No Balcão do Quiosque

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O Espelho das Coisas








Estive pensando (e quando isso acontece, questionamentos estranhos podem surgir): Qual é a maneira mais confiável de nos vermos refletidos? Imediatamente, você pensou: "Em um espelho!" Mas... será mesmo?

Quando eu me olho no espelho, vejo o meu lado de fora. Talvez, se eu insistir um pouco, possa enxergar uma outra pessoa que me olha, lá de dentro das minhas próprias retinas. Ela tenta ser ouvida, ela quer existir e ser real, mas nem sempre, quem se olha no espelho quer ver a pessoa que está do lado de dentro, e sim, a casca que a encobre.

A melhor maneira de enxergar a si mesmo, é fechando os olhos e os ouvidos. Por que? Quando abrimos os olhos e os ouvidos, enxergamos as aparências, as ilusões e os rótulos que a sociedade e até nós mesmos criamos sobre nós. Podemos passar horas preocupados com a impressão que causamos nos outros, e dependemos do aplauso alheio para que nos sintamos alguém... e isto é desastroso! Quem se espelha nos olhos alheios escraviza a si mesmo. 

Certa vez eu li em uma postagem no Facebook algo mais ou menos assim: "As mesmas mãos que o aplaudem podem, um dia, atirar-lhe pedras." É a mais pura verdade. O aplauso alheio pode massagear momentaneamente o ego de quem o recebe, mas depender dele para autodefinir-se é a pior forma de escravidão e ilusão.

Todos sabem os motivos reais que servem como base às próprias atitudes. Muita gente faz coisas tentando parecerem ser isto ou aquilo, mas na verdade, fazem por puro medo de não aparecerem, pois acham que se não se sentirem refletidos no espelho que é o outro, não são ninguém. Os aplausos que recebem ecoam por mais tempo em seus ouvidos porque não existe muita coisa entre eles. Há um enorme espaço vazio, uma falta de si mesmo, que necessita ser preenchida pelas ilusões de sucesso, fama e reconhecimento.

É terrível ter que precisar que outras pessoas nos digam quem somos.




quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Contando um "causo"

DONA MOCINHA

Dona Mocinha vivia lá pros cafundós onde Judas já tinha perdido tudo e só faltava o bigode... (mas ele tinha bigode?)

A talzinha era uma figura daquelas, bem folclóricas. Dessas saídas de um almanaque distribuído gratuitamente pela farmácia local no largo da matriz.
Seu maior atributo era a maquiagem que comprava na feirinha da beira de estrada  dias de fim de semana. Coisa pouca: batom, rouge, lápis preto e rímel daqueles bem fubangos , ah e  comprava também os compactos de sombra coloridas  e o pó de arroz pra mor de ficar mais bela do que já era.
Os vestidinhos de chita eram sempre muito floridos, mas pareciam mesmo toalhas de mesa . Fazer o que né... Ela gostava!
Toda tarde ficava horas na vitrine do peitoril de sua janela olhando os moçoilos que saíam das fábricas e lhes sorriam gentilmente apertando o passo quando passavam por ela. Mesmo porque, ela se debruçava, empunhando os peitos como pedúnculos em flor. Era nojento de ver.
Os cabra safados (os mais velhos),  os lobi(somens), a comiam com os olhos. Mas ela gostava mesmo era dos jovens e de alguns estrangeiros que às vezes por lá passavam em viagem.
Ela trabalhava na tecelagem da cidade e nas horas vagas se reunia com os poetas do cordel pra rabiscar e rebuscar palavreados.
Mas ela gostava mesmo era de galopar e seu cavalo (tão participativo ele), que  fazia versos com ela.
Um belo dia ela ganhou um espelho e foi aí então que tudo mudou em sua vida porque ela nunca tinha visto aquele treco “praquelas”bandas.  Ela costumava refletir mesmo sua imagem nas panelas que Anastácia areava com sabão de babaçu.
Desde aquele dia, Dona Mocinha ficou mais vaidosa e sabem que ela se deu bem?
A cidade elegia nesse momento o novo prefeito da cidade. Solteirão, montado na grana (do povo, claro) carrão último tipo...
Era metido demais o sujeito,porém sua figura era folclórica. Vestia-se sempre como um arco-íris, quando a calça era amarela o paletó era roxo, a camisa lilás e a gravata alaranjada. Usava sempre um chapéu , que dizia ele era um panamá... AH, TÁ!
OS SAPATOS ERAM SEMPRE   DE VERNIZ COLORIDOS OU NÃO DEPENDIAM DE COMO ESTAVA A CACHOLA DELE NAQUELE DIA.
CERTA NOITE RESOLVEU PASSEAR NA PRAÇA E LÁ ESTAVA DONA MOCINHA NA JANELA DISTRIBUINDO SORRISOS E UMA MÁSCARA DE MAQUIAGEM QUE MAIS PARECIA UM BONECO DE VENTRÍLOCO. E NUM É QUE O PREFEITO AO VÊ-LA CAIU DE AMORES?
E ASSIM DONA MOCINHA , QUE ERA UM DOCE JÁ MEIO PASSADO NA VITRINE, VIROU SOBREMESA REQUINTADA NA MESA DO POLÍTICO.
... COISAS DA VIDA!

By Lu Cavichioli

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Dilma não nos enganou.

Normalmente as doenças nos oferecem alguns sinais antes de se manifestarem. A gripe começa com um leve incômodo, uma dorzinha de garganta, antes de se transformar em febre de 39ºC. Algumas viroses se apresentam com uma leve dor nos membros, principalmente nas pernas, antes de nos jogarem na cama. Eu tenho uma característica particular de sentir o sabor acentuado do cloro na água, pouco antes de cair doente em quase todos os tipos de virose que se apossem do meu corpo, incluindo a gripe. Enfim, doenças dão sinais, uns mais leves e outros mais fortes.

Logo após a posse de seu primeiro mandato, Dilma nos deus sinais. Foram sinais leves, mas foram sinais.

Existe uma lógica na qual as colocações de uma pessoa muito idiota possam parecer geniais devido ao inusitado. Vemos isso no excelente filme Muito Além do Jardim, onde Peter Sellers fez seu último e memorável papel. No filme, o jardineiro Chance se vê as voltas com uma vida fora de seu abrigo e de sua companheira de uma vida inteira, uma pequena televisão. Ao entrar em contato com o mundo exterior, Chance acaba virando uma espécie de guru do empresariado, devido às suas colocações de jardineiro. Não que ele quisesse dar sentido às suas frases dentro do contexto das conversas, mas pelo fato das pessoas buscarem alguma mensagem mais profunda e transcendental ao que o jardineiro dizia. E assim Chance virou um "gênio".

Assim aconteceu com Dilma. Ao aparecer na frente de Lula com um laptop no qual parecia ter de tudo dentro (Livro Vultos da República - Editora Cia das Letras), a atual presidente se habilitou para ocupar cargos no governo Lula.
O restante da história nós já sabemos, mas e quanto aos sinais?

A língua portuguesa é manhosa. Ela deixa rastros de personalidade de quem a pronuncia. A gentileza, a arrogância, a bondade, até a dissimulação em tentar esconder uma personalidade, deixam seus "DNAs" no rastro do pronunciamento das palavras de nossa querida língua.

O primeiro ato de Dilma, como Presidente da República, foi afirmar que seria chamada de "Presidenta" e não de Presidente. No princípio houve um estranhamento de alguns, com discussões com professores linguistas, incluindo o professor Pasquale Cipro Neto.
Numa dessas justificativas, Pasquale afirma que a flexão do "E" em "A" na terminação "NTE", de "agente" por exemplo, pode ocorrer em pouquíssimos casos. Um deles é "PARENTE/ PARENTA"....o outro é justamente "PRESIDENTE/ PRESIDENTA".
Estava lançado o primeiro sinal. Dado ao inusitado da expressão, que na sequência seria confirmada como rara e correta, Dilma confirmou sua condição de "gênio" de personalidade forte, da mulher que se auto-afirma, conhecedora inclusive dos meandros da língua.

O jardineiro Chance estava no comando.
De lá para cá foram infindáveis sinais, até chegarmos onde chegamos.

Marcos Santos.

domingo, 2 de agosto de 2015

Louco Por Você x Loucas Pra Casar.

Down To You (Louco Por Você) x Loucas Pra Casar.
O primeiro é um filme xarope americano.
O segundo é um filme xaropíssimo brasileiro, sempre com a mesmíssima patota de atores.

A diferença entre os produtores de ambos é que o primeiro faz o seu xarope arriscando o seu dinheiro, onde o resultado das bilheterias faz toda a diferença entre sucesso ou fracasso financeiro. Já o xaropeiro brasileiro nada de braçadas nos "incentivos à... kakakaka... snif... incentivos .... ihihihiiii... tá difícil completar sem rir... mas vamos lá, um, dois, três e " incentivos à cultura brasileira "... pronto, consegui. De tal feita que esses filmecos brasileiros sequer esperam um prazo longo para fazer bilheteria nas salas de cinema, já que essa bilheteria já foi antecipada por nós, contribuintes, através de renúncia fiscal.

Agora me responde o seguinte :
Adoro cinema, mas devido a motivos particulares, que podem ir desde falta de grana até problemas de logística, não importa, mas a verdade é que não vou ao cinema a pelo menos 19 anos. Você acha justo eu pagar pela bilheteria desses filmes horrorosos (tipo esse Loucas Pra Casar) que, com certeza, eu não iria se me pagassem e muito menos de vontade própria?

Pois é, mas eu pago... Aliás, você também paga.... Aliás, aquele Museu Histórico Nacional, lindo e que foi a casa de Don Pedro II e que fica na Quinta da Boa Vista, de alguma forma também paga, porque está caindo aos pedaços, com goteiras sobre as múmias de seu acervo ....

Mas tudo bem, a patotinha recebeu sua graninha pra produzir e contracenar um filme de quinta... não da Boa Vista, mas de quinta categoria.

Marcos Santos


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sacrifício

As igrejas monoteístas como o Judaísmo, o Islamismo, o Catolicismo, assim como as igrejas evangélicas tradicionais, como as igrejas Batista, Protestante, Luterana, etc, tinham nas instalações de seus templos, uma certa austeridade de conforto. Desta forma, parte do sacrifício e do exercício da humildade, tão importantes para todas elas, eram obtidos simultaneamente à execução dos cultos.

Com o advento das Igrejas Neo-petencostais, o conforto foi introduzido aos templos, com ambientes climatizados com ar condicionado, ótimo sistema de som, iluminação de qualidade e poltronas confortáveis.

Obviamente que nessas condições a humildade ficou em segundo plano, visto que todos sentem-se como se estivessem num grande teatro, ou num cinema de primeira.

Restou apenas o exercício do sacrifício. Como o sacrifício do templo virou conforto, só resta ao rebanho pagar por isso.

Haja grana.

Marcos Santos
Rio de Janeiro

sábado, 25 de abril de 2015

VOO INSONE

Não havendo como
conciliar o sono
nada a fazer, ponho-me
a monologar

Nesse modo insólito
e que me é bem próprio
de no solilóquio
ágil, divagar

Voo de passarinho
pra longe do ninho
curtindo o caminho
livre pelo ar,

Pilho-me sozinho
sinto-me mesquinho
minto-me um tantinho
só, que vai passar!

Pleno adejo, vejo
gente, afã, desejo
um penhasco, um seixo
- vou me estatelar!

Só me lembro o beijo
de cair o queixo
queixo-me mas deixo
isso me levar

Pego uma corrente
Amiga, de ar quente
Rumo indiferente
Pra qualquer lugar

Já fico contente
Ao pensar que, à frente
Vou, possivelmente
A você chegar

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

SEM EUFEMISMOS!

respeite-os-mais-velhos.jpg


Sem Eufemismos!


Há coisas pelas quais todo mundo passa na vida. Todos passamos e / ou passaremos por perdas, doenças, rompimentos, despedidas, desentendimentos e outras coisas. Até podemos, enquanto elas não acontecem, achar-nos merecedores exclusivos da misericórdia divina e acreditar que tais eventos jamais nos atingirão; afinal somos todos tão bons...

Mas estas coisas são todas inevitáveis, e nos chegam mais cedo ou mais tarde. E quando elas vem, só nos resta aceitá-las e aprender o que pudermos através delas.

Assim também é a velhice. Ninguém escapará dela, a não ser aqueles que morrerem jovens. Mas como os outros eventos desagradáveis, podemos ficar durante muito tempo negando-a, ou tentando difarçá-la com eufemismos, usando termos como "terceira idade," "melhor idade" ou "espírito jovem." Mas nenhuma dessas coisas farão com que deixemos de envelhecer. Canso-me de ouvir pessoas dizendo: "O que importa, é ter o espírito jovem!" Mas o espírito, antes do corpo, é o que temos de mais velho! Quantas e quantas vezes já estivemos aqui? Bem, eu acredito que algumas... 

Eu não quero ter o espírito jovem, eu quero que ele envelheça, e que, aos cinquenta anos de idade, ele e eu nos identifiquemos totalmente.

Não gosto de envelhecer. A vida era bem mais fácil quando eu tinha um corpo mais ágil e bonito, saúde melhor,  podia caminhar sem sentir dores nos joelhos e desfrutar de um metabolismo sensacional que me permitia comer o que quisesse e jamais engordar. Mas o tempo passou, e eu envelheci, e o envelhecer traz algumas modificações importantes e nada agradáveis. Mas é fato. E fato é fato. Apesar de não gostar dessas mudanças, tenho que conviver com elas, aceitando-as e fazendo o possível para que elas sejam minimizadas através de cuidados com a alimentação e a saúde (se bem que sou do tipo que adora chutar o pau da barraca de vez em quando, e sem o menor sentimento de culpa).

Eu vejo esses grupos de terceira idade como uma forma de exclusão. Não deveria ser assim. Os mais velhos não deveriam ser deixados sentados em um cantinho durante as reuniões de família, e muito menos, serem tratados como crianças sem vontade própria. Comigo não vai ser assim, porque se eu tiver saúde, não vou permitir que me digam o que comer, o que vestir, aonde ir, que horas dormir. O ideal seria que os jovens e os velhos convivessem normalmente, aceitando uns aos outros como são, sem essa coisa de terceira idade ou melhor idade. Ah, o quanto todos perdemos quando convivemos apenas com quem é da nossa faixa etária!

Mas fomos nós que criamos essas divisões. Em outras culturas, a experiência da velhice é louvada! Por que não aqui? Acho que é tudo uma questão de educação. É preciso mudar a forma como encaramos os idosos. Quantas vezes, ao vermos um idoso atravessando a rua, não exclamamos: "Coitadinho!" Mas coitadinho por que? É um ser humano igualzinho a nós, só que mais experiente! Ao mesmo tempo, vejo idosos que adoram despertar essa piedade, adoram ser tratados como se fossem crianças e ouvirem as pessoas mudando a voz para falar com eles como os adultos fazem quando se dirigem às crianças. Sim, é uma questão cultural... logo que vemos a idade virando a esquina, tratamos de tentar nos comportar como achamos que os mais jovens esperam de nós. Como nossos avós se comportavam. 

Assim, entramos na roda-viva do preconceito de livre e espontânea vontade. Até pulamos nela!

OK, eu envelheci. E isso só significa uma coisa: que eu envelheci. Não tenho e nem quero ter o espírito jovem. Quero ter um espírito milenar, muito, muito velho, experiente, que enxergue bem além das falsas aparências que criamos, e que viaje além das barreiras que a ignorância ergueu. Não me tornei uma bonitinha coitadinha, que gracinha, e jamais me tornarei. 

Quando chegar a hora, quero caminhar à beira do precipício e olhar lá para baixo sem medos e sem apegos, sentindo-me pronta para quando o vento soprar e chegar a minha vez de cair. Acho que será no exato momento em que eu descobrirei que posso voar.