No Balcão do Quiosque

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Último dia de 2010 - um texto surreal para sonharmos




A Profecia das Cordas Douradas
(by Lu Cavichioli)

Em noites vazias sou asas na escuridão e ponho-me a ruflar em direção oposta a meu nascimento, acreditando que sou doce ilusão! São tantos pássaros neste pilar etéreo que chego a pensar no Olimpo, onde tantas vezes sentei-me à beira de fontes ouvindo deuses e heróis na mais fantástica odisséia que já se teve notícias.

Ouso então juntar-me a eles na tentativa de algo aprender e alçar meu vôo sempre mais alto. Saber ler, já é de fato, um enorme tesouro, mas não confundam com leitura apenas onde os olhos percorrem as letras, respirando vírgulas e descansando pontos. Ler no sentido de colher interpretações, pescar pontos de interrogação e sorrir com a exclamação.
Ah, são tantas estradas a percorrer que me sinto fatigada e então me sento à beira da fonte e minha sede cresce à medida que “ouço” o tilintar das vozes, o cheiro da magia, o vapor da meditação , vez por outra encolho-me em toda minha ansiedade, descortinando o rosto, meio fio, escondido olho que tudo vê.

Percebo então carruagens habitadas por titãs, deusas , sereias e tritões ampliando a maré. E sem perceber, ouço abraços e aconchegos que chegam de outras dimensões, onde a beleza do olhar realça a liberdade do saber.

Descanso meus músculos de manequim, fecho o guarda-roupas e entro no espelho, onde as ilusões são apenas sonhos escondidos na caixinha de música dos corações.

Vejo na praça principal cordas douradas, que descem anjos e de suas bocas desfilam versos que vão sendo empilhados em serestas. Porventura serão poetas essas criaturas? Não sei, respondam se puderem. Mas uma coisa é certa, quanto mais neblina se fizer em nossa estrada, mais luzes se acenderão no fim do arco-íris, se nosso pote de ouro, colecionar amigos!

Em homenagem a todos que habitam(ou sonham )com o reino encantado da fantasia, onde nossa Excalibur é forjada todos os dias por fiéis cavaleiros da minha e da vossa “Távola Redonda”.

FELIZ 2011 para os Quiosqueiros de plantão!

Confie

Por mais nebulosos que se pareçam os seus dias...


...o Sol sempre encontrará um modo de te iluminar.


Aos amigos Quiosqueiros e Familiares desejo um Feliz 2011.


Marcos Santos
Fotos tiradas em 30/12/2010 às 05:55 hs

O ESPÍRITO MARGINAL

Andei borrifando a expressão “espiritualmente marginal” em alguns posts atrás e isso inquietou alguns dos meus amigos, especialmente o Leonel. Pensei... Isso daria uma boa conversa. Quem sabe? Tentaremos!
A bem da verdade essa denominação nada tem de muito complexa. Implica basicamente em andar à margem das religiões, não de Deus. Continuando a bem da verdade, nem sei bem qual é a minha relação com Deus. Cresci católica, fiz primeira comunhão mas cochilo nas missas, normalmente não consigo acompanhar todos aqueles cânticos e sermões das missas dos batismos, casamentos ou de sétimo dia, as quais compareço. Sempre cutuco alguém pra saber algo que o padre falou. Convivi com pessoas de outras religiões e na maioria das vezes não compreendia o que elas falavam. Ou será que não quis compreender? É possível que essa seja a verdade, me recusei a prestar atenção no que elas falavam pra me privar da responsabilidade em ser uma religiosa, seja lá qual fosse a esfera. Tem muitas regras, muitos pormenores. Um milhão de religiões tomam Deus de assalto, pintam-No com as cores que bem querem e tentam vender essa verdade esquisita. Já blasfemei um tanto pensando no Deus que muitos pregam. Parece um daqueles chefões de filmes sobre a máfia italiana, aonde o sujeito quer que lhe obedeçam pelo seu bel prazer e não por haver uma razão. Então Ele está lá, sentado em seu trono dourado com assento azul celeste, e vez ou outra decide que não quer que seus filhos façam isso ou aquilo. Posso ouvir Deus bradando:
- Não quero que trabalhem aos sábados! Mulheres não usem calça comprida - Na criação do mundo havia calça comprida?
- Padres usem saias e não se casem!
Aí um desavisado pode perguntar:
- Mas porque, Deus?
- Não questione, apenas obedeça, filho infiel!
Não consigo levar tais questões a sério, confesso. Acredito muito mais na consciência de cada um os levando a praticar o bem com o seu semelhante do que seguir um amontoado de regras que nem se sabe quem criou. Pra mim Deus está em praticar o bem, praticar de coração e almas escancarados e não puramente para conseguir uma cadeirinha cativa no céu.
Blasfemo aqui, caros amigos. Bem sei disso! Falei-lhes que sou espiritualmente marginal e agora compreendem o porquê. Jamais li a Bíblia. Me esquivo completamente a qualquer discussão acerca do que diz seus textos porque simplesmente não os conheço. Orgulho em dizer isso? De forma alguma! Mas também não me penitencio. Admiro as pessoas que conseguem se inserir numa religião e isso lhes ajuda a seguir os caminhos nem sempre fáceis. Confesso até uma invejinha dessa fé que sinceramente não sei aonde buscar em mim. Nem sei se quero buscar. Uma de minhas irmãs há um ano tornou-se evangélica convicta, seguiu a religião do marido que há tempos tentava convertê-la. E é daquelas mais radicais em se tratando da brincadeira do pode ou não pode. Foi complicado no início, estranhamos essa mudança, mas aprendemos a respeitar simplesmente porque era o que ela queria. E se houver o tal batismo, estarei lá lhe dando toda a força, mesmo sem entender patavinas. Por que acho mesmo possível que as pessoas convivam apesar de suas diferenças. Por que foge a minha total compreensão saber que pessoas se matam em nome de Deus!!! Tudo bem que é uma questão histórica, milenar... Mas elas ainda se matam e vão continuar se matando e justificam tais atos absurdos, cada lado achando que o Deus verdadeiro é o seu, que o lugar sagrado é seu por direito, enfim. Por que não decidem num par ou ímpar e a parte derrotada começaria em outro lugar, e o fariam sagrado, pregando o amor?
Claro que estou brincando com um assunto muito sério. Sim! Infantil e tola essa minha observação, eu sei! Infantil e tolas são todas as minhas observações sobre religião e o que as pessoas fazem em nome dela. Prefiro mesmo continuar à margem, porque certas coisas nem se eu vivesse mil anos compreenderia.
É bem possível que, se o Deus que me pregam for aquele que castiga, aquele bravo que não admite desobediência feito um pai severo, estou fritinha no fogo do inferno, por ter falado tanta asneira acerca de um assunto que pra mim é um mistério infindável, ainda que não tenha dado um passo sequer afim de desvendá-lo.
Mas se eu tiver alguma razão no retrato que pintei de Deus aqui no meu imaginário, acho que Ele até dará um sorrisinho espontâneo e dirá:
- Essa menina rosada é doida, mas é boa gente... É das minhas! Cancelem imediatamente o ingresso dela lá embaixo!
- Aí, Senhor! Valeu mesmo, heim? 

Por: Milene Lima

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Clube


5- HMHMHMHMHMHMHMHM HMHMHMHMHMHMHMHM
4-  H M H M H M H M H M H M H M H M
3-   H   M   H   M   H   M   H   M
2-     H       M       H       M
1-         H               M
                 VOCÊ


   Esta é sua árvore genealógica nas últimas cinco gerações, desde os seus tetravós, a não ser que você tenha brotado de uma couve ou seja uma ovelha chamada Dolly.
   São uns 150 anos, contando sua idade. Seus ancestrais somam, nessas gerações:

1+2+4+8+16= 31 Homens e 31 Mulheres.

   Note que, se qualquer uma dessas 62 pessoas não tivesse tido filhos, você não existiria. Mas qual é a probabilidade de você existir?
   Vamos raciocinar: se seu pai e sua mãe tivessem, cada um, 50% de probabilidade de gerar um filho durante toda a vida, você teria 25% de chance de existir. Das quatro combinações possíveis, somente uma nos brindaria com sua presença neste mundo:

Mãe apta?    Pai apto?    Filho nasce?
   Não            Não               Não
   Não            Sim               Não
   Sim            Não               Não
   Sim            Sim               Sim

   Fica claro que a probabilidade do filho é igual à probabilidade do pai vezes a probabilidade da mãe. Em outras palavras, 50% x 50% , que dá 0,5 x 0,5 = 0,25, ou 25%, ou 0,5 à segunda potência. Resumindo: 1/4.
   No seu caso, vamos considerar que a aptidão dos seus ancestrais para gerar vários filhos tenha sido de 100%. Êita família bem dotada! Só que para exercer esse dom, cada um deles teve que sobreviver em um mundo onde grassavam guerras e epidemias, e a mortalidade infantil era absurdamente alta. Muitas pessoas não chegavam à idade de procriar, e mesmo entre os que lá chegavam havia quem não quisesse ou não pudesse gerar filhos.
   Mas sejamos generosos e digamos que 99% atingissem essa idade e efetivamente deixassem herdeiros. Então, qual é a chance de que 62 pessoas chegassem a ter pelo menos um filho cada uma?
   O cálculo é fácil: 0,99 elevado à 62ª. potência... o que dá 0,54, ou 54%. Parece que você escapou por pouco...
   Se retrocedermos só mais uma geração, suas chances diminuem para 28%. Depois, 7,8%, 0,50% - e assim vai. Melhor parar por aqui...
   É claro que esse cálculo aproximado serve para todos nós. Somos todos sobreviventes, escolhidos, ganhadores.

   Bem-vindo ao clube dos premiados. 

    (Por Rodolfo Barcellos - baseado numa passagem do livro "O Mundo de Sofia", de Jostein Gaard).
   Esta postagem é uma transcrição revisada da original, de mesmo título, publicada em 02/03/2010 no "Sete Ramos de Oliveira". 

   Aos amigos do "Quiosque", agradeço o honroso convite para participar destas páginas e desejo um 2011, com muita paz, amor e realizações.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Chamada Geral




Final de ano, tudo fechando pra balanço... Mas o Quiosque não! É isso mesmo, gente.
O Quiosque do Pastel está repaginado e pretende reabrir suas portas em breve contando com mais colaboradores e muitas novidades.

As luzes foram acesas e sempre tem gente no balcão, então mãos a obra.
Não sei onde andam meus colaboradores. Alguns bateram em retirada e deixaram suas salas abandonadas. Outros continuam passando por aqui, mas ficam anônimos e nos deixam a procurar rostos. Eu mesma tirei umas longas férias e deixei nossa casa nas mãos de meu administrador e amigo Marcos Santos o qual cuidou muito bem de nosso Quiosque.

O espaço continua aberto para postagens.

Assunto? Todos.

Fotos pessoais? A que você escolher.

Imagem? Aquela que melhor casar com sua crônica.

Escrevemos para quem quiser ler.

Reestréia?
A qualquer momento!

Abraços e vem pro quiosque!

Lu C.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Esta Casa de Crônicas deseja...




... A meus colaboradores, amigos e seguidores - BOAS FESTAS e um 2011 de mais reflexões sobre o AMOR, a PAZ, a UNIÃO, o RESPEITO AO SEMELHANTE, o PARA COM O PLANETA e que possamos lembrar que há de se cuidar do CORPO E DO ESPÍRITO.

Até breve e um GRANDE ABRAÇO FRATERNAL da amiga

LU CAVICHIOLI

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Adolescência quântica

Hermes remoia a frase em sua mente que acabara de ler: “o homem é a prova concreta da falência da sua condição imortal”. Seus 14 anos era como um pires para se cortar uma melancia inteira. Maturidade que sufocava; faltava-lhe cotas extras de oxigênio perceptivo para os largos pulmões de sua consciência.

Em uma tarde chuvosa (sempre admirou a beleza das tardes chuvosas; dizia que o tempo instável e bravio despertava-lhe com voracidade o espírito inquiridor), Hermes, sentado à varanda de sua casa, olhando para os pingos de chuva que forçavam as folhas a se movimentarem bailadamente, teve uma idéia; uma idéia não, teve uma revolução mental provocada pelo espírito criativo:

“Não quero fazer 15 anos de idade; quero passar dos 14 para os 28”.
“Quem inventou a adolescência deve ter um senso de humor idêntico a de uma sardinha” — pensou.

É a mais tola das fases humana. Não me sinto criança e nem sou adulto; sou essa coisa indefinida que chamam de adolescente. Vou fechar meus olhos e em 5 segundos ao abri-los serei 14 anos mais velho. Serei um adulto. Serei como me sinto realmente. Um homem adulto.
Após um piscar de olhos, uma tartaruga olhava preguiçosamente para seus pés descalços. Agachou-se, pegou o insigne quelônio, afagou-o desajeitadamente devolvendo-o em seguida ao piso frio de sua varanda.

Não se lembrava de ter um bicho desses. Acompanhou com os olhos o lento movimento daquele animal que deveria medir uns 25cm de casco. Pensou: que vida mais estúpida! Com essa lentidão não sei como consegue procriar. Toca o telefone... levanta para atender. Uma voz rápida pede que esteja no escritório em 15 minutos em caráter urgente. Mas nem terminei o meu almoço. Levanta para pegar a chave do carro, toca o celular: “ alô amor, você pode passar na academia para pegar o Edu, estou indo com a Ciça no shopping; Ah, não esquece de trazer o laptop que já está pronto na assistência. Devo chegar tarde. Tem pizza semi-pronta. Tchau.”

Abriu a porta e se depara com uma pilha de cartas. Multa da Beth; aviso de corte de crédito e mais 9 envelopes todos eles contas próximas do vencimento.

No escritório o ambiente mais parecia uma sala de guerra em Bagdá do que uma atmosfera de trabalho. “Hermes, o chefe tá uma arara esfomeada com você”.

— Hermes, ontem recebi o nosso maior cliente para apresentar o projeto de lançamento e onde estava o senhor? Perdendo tempo com o estabanado do Galvão. Já disse que é a mim que você tem que se reportar. Chega né!

Vou precisar da revisão para amanhã às 8.

— Mas isso deve levar umas 5, 6 horas de trabalho direto...

A noite é uma criança. Peça pizza pra você e a Cleusa. Quero os dois nisso.

O cérebro de Hermes estava começando a entrar em ebulição.
Olhou pela janela e percebeu o quanto o mundo lá fora regurgitava de vida apressada, acesa tanto quanto os faróis dos carros engarrafando-se nos cérebros intransitáveis devido ao excesso de vazios acumulados.
Lembrou da tartaruga, esse representante exclusivo da paciência milenar e percebeu que sua aparente calma zen na verdade era o resultado do fardo acumulado por uma vida endurecida no casco de tantas regras e desregras.

Cada vida vivida, cada vida morrida acrescia uma nódoa de cristalização arquivadas burocraticamente no porão do sem sentido.
Olhou para o relógio... faltavam 15 segundos para 15 anos. Respirou fundo — pela primeira vez — sentindo um sentimento que talvez nunca percebera que o acompanhava segundo a segundo; podia pegar a lua com a mão, de olhos fechados; voar com a imaginação para outras galáxias; vencer 500 Golias com a força de um colibri; saudar o sol que arde dentro do coração e... dormir com a alma abençoada pelo rastilho de pólvora ainda umedecido pelo orvalho das muitas portas que a consciência pode abrir para esse parente de primeiro grau da eternidade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Aprenda a chamar a polícia!

Eu tenho o sono muito leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente no quintal de casa.

Levantei em silêncio e fiquei acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta passando pela janela do banheiro.

Como minha casa era muito segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei muito preocupado, mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali,espiando tranqüilamente.

Liguei baixinho para a polícia, informei a situação e o meu endereço. Perguntaram- me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa. Esclareci que não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém assim que fosse possível.
Um minuto depois liguei de novo e disse com a voz calma:


-Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas situações. O tiro fez um estrago danado no cara!
Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um helicóptero, uma unidade do resgate, uma equipe de TV e a turma dos direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste mundo.

Eles prenderam o ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado.
Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da Polícia.

No meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e disse:
-Pensei que tivesse dito que tinha matado o ladrão.

Eu respondi:


- Pensei que tivesse dito que não havia nenhuma viatura disponível.



(Luiz Fernando Veríssimo)

sábado, 9 de outubro de 2010

Tradição

"Tradição (do latim: traditio, tradere = entregar; em grego, na acepção religiosa do termo, a expressão é paradosis παραδοσις) é a transmissão de práticas ou de valores espirituais de geração em geração, o conjunto das crenças de um povo, algo que é seguido conservadoramente e com respeito através das gerações.
A tradição e sua presença na sociedade baseiam-se em dois pressupostos antropológicos:
a) as pessoas são mortais;
b) a necessidade de haver um nexo de conhecimento entre as gerações."...


Não há dúvidas de que a tradição vai muito além dessa breve definição, preguiçosamente copiada da Wikipédia.
Para nós mortais, religiosos ou não, o significado de tradição passa por castas, famílias, classes sociais...Enfim, por todos aqueles que, de alguma forma consideram-se especiais diante dos outros pobres mortais. Aliás, mais pobres e mais mortais do que eles próprios.

A família entra como um parágrafo a parte quando o assunto é tradição. Algumas famílias sentem-se mais tradicionais do que outras. A escala de medida não é bem clara, mas mesmo assim elas conseguem diferenciarem-se, qualificando a si próprios, enquanto desqualificam os outros.

Alguns enchem a boca para pronunciar seus sobre-nomes italianos: "Antognoni", "Farfareli", "Fidelini", "Falconieri"...Na verdade descendem de pobretões que vieram ocupar com grande vantagem e incentivos, os lugares deixados pelos pobres escravos negros, largados na sarjeta. Embora não conhecessem nada do riscado da cafeicultura, eram mais branquinhos e bonitinhos do que aqueles "crioulos horrorosos" (Não consigo enxergar outro motivo para tal sacanagem). Já há outros que capricham no biquinho para pronunciar "Fechecler", "Abajour"...Enfim, tradicionalíssimos de grande e nobre estirpe.

Mas existem aqueles que, inconformados com sua falta de "berço", não exitam em apelar ao casamento, na busca incansável da "tradição". Nesse caso, vai aí a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Afinal, linhagem é linhagem, não importando se o acesso à "tradição" se dá pela entrada da frente ou pela saída de trás.

O meu caso não foge a essa regra.
Totalmente sem tradição, minha família teve seu início a partir de um português sem sobre-nome.
- Qual o seu nome meu senhor?
- Antônio José...
- Mas Antônio José de quê?
- Antônio José de nada ó pá.
- Antônio José de Nada é o nome completo? O sobre-nome é "Nada"?
- Não, o sobre-nome é nenhum.
- Afinal, qual o seu nome completo?
- Ó pá, é Antônio José e ponto final, mas sem escrebere o "ponto final". Está bem entendidinho?
- Então vamos tentar a sua filiação. Nome do seu pai?
- José Antônio.
-...De quê?
- Só isso
- ?!? Tá de sacanagem portuga? Nem quero saber o nome de sua mãe.


Não preciso dizer que hoje, alguns de seus decendentes retorcem-se na busca de alguma junção matrimonial que os "tradicionalize". Outros tentam desesperadamente arquitetar algum sobre-nome que se encaixe na história de meu avô. Teria sido Pato? Ou Pereira? Quem sabe Oliveira?

De onde veio, de que família pertencia, onde nasceu...Dele só se sabe que era um tripeiro. Não no sentido tripeiro, nascido no Porto (para quem não sabia dessa, vale a curiosidade), mas o tripeiro que vende tripas, miúdos do boi...não os miúdos no sentido dos "filhos dos bois portugueses", mas no sentido das vísceras do bicho.
O que se sabe é que, aproveitando-se de uma época em que o homem da casa não tinha satisfações a dar, meu avô iniciou a família "José Ninguém".
...E assim espalhou suas sementes pelas terras brasileiras, mais precisamente em Turiaçú, entre Madureira e Rocha Miranda, no subúrbio do Rio de Janeiro.

O que se fala sobre Antônio, dá conta de um bom homem, trabalhador honesto e pai dedicado, mais nada (o que já me basta).
Sua cidade portuguesa de nascimento segue como uma incógnita. Suas reconhecidas presteza, bondade e simpatia, de certa forma o protegeram de especulações maldosas, que certamente seriam feitas a respeito de sua reduzida alcunha.
Mas eu, como descendente e herdeiro de sua cepa, por direito de neto, serei inconseqüente e arriscarei em especular:
Teria Antônio José emprenhado alguma galega e partido para o Brasil, abdicando do sobre-nome para não ser localizado por um pai furioso?
Faz sentido...
Ou tudo isso, mas no lugar do pai furioso, um marido traído?
Faz mais sentido ainda...
Ou teria dado um calote na praça lusitana e fugido para o Brasil de modo a usufruir dos benefícios do golpe?
Considerando sua vida inicial em Turiaçú, num canto da casa que minha avó dividia com suas irmãs...Se foi golpe, foi mal sucedido.

A verdade mesmo de toda essa história, é que o bom Antônio José construiu uma família sem nenhuma tradição. A família "José Ninguém", cuja maior tradição é exatamente essa...Não ter tradição alguma.
Então? Vamos continuar assim? Vamos manter nossa tradição secular?

Enfim...Tradição é isso.


Marcos Santos

Fotografia: Gravura sobre a tradição em família, de Gordon Lawson

sábado, 2 de outubro de 2010

Festa na véspera.....mais o ladrão chefe

Então é isso? Uma eleição cuja campanha começou antes da hora acabou antes que os votos sejam depositados na urna? A vencedora de véspera já estendeu a mão, magnânima, à oposição; seus dois maiores caciques começaram uma briga intestina; cargos são distribuídos entre os partidos da base e os assessores já preparam os planos e projetos. Fala-se do futuro como inexorável.

O quadro está amplamente favorável a Dilma Rousseff, mas é preciso ter respeito pelo processo eleitoral. Se pesquisa fosse voto, era bem mais simples e barato escolher o governante. Imagina o tempo e o dinheiro poupado se pesquisas, 30 dias antes do pleito, fossem suficientes para o processo de escolha?

A estrutura da Justiça Eleitoral, as urnas distribuídas num país continental, mesários trabalhando o dia inteiro, computadores contando votos; nada disso seria necessário. Mas como eleição é a democracia num momento supremo, respeitá-la é essencial.

Os que estão em vantagem, e os que estão em desvantagem, não podem considerar o processo terminado porque isso amputa a melhor parte da democracia, encerra prematuramente o precioso tempo do debate e das escolhas.

Dilma já sabe até o que fará depois de ser eleita, como disse na sexta-feira: "A gente desarma o palanque e estende a mão para quem for pessoa de boa vontade e quiser partilhar desse processo de transformação do Brasil."
Os jornalistas insistiram, ela ficou no mesmo tom: "Estendo a mão para quem quiser partilhar. Eu não sei se ele (Serra) quer. Você pergunta para ele, se ele quiser, perfeitamente."

Avisou que se alguém recusasse, não haveria problema: "Pode ficar sem estender a mão, como oposição numa boa que vai ter dinheiro." Já está até distribuindo o dinheiro público.

Feio, muito feio. Por mais animador que seja para Dilma os resultados da pesquisa — e deve ser difícil segurar a ansiedade — ela deveria pensar em algumas coisas antes.
Primeiro, que falta o principal para ela ganhar: o voto na urna. Segundo, que o eleitor muda de ideia na hora que quer, porque para isso é livre. Terceiro, que, novata em eleição, deve seu sucesso a fatores externos a ela: o presidente Lula, o momento econômico e a eficiência dos seus marqueteiros.

Aliás, o marketing de Dilma tem sido tão eficiente em aparar todas as arestas de sua personalidade que criou uma pessoa que nem ela deve conhecer.

O salto alto não é só dela, a bem da verdade. A síndrome das favas contadas se espalha por todo o seu entorno, cada vez mais desenvolto. Por isso já começaram a brigar os generais de cada uma das bandas: Antonio Palocci e José Dirceu.
Da última vez que brigaram, os dois caíram. A disputa dos partidos da base de apoio pelos cargos públicos, como se fossem os despojos da guerra já vencida, é um espetáculo que informa muito sobre valores, critérios e métodos do grupo.
A desenvoltura do já ganhou é tanta que até o presidente Lula, dono da escolha autocrática de Dilma, parece meio enciumado e reclamou que já falam dele no passado. E avisou: "Ainda tenho caneta para fazer muita miséria."

A declaração inteira é reveladora: "Tem gente que fica falando aqui como se eu já tivesse ido embora, mas ainda tenho quatro meses e alguns dias de governo. Alguns falam como se eu já tivesse ido. Tem gente que se mata para ser presidente por um dia e ainda tenho quatro meses e alguns dias. Ainda tenho a caneta para fazer muita miséria nesse país."(PALAVRAS AMEAÇADORAS, TIPICAS DE DITADORES). O sentimento é um perigo. O presidente Lula já está fazendo miséria. Atropelou o calendário eleitoral, zombou das multas na Justiça, pôs o governo que dirige para trabalhar pela sua candidata como se a máquina pública fosse um partido político.


Cada um faça sua própria avaliação dessa frase de um presidente:
(Não tem nehuma conotação nem de longe com patriotismo, com nacionalismo, com algo do tipo bem feitor, a sensação é de ódio, destruição, poder pra fazer o bem e o mal, de quem tem a chave da justiça em suas próprias mãos)

AINDA TENHO A CANETA PARA FAZER MUITA MISÉRIA NESSE PAÍS.

Por Miriam Leitão*

só de passagem e repassando a mensagem!
(Lu C.)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cena Urbana - O Mendigo Molhado

Nem mesmo a sujeira de sua indumentária permanecia solidária, visto que a força das chuvas arrancavam-na,
transformando-a em lama fétida.

A enxurrada que caía sobre seu corpo, era o contado mais íntimo que a muito não tinha,
visto que até aos ossos penetrava.

A torrente fria que lhe cobria
era seu único aconchego.

Conforto sem conforto,
sem leira nem beira,
... sem ninguém...

Apenas um pedaço pensante de carne, ainda viva.
Depósito de anticorpos e defesas bacteriológicas.

Um laboratório vivo promíscuo.
Produtor de odor, suor, fezes e urina.

Um vivo morto.
Um morto vivo.
Um Ser Humano Urbano.
Um Ser do trânsito.

Como um poste,
um bueiro,
uma placa,
uma sarjeta.


Marcos Santos

domingo, 29 de agosto de 2010

A Felicidade

Photobucket

A felicidade está em apreciar a folha morta e seca. A felicidade está em perceber o belo em um inseto de seis patas. A felicidade está em apreciar os sabores, mesmo os mais fortes, picantes ou amargos. A felicidade está em saber compartilhar a natureza com os outros seres, mesmo os mais ferozes. A felicidade está em...


Infância Perdida - Parte Dois

Em algum tempo todos estavam reunidos no entorno dele. Alguns por consideração, outros por curiosidade e nós, por sermos seus pais.

Nossos corações estão como que anestesiados. Nossas gargantas meio que, como visgo de jaca, com uma secura pegajosa. Nossos pensamentos não estão ali, mas estão com ele.
Como seria se tivesse tido uma chance? Como seríamos se fôssemos em número de quatro? Realmente não sei e talvez nunca venha a saber.


O ritual fúnebre exige sua seqüência. Como pai de um filho anjo, não me resta alternativa senão levá-lo, eu mesmo e somente eu, à sua morada final.
E assim o fiz, sem lágrimas, sem rosto, sem pernas nem passos.
Interessante foi observar que não havia chão nesse caminho, não haviam braços ou mãos para segurar sua urna, mas ela chegou ao seu destino.
O Destino... .



...A felicidade está em poder escrever, mesmo quando a fonte de inspiração for a sua própria tragédia.

Poemas A Felicidade e Infância Perdida Dois - Marcos Santos
Foto Folha de Café - Marcos Santos

sábado, 14 de agosto de 2010

Educação Inclusiva

Minha sobrinha pediu-me auxílio a respeito desse tema. Afinal, como pai de um menino com paralisia cerebral e perdas cognitivas severas, além de cego e cadeirante, seria natural o meu conhecimento a respeito do caso. Sei que minha opinião não é válida para trabalhos acadêmicos, principalmente por não constar da bibliografia vigente. Mas sei que minha opinião não é especulativa e não brota de teorizações ou ilações. Brota de minhas necessidades e observações do dia a dia.

Antes de tudo, vamos deixar claro que a pessoa com necessidades especiais é uma pessoa com deficiências. Essas deficiências podem ser motoras, visuais, auditivas, mentais... Então vamos chamar a pessoa com necessidades especiais, simplesmente de “deficiente”. A expressão “pessoa com necessidades especiais” é por demais hipócrita, piegas e não resolve o problema.

Todo cidadão tem direito à educação, seja ele deficiente ou são. Quando o estado preocupa-se, tentando viabilizar a educação dos deficientes, está na verdade, tentando cumprir com sua obrigação, educar o cidadão. Não há aí, no caso do cumprimento de metas educacionais, motivos para vangloriar. A educação especial inclusiva trabalha principalmente com ferramentas possíveis, ao alcance da unidade de ensino e do educador. No entanto, a educação verdadeiramente inclusiva (no meu modo de pensar), totalmente negligenciada por todos, é a educação inclusiva de toda a sociedade.

Por exemplo: Um deficiente, tendo recebido toda educação necessária para sua participação no mercado de trabalho, esbarra na falta de educação inclusiva do resto da população. No contexto dessa falta de educação, podemos incluir o próprio estado, que pouco faz e quando faz algo, o faz em tom de paternalismo.
Arquitetos, engenheiros, urbanistas, entre outros construtores, só iniciaram uma preocupação mais incisiva com a acessibilidade, devido a força da lei. Ou seja, na verdade o fizeram por imposição, não por ideologia social ou convicção.

A educação especial, aplicada ao deficiente, inclusiva ou não, poderá ter sua efetivação limitada pelo grau de deficiência, associado ao grau de determinação e empenho do mesmo, ambos associados ao tipo de função almejada.
De qualquer forma, mesmo obtendo êxito educacional ou profissional, o deficiente esbarrará no seu dia a dia, na falta de educação inclusiva do resto da população.

Quando vemos cones, correntes, entre outros tipos de barreiras, protegendo as vagas de especiais para automóveis, nos shoppings e nos supermercados, temos aí um dos grandes indicadores da falta de educação inclusiva da sociedade como um todo, de como a sociedade é egoísta e excludente.
Se levarmos em conta que essas barreiras existem para a proteção dessas vagas, contra o abuso de pessoas sãs, possuidoras de carros, não podemos desconsiderar o nível econômico e educacional dessas pessoas. Elas estão na parte de cima da pirâmide.
Essas são as mesmas pessoas, que por algum momento na vida, tiveram seus filhos e sentiram as dificuldades dos deficientes, ao empurrarem seus carinhos de bebês. Nesse período sentiram-se prejudicadas em seu direito de acesso. Mas logo os filhos crescem, os carrinhos de bebês são aposentados e esses pais estão prontos para burlar o direito dos outros, deficientes que continuam precisando das vagas especiais e infelizmente, dos cones para guardá-las. Fôssemos uma sociedade inclusiva, esses cones não existiriam. Não com essa função.

A educação inclusiva deve ser reavaliada e rediscutida, pois uma sociedade inclusiva inclui os excluídos, enquanto uma sociedade excludente jamais incluirá os excluídos, por mais educação inclusiva que estes venham a receber.
O ser humano deve aprender a incluir os diferentes desde criança, independente da convivência ou não com eles. Somente assim, com uma sociedade menos egoísta e mais fraterna, a verdadeira inclusão será alcançada.


Marcos Santos
Rio de Janeiro

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ouro de Tolo




A sala estava (por enquanto) em total penumbra. Só as luzes da rua ousavam olhar através do linho (verde-musgo) encorpado presente na janela. E por isso, conferia ao ambiente certo marasmo lúgubre (ousado ou amaldiçoado)? Nem sei...

O jogo de sofá, dormia em um canto , emoldurado pela textura ,cor de avelã . No lado leste da sala, achava-se acanhada, uma mesa de jantar sextavada que era abraçada por cadeiras imóveis.

Um tapete persa, um tanto rugoso olhava uma pequena chama tremeluzente que vinha da janela oposta à luz da rua. Era dourada , abstrata na refração um tanto cínica para uma noite comum. (Mas não era uma noite comum)!

O vento começava seu bailado, e a leveza do voil transparecia uma face (retorcida)?!
Era ouro mesmo? Louca presunção da noite preta.

Sorriso amarelo na janela. Boca recortada, dentes afi(n)ados.
Olhos velados (chamuscados).
Nariz triangular na face marota.
Ela – abóbora
Noite de travessuras!

*texto escrito po ocasião de um exercício literário proposto pelo Empório do Café Literário.

by Lu Cavichioli

sábado, 17 de julho de 2010

A Fadinha



Este fato aconteceu em 2007.
Estávamos os três, eu, minha mulher e meu filho Pedro, nos divertindo na Festa Junina do Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá. Festa tradicional e que todo ano vem sendo executada com grande sucesso.
Já tínhamos experimentado de tudo em termos de delícias. Cocadas de todos os tipos e cores, paçocas de tudo que é jeito, caldo verde, churrasquinho de gato. Enfim, tudo com tudo dentro.

O grande nome do dia seria o da centenária Dercy Gonçalves, que muito simpática e apesar da idade e fragilidade do corpo, aceitou tirar fotos com várias pessoas.
Nós até que gostaríamos de tirar uma foto com a Boa Velhinha, mas não conseguimos chegar perto, pois meu garoto é cadeirante e o terreno do Retiro não ajudava na aproximação.

Foi nesse momento que ela surgiu!

Com um sorriso lindo e um rostinho iluminado, uma “Fadinha” aproximou-se do Pedrinho, fez alguns afagos em seus cabelos, virou-se para mim e disse:
- Tio, posso tirar uma foto com ele? Claro, respondi – Será um prazer!
Imediatamente ela se colocou em posição, segurando na cadeira de rodas, abriu um lindo sorriso e ... click. Capturei a fadinha pra minha família.

É óbvio que, como toda criança, essa já saiu pulando como uma cabritinha assim que escutou o clicar da câmera. Ainda tentei perguntar seu nome mas... ela sumiu no meio do povo.

O engraçado dessa história, é que a fadinha não saiu da nossa imaginação. Ela existe, em corpo e alma. Estava lá! Eu fotografei!

Infelizmente, nesses momentos, as coisas acontecem muito rápido e acabei sabendo pouco sobre ela.
E realmente não sei! Não sei seu nome, onde mora, quem são seus pais, sua idade. Só sei que ela é linda, de alma pura e enorme. Que é uma Fada, uma criaturinha de Deus.

Mas o melhor de tudo, era uma fadinha negra. Linda em toda plenitude de sua raça. Mostrando que a melhor cor do ser humano, é a cor dos braços que nos abraçam, a cor da mão que nos acaricia, a cor da face que nos sorri.

Numa sociedade que tem dificuldade em lidar com os diferentes, encontrar uma criança dessas é uma dádiva, um fato muito raro. Felizmente meu menino costuma atrair essas pessoas para próximo de si e é isso que nos faz acreditar num amanhã melhor e mais fraterno.

Esses Anjos e Fadas estão por aí, eles existem e você pode se tornar um. Basta querer!

Marcos Santos

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ih!

Com meus próprios blogs praticamente relegados ao esquecimento já faz é tempo, nem pareceria normal eu dar por falta de novidades aqui no Quiosque. E não é, mesmo.

Mas, cadê os outros quiosqueiros remanescentes? Só o Marcos tem postado regularmente.

Bem, a gente se vê por aí.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Borrateiro

Eu tinha uns...sei lá, doze, quatorze anos. Foi no casamento de meu primo mais velho Mozart, com uma "nãosei" chamada Rosa. Aliás, um doce de pessoa. O casamento seria em São paulo, terra que minha tia Preciosa adotou desde moça e onde criou seus dois filhos, meus primos. Minha família, toda carioca, partiu do Rio em caravana para a grande festa matrimonial. Chegamos na casa de meu primo, no bairro de Cidade Dutra, praticamente ao mesmo tempo. E isso no dia do casamento, o que deve tê-lo atrapalhado bastante, pois receber toda uma tropa de farofeiros e se casar no mesmo dia, deve ser algo complicado. Algo que meu primo fez com tranqüilidade. 
...Mas veio o casório e em seguida os comes e bebes. A melhor parte estava reservada para o dia seguinte.

O pai da Rosa, um agricultor japonês (esse mesmo é que "nãosei" a denominação), quis fazer uma recepção para toda a família, em sua chácara no interior do estado. Lá ele mostraria um pouco da cultura japonesa, principalmente a culinária. Confesso que minha família, toda ela habitante do subúrbio carioca de quarenta, cinquenta...oitenta e tantos anos atrás, não tinha muita noção de que se comia peixe cru no Japão. Hoje a coisa mudou muito...restaurantes espalhados pela cidade, internet, televisão...hoje se come peixe cru em qualquer favela do Rio, mas naqueles tempos era assunto para a nata da sociedade carioca, não para um grupo de moradores de Realengo, acostumados com o ensopadinho de carne seca com repolho da tia Isaura (uma delícia, por sinal). Mas o anfitrião fez um belo banquete para nós. Lembro-me que tomou o cuidado de assar pernis de porcos para nossa família, caso alguém "arregasse" os sushis e sashimis.
Eu comi de tudo. Carne de porco com sashimi, carne de porco com sushi, carne de porco com molho shoyu, carne de porco com gohan, carne de porco com tempurá...foi uma beleza...e está claro que não ficaria bom por muito tempo.

Logo a mistura gastronômica começou a fazer efeito e meu drama passou a ser o de localizar um local aprazível para deixar com que a natureza fizesse seu trabalho de reciclagem. Procura daqui, procura dali, esbarrei com minha prima Lilica, grávida de sei lá quantos meses, que já tinha abortado...não o filho, mas a idéia de entrar no tal "borrateiro". Ela já estava partindo para o matagal mesmo, não sem antes me indicar o caminho da misteriosa e abominável casinha. Acho que ela deve ter-se divertido em me enviar para lá. E eu, menino inocente e puro...fui.

O borrateiro em questão tinha uma peculiaridade. Era uma casinha, que sinceramente não lembro se tinha telhas ou se era a céu aberto, pois não tive como olhar para cima, sob pena de arriscar minha integridade. Mas a parte de baixo... essa era algo como a boca do inferno na terra, cujos detalhes já vou descrever.
Antes quero voltar a afirmar que minha prima "nãosei" Rosa, é um anjo de pessoa. De verdade. Mulher guerreira e batalhadora, que segurou a criação de seus filhos sozinha, após a morte prematura de meu querido primo, esse que na história estava se casando com ela...mas diante dos fatos não há argumentos...e eu estava sozinho no interior do borrateiro, diante de uma experiência única em minha vida.

A estrutura era simples, embora como já disse, não tenha reparado a parte de cima. Tratava-se de um cercado de madeira, com uma porta mambembe, com dobradiças rangendo e um trinco duvidoso. O piso era feito de ripas sobre um "pilotis" de madeira, sob o qual estava a visão infernal. Mais ou menos no centro do piso, havia a falta de uma das ripas. E seria ali, naquela fenda de uns quarenta centímetros de largura, eu iria despejar o que outrora havia sido o almoço da festa. Mas não sem antes observar os detalhes estruturais do engenho (criança é um bicho muito curioso).
Na direção da fenda havia uma tábua inclinada, que descia até mais ou menos metade da altura do "pilotis", no fim dessa tábua, havia uma outra, que descia inclinada no sentido inverso da primeira. Essa segunda tábua ia direto até a morada de Satanás, propriamente dita...a fossa cheia de merda, a imagem do Inferno na Terra.

Para tomar coragem, tentei fazer um xixizinho antes, de modo a observar o funcionamento da coisa. Algumas poucas moscas subiram e a vontade apertou. Arriei o traseiro sobre a fenda e mandei a primeira bomba. Fiquei obsevando o "general" descendo de escorregador na tábua inclinada e mandei o segundo míssil, um almirante a bordo de um cruzador.
Foi interessante observar a corrida entre o general e o almirante. Os dois chegaram praticamente juntos ao final da primeira sessão, mas na segunda o almirante disparou, chegando muito antes no fundo do mundo. Enquanto isso o general ia se arrastando, numa lerdeza irritante. Fiz mais um xixizinho na tábua e venci sua relutância, mandando-o para junto do almirantado e do alto comando militar que havia lá embaixo.

Depois de velho fui entender o funcionamento dessas casinhas. Tratam-se de estruturas itinerantes dentro da propriedade rural, sendo reconstruídas em outro local sempre que a fossa estiver saturada. A vantagem está na adubação natural e gratuita da terra, além da ausência da taxa de esgoto.
Pode ser feio e desconfortável, mas é muito útil.

E voltando ao assunto do escorregador de cocô... criança é um bicho engraçado, e numa hora dessas consegue tirar uma brincadeira e... porque não, uma lição:

"Mesmo entre os merdas... pode haver um vitorioso, não é mesmo?"

Marcos Santos

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Marcha da Maconha

O Rio de Janeiro, na verdade Ipanema, foi palco de mais uma passeata pela legalização da baforada. Maconheiros do tipo "cabeças feitas" e "cabeças incríveis" desenterraram, sabe-se lá Deus de onde, disposição para "marchar" a beira mar, pois é mais fresco e ninguém é de ferro.

Mais uma vez, sob o risco de ser tachado de reacionário, vou expor a minha opinião sobre esse assunto.

Todo menino nutre idolatria por alguém. É normal, faz parte da vida. Um dos ídolos que tive na infância, além do meu primo mais velho, foi meu vizinho Paulo Henrique.
Paulo era aquele tipo de adolescente bacana, que protege os meninos menores e os valoriza como indivíduos. Bom de bola, Paulo não usava esse atributo para barrar os mais fracos e pernas de pau de plantão. Nas peladas do Paulo, todo mundo jogava. Estudioso, Paulo foi primeiro entre nós a concluir o ginasial, até que um dia foi apresentado à "inocente maconha".

Diferentemente dos "cabeças feitas" da Zona Sul do Rio, Paulo era um rapaz "baixa renda" da antiga Zona Rural da cidade. Lá, na Zona Rural, só vencia na vida quem trabalhasse. Não existia a opção do papai político, do funcionário público de alto escalão, ou do papai empresário, arrumar aquela "colocação" para o filho bonitão. Lá, quem não trabalha visita rapidamente o lado mais negro da vadiagem. O camarada bate de frente com o desemprego e por decorrência com o crime.

Fui gerente de uma fábrica com mais de 300 funcionários e posso dizer de cadeira:  Eu não entrego um torno, uma fresa, uma retífica, uma prensa, ou qualquer outra máquina operatriz que seja, nas mãos de um maconheiro. E os motivos são simples:  Falta de disposição, falta de reflexos, falta de compromisso. O maconheiro é um péssimo trabalhador, um vagabundo em potencial.

Quando vejo o Deputado Carlos Minc aderindo a essa babaquisse, só consigo pensar que ele tenha merda, mas muita merda mesmo, na cabeça. Talvez se explique por sua origem, onde maconheiros e cheiradores conseguiam aquele "arranjozinho". Onde a produtividade e a responsabilidade de um emprego não faziam parte do cardápio, pois no final, o filé mignon sempre seria servido.

Paulo Henrique não teve essa camaradagem. Da maconha passou para a cocaína e da cocaína sem dinheiro, passou para a cachaça em doses cavalares. Hoje Paulo é um trapo humano, sem condições de ler esse texto.
Meu ídolo de infância, aquele adolescente forte e vigoroso, jaz moribundo. Um zumbi afogado nos seguidos copos da aguardente.

A maconha, na boca de um bacana é uma curtição, na boca do proletariado é o início do triste fim.
Gosto muito de trabalhar, devo ser mesmo um tremendo reacionário.

Em tempo:
A passeata pedindo a liberação da maconha no vasinho, reuniu 1500 pessoas.
A passeata pedindo a aprovação da Lei Ficha Limpa contra a corrupção, reuniu 500 pessoas.


Marcos Santos
Rio de Janeiro

sábado, 1 de maio de 2010

Papo Ecológico 2

O Subversivo.


A maré aparentemente baixa, expunha as ondas que quebravam nos rochedos, próximos ao horizonte.
Mais além, navios gigantescos navegavam em seu trânsito rotineiro.

Todo o cenário tranqüilo e quase estático, nos oferece uma calma e conforto impressionantes. O mar cálido acalenta, e a visão dos navios nos traz segurança. A segurança de que lá, naqueles confins, também é território nosso.

Eis que os rochedos somem de nossas vistas, como que num súbito subir e descer de maré.
Mas o inesperado ainda estava por acontecer, e subitamente uma das rochas emerge na vertical, tal e qual imenso torpedo, expondo toda a verdade dos fatos.
Um grupo de baleias nadava por ali, de maneira a causar a ilusão geológica.

Neste momento meu coração disparou. Fiquei nervoso e agitado. Foi quando alguém deu um grito gutural: Baleeeiaaaaa !!

Todos na praia pararam seus afazeres e, assustados, observaram o magnífico animal. Neste instante uma outra baleia salta para além da superfície e nos oferece um balet gigantescamente leve. Uma leveza de cem toneladas.

Mais alguns saltos, enquanto toda a população observa agitada ao espetáculo cetáceo, até que o último animal mergulha e some nas profundezas.

A multidão em uníssono comenta a furtiva aparição, e a medida que o tempo passa, tudo volta ao normal e as pessoas se acalmam.

O trânsito dos navios e dos barcos de pesca, tomam novamente o protagonismo marinho e pouco a pouco, o povo se acomoda, voltando ao seu ritmo rotineiro.

Agora, a aparição subversiva dos mamíferos gigantes, tornou-se coisa do passado e o mar, finalmente, devolvido a quem de direito. Ao inequívoco homem, o mais “ecológico” dos animais.



Marcos Santos
Rio de Janeiro

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Papo Ecológico 1

O reino animal tem suas curiosidades e maneiras bem próprias de agir. 
Mesmo um animal doméstico que, de certa maneira, tenta arremedar seus donos, age na maior parte do tempo, segundo os costumes milenares de sua evolução.
Aspectos interessantes como a maneira de caçar, soluções para entocar-se e dormir, hábitos noturno ou diurno e etc., foram desenvolvidos durante milhões de anos e não serão perdidos, mesmo por um animal obeso e preguiçoso, criado sobre uma almofada de veludo.


E a chave está exatamente na palavra EVOLUÇÃO.


Todos os animais, domésticos ou não, vem evoluindo (a despeito de nossa interferência) durante centenas de milhões de anos. Conseqüentemente, não será com alguns milênios de enchessão de saco (ou encheção de saco - quem souber, me avise), que o homem alterará os princípios básicos comportamentais de nossos amigos “inferiores e irracionais”.


Interessante é notar que a mesma palavra, EVOLUÇÃO, seja a resposta para tantas coisas erradas que a raça humana tem feito.


O ser humano queimou etapas.
Enquanto nossos colegas “sem alma” estavam lutando e evoluindo para perpetuarem-se, o homem estava no “Limbo”, aguardando Deus amassar o barro para colocá-lo como senhor dessas terras.

Conclusão: Despreparado e sem experiência para assumir a chefia do departamento, o ser que se julga a imagem e semelhança do Criador, desandou a fazer cagada. É efeito estufa, é degelo na Groelândia, é doença pra todo lado, é merda pra todo canto.
O resultado a gente vê no Oriente Médio, na Amazônia, em Washington, Brasília, e vai por aí a fora. Onde tiver muita gente junta, tapem as narinas,  "alguma" eles estão aprontando.


Mas toda essa coleção de asneiras está plenamente justificada. Afinal, o homem é o único animal racional, político e religioso que existe. Aspectos que somente uma espécie alienígena  poderia apresentar.


Acreditem, nós não somos desse planeta.

Marcos Santos
Rio de Janeiro

sexta-feira, 26 de março de 2010

Deus é Fiel - Um Conto Ateu

Caros Amigos do Quiosque
Peço licença para postar um conto. Inicialmente pensei em postá-lo em partes, mas devido ao seu pequeno tamanho resolvi colocá-lo por inteiro.

Um Abraço
Marcos Santos


Deus é fiel


        "Armando Beiço é o tipo do sujeito preguiçoso. Se há uma coisa que ele gosta de fazer, é varrer as folhas da amendoeira de seu quintal, junta-las e atear fogo.
Feito isto, o dia está terminado,  a partir daí é só tomar conta da vida alheia.
Sua patroa, Dona Mercedes, faz o tipo "católica util". Daquelas que atende prontamente o que o Pároco pede, desde vestir um defunto paroquiano, até organizar círculos bíblicos pela vizinhança. Tudo isso, obviamente, contanto que não tenha que olhar para a cara de seu enfadonho marido, o Armando.

Mas não é só dele que quero falar, afinal de contas, só tive um contato em vida com esse sujeito e mesmo assim, ele apenas cruzou meu caminho. Meu nome é Aristides Gomes de Oliveira, ou pelo menos era..."




II - Toda história tem seu começo


        Tudo começou em 1991, com a mudança de novos vizinhos para a casa em frente a casa do Armando. Os novatos, com cara de assustados, foram se ajeitando por ali .
O marido fazia o tipo trabalhador incansável, dono da verdade e das virtudes. Já a esposa fazia o tipo organizada e séria, dedicada e limpa.

Um belo dia Armando começou a notar um movimento diferente na casa da frente. O marido saía junto com a esposa, ambos com agendas debaixo do braço. No dia seguinte o marido saia com umas bolsas de lona amarelas, vazias.

  • O que será que esse sujeito faz ?  Sai cedo com aquelas sacolas, e depois volta com elas vazias ? muito esquisito... .

Armando tocava fogo nas folhas secas, em seguida subia na pilha de tijolos e se debruçava no muro, ali ficando escondido no meio da fumaça. Sempre tomando conta da vida dos vizinhos.

  • A esposa passa o dia trabalhando, daqui dá pra ver que a casa é bem limpa, pensava consigo o bem-casado Armando.

...O tempo corre fora da casa de Armando, ele fica como se estivesse a bordo de uma máquina do tempo. Do outro lado da rua, os vizinhos se movimentam como formigas. Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça.

  • Agora descobri. Esses vizinhos vendem produtos por atacado. Só não entendo as bolsas saírem e voltarem vazias. Arranjaram um cachorro , que já cresceu, é um pastor alemão. Bobagem, uns vira-latas como os meus dão conta do recado. Parece que estão pensando em prosperar, tô duvidando... .

De vez em quando Dona Mercedes dá um “carinho” para o pobre do Armando.

  • Ô homem nojento, você é um imprestável mesmo, já não falei que quero as cortinas todas fechadas na hora que o Sol bate ?  Você não sabe que a luz atrapalha meu sono ?

        Armando pensa consigo...
  • Ainda vou me livrar dessa mulher. Sexo comigo ela não quer, diz que dou nojo. Comida pra mim ela não faz, diz que não é minha empregada.

...Mas os anos passam fora de casa e o Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça. ...Os vizinhos da frente compraram um carro velho.

  • Essa é boa, com esse carro velho duvido que eles andem pra frente.

...E os vizinhos continuavam sua vida de formiga, trabalhando, trabalhando, trabalhando. Mas os anos passam fora de casa e o Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça. Até que os vizinhos compram um caminhãozinho zero quilômetro.

  • Só podem estar roubando, ninguém progride assim do dia pra noite.
        ... Dona Mercedes nota o progresso dos vizinhos e se incomoda.
  • Gente metida a besta. Não freqüentam a igreja, não tem religião decente, devem ter conseguido essa melhora na macumba.

...Os vizinhos, alheios à vida alheia, continuam sua rotina de formiga, apesar do progresso financeiro, mantém sua vida simples, organizada e de trabalho.

Os anos passam fora da casa do Armando, ele toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça.
Dona Mercedes irritada com o progresso dos vizinhos desconta no marido, enquanto passa o henê no cabelo.

  • Ô seu traste preguiçoso!  Larga dessa vassoura e vai procurar serviço. Homem mole!  Olha o exemplo que está dando aos meninos. Gritava ela entre uma pincelada e outra do visgo negro.


III - A Iniciativa

        Um belo dia Armando, cansado de tanto esculacho, resolve sair e procurar serviço. Sua carteira de trabalho não ajudava, pois nada ele sabia fazer. Praticamente, ao longo de seus quarenta anos, só tinha trabalhado como empregado uns seis meses. Na juventude havia trabalhado na lavoura de seu pai, mas numa cidade grande, isso de nada adiantava.
Depois de muito procurar soube que o vizinho, aquele do caminhãozinho, estava precisando de um motorista. Encheu-se de coragem e pediu uma oportunidade ao rapaz.

  • Ô vizinho, será que eu poderia conversar com o senhor ??
  • Claro – respondeu o vizinho – vamos nos sentar.
  • Sabe o que é vizinho, eu tô precisando trabalhar. Já não agüento mais a patroa me humilhando. Eu preciso arrumar o que fazer, e como tô sabendo que o seu motorista tá de saída, eu queria saber se o senhor me dava preferência, afinal, sou seu vizinho de frente, além de motorista profissional.
  • O senhor já trabalhou de motorista? Perguntou o rapaz.
  • Trabalhar, trabalhar, não trabalhei, mas eu sei dirigir caminhão, pode ver minha carteira de habilitação – respondeu Armando.
  • É , parece que sua carteira é profissional, mas só tem um detalhe, o motorista que está saindo é autônomo, e eu estou procurando um outro autônomo .
  • Isso é o de menos – retrucou Armando, já com cara de senhor do trânsito - Autonomia eu também tenho.

E como num casamento, ouviu-se uma voz do Além, “...se alguém tiver uma coisa contra , que fale agora ou se cale para sempre”... . Estava arranjado o serviço do Armando.



IV - Tem galo no terreiro

        Naquele dia, a auto-estima de Armando estava nas nuvens. A patroa foi a primeira a sentir o peso das mudanças.

  • Mulher, quem põe dinheiro nessa casa sou eu, portanto trate de me respeitar, fazer seu papel de mulher e me dê o que é meu de direito que você sabe muito bem o que é e onde fica.

Mercedes relutou de início, mas acabou cedendo, e dando o que o fétido Armando a muito não tinha. Sorte dela, que o pobre sofria de ejaculação precoce e logo liberava seu corpo daquele peso desagradável.

E Armando foi-se desenvolvendo no trabalho, novos horizontes foram-se abrindo e um mundo novo de relações foi surgindo. Aquele quintal, aquelas folhas secas e aquela fogueira, eram agora, coisa do passado. Mas modéstia não fazia parte do vocabulário de Armando.

  • Eu sou mais eu, o vizinho sem mim não é ninguém – Dizia ele sem lembrar do começo de “formiga” de seu protetor.


V - Tempos de crise
        
        Tempo passa e as coisas não iam bem para o vizinho. Suas contas sempre atrasadas, além do aumento das tarifas públicas, fez com que repensasse seu negócio, uma vez que suas vendas não acompanhavam o aumento das despesas. Resolveu então, recomeçar e voltar para sua velha “vida de formiga”. Sobrou para o Armando, que acabou sobrando.

...Inconformado, Armando resolveu requerer seus direitos trabalhistas, esquecendo-se daquele que fora seu amigo e que havia lhe dado a única oportunidade na vida.

  • Isso não vai ficar assim, nem quero saber se eles estão apertados, o que for meu, será meu.

Nessa hora, o casal Armando e Mercedes estavam afinados como nunca. Afinal, tinham um objetivo comum e o vizinho era seu alvo predileto.

  • Você tem que deixar de ser molenga e buscar seus direitos – Vociferava a implacável Mercedes.
  • Vou buscar mesmo, não quero nem saber – Respondia o confiante Armando.


VI - O Litigante
        
        Já estavam todos a postos no Tribunal e o Juiz finalmente sentencia. O Armando tinha sim seus direitos e o vizinho suas obrigações. Não tem essa de informalidade pelo fato de serem vizinhos, e o Armando tem muitos direitos a serem cumpridos.

O Vizinho ficou numa situação difícil para cumprir o que o Sr. Meritíssimo ordenara. Procurou o Armando e lhe propôs pagar com o caminhãozinho. Aquele mesmo que um dia tinha sido “zero quilômetro”. Armando aceitou de pronto.

Em casa, Armando se gabava da boa nova.

  • Sabia que esse caminhãozinho seria meu um dia. Eu fiz por merecer, trabalhei pra isso – falava o “empresário” Armando
  • Agradeça a mim que sempre rezei por isso – respondia a “religiosa” Mercedes

Os dois ficavam o dia todo apreciando o caminhãozinho, até que Mercedes reclamou dos dizeres do pára-choque traseiro “Quanto mais trabalho, mais sorte tenho”.

  • Vê se isso é frase de um temente a Deus – bradou Mercedes. Eu mesma vou bolar uma pra você pintar. Deixa só eu pensar um pouco – concluiu a “pedagoga” .
  • Tá bom mulher, até porque, essa frase não tem nada a ver com a gente. Concordou o “empreendedor”.


VII - Os Compositores do Senhor

        Armando tinha acabado de tocar fogo nas folhas e se debruçado no muro, no meio da fumaça. O vizinho acabara de sair com as bolsas de lona, como nos velhos tempos – Não falei que eles não iam pra frente?   – pensou o Armando vitorioso.
Nesse momento, Mercedes vem correndo e gritando de dentro de casa. Armando leva um susto e quase cai da pilha de tijolos, onde subia para se debruçar no muro.

  • Consegui, consegui, consegui! Sabia que Deus ia me ajudar e ele não me faltou, Amém Senhor, Amém.

Mercedes veio exibindo sua composição "genial", que daquele dia em diante, faria parte da traseira do caminhãozinho , “DEUS É FIEL”.

- Isso é que é frase mulher, o resto é conversa fiada – festejou o orgulhoso Armando.



VIII - Toca o bonde, que não tenho tempo a perder

        Armando, relapso como sempre, estaciona o caminhãozinho de qualquer maneira, ao chegar na loja de rações, atravessando-o na calçada. Faz sua compra, entra no carro e prepara-se para sair. Observa então, que o retorno da estrada está um pouco antes da loja. Observa ainda, que o próximo retorno está a uns duzentos metros à frente. Dentro de sua conduta moral, de vantagem a custo zero, Armando não pensa duas vezes em fazer uma “bandalha”.

  • Mas eu não vou andar até o próximo retorno mesmo. Vou dar uma rezinha e pegar aquele dali.

E assim o fez, saiu da calçada em ré, à toda velocidade... Só deu tempo de ouvir um estrondo.



        IX - De volta ao Aristides Gomes de Oliveira


"...Eu estava feliz pois, apesar das dificuldades que tínhamos passado nos últimos tempos, finalmente havíamos recebido uma notícia boa. As pesquisas atuais indicavam que meu filho voltaria a enxergar em breve, fato que o ajudaria a aprender a andar. Depois de tantos gastos, finalmente chegara à hora de conseguirmos resultados práticos...
...Eis que de repente, surge na minha frente um caminhão vindo em ré, à toda velocidade, na minha direção. Não tive tempo de desviar, senti o impacto no meu carro e em seguida observei, entrando pelo pára-brisas, a parte traseira da carroçaria.
Aríetes de madeira e ferro, vieram em minha direção, numa velocidade impressionante. Lembro-me da última imagem que enxerguei , “DEUS É FIEL”.
Nesse lapso de tempo senti um impacto oco em minha testa, uma sensação de pressão e em seguida uma leveza como nunca havia sentido antes. Daí por diante, comecei a ter as lembranças do homem que acabei de descrever, Armando. De alguma forma conectei-me com ele.

Talvez o fato de ele ter aquele caminhãozinho como a sua maior realização na vida, fez com que seu cérebro emitisse ondas de terror e pânico no momento da batida, e de alguma forma, e pelo mesmo motivo, eu as tenha captado.
Estranho isso me ter acontecido, pois como ateu que sou, sempre achei que no momento da morte a mente apaga como uma lâmpada, mas não foi bem assim. Estranho ainda foi o fato das lembranças terem sido as do meu algoz e não as minhas. Talvez Deus, se existe, tenha encontrado uma maneira de pedir-me desculpas. Afinal, ser morto assim, numa atitude irresponsável, por um de seus fieis, um cidadão tão egoísta, e de maneira tão insólita...
...Minha família passará por dificuldades muito grandes daqui por diante, e por um bom tempo. Quanto a esse sujeito?  Continuará assim, do jeito que sempre foi, achando que basta rezar para ter seus pedidos atendidos e seus desmandos perdoados. Quanto a mim ?   Lutei muito, sempre tentei fazer o bem aos outros, sempre respeitei as pessoas e a natureza, mas infelizmente minha hora chegou...

...“Deus é Fiel”, ...essa foi boa... .

...As lembranças mudam de norte e agora estou com o Amor da minha vida, o primeiro dia que a vi, o primeiro beijo, ...o primeiro sexo, meu filho no colo, ....minha família reunida... .

...A leveza passa a ser insuportável, e parece que o corpo está para vaporizar-se.. .
...Meu peito está para explodir e ... de repente sinto todos os meus sentidos esvaírem-se pelas pontas dos dedos, dos pés e das mãos... .
...Estou deixando de ser eu... .

Ainda assim, continuo Ateu,... mas,...

...Deus...   ...desculpas aceitas.

... Aristides Gomes de Oliveira,... encerrando minha vida... . . . . * "

... E os anos passam fora de casa. Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça.

Por Marcos Santos.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Um até breve (quase) uma despedida

Esse é um texto totalmente desprendido de qualquer explicação do que (possivelmente) poderá ser lido e/ou entendido.

Versar sobre a blogosfera é assunto pra mais de metro, mas convém falar dentro do que vivi em 10 anos de net. Englobando naturalmente, tudo que a mim foi conferido em termos de embasamento para tanto.
Como eu disse uma vez em algum site literário, que palavrórios existem e para bom entendedor basta!

Mesmo porque não adianta ficar falando e enchendo lingüiça com tanto disque-disque. Estarei fora da blogosfera:

O tempo? Indeterminado.
O motivo? Não esclarecido.
Achei por bem deixar algo escrito e o Quiosque é um ótimo espaço para tanto.
Descansar a mente é preciso. Viver realmente é mais que necessário. Passear no virtual é meramente casual.

Amizades virtuais são facas de dois gumes.

O desenrolar desta e de outras situações fica por conta de cada cabeça, que afinal tem(sempre) uma sentença.

Lu C.