graça disse...

O silêncio tem sabor de eternidade, pois não?
Obrigada, Leandro por nos lembrar disto!

neo-orkuteiro disse...

Viagem e tanto, foi essa leitura. Tentei experimentar a coisa enquanto lia, achei um barato. De fato, não podia ver meu rosto e ninguém me via nem ouvia (felizmente). Muito bem, Leandro.

Lu Cavichioli disse...

Bendito silêncio!
Ele vale ouro e seu texto também!

super beijo

Madalena Barranco disse...

Ahh, Leandro Soriano! Sempre fui fã dos seus escritos, que percebem com profundidade o rosto verdadeiro do ser humano, com essa filosofia tão lindamente Soriano.

Beijos.

Tere Tavares disse...

Eu só interrompo esse silêncio que agora se instala para uma pausa também silenciosa, em que há o pensamento que se deixa ficar - calado.
Beijos