No Balcão do Quiosque

domingo, 10 de abril de 2011

Alô Alô Realengo

Hoje recebi um email de meu amigo de infância Renato. Ele lamentou a entrada de nosso bairro no mapa das tragédias mundiais. Foi lá que um "maluco sem causa" trucidou crianças inocentes a queima-roupa. Realengo.

De repente lá estava Fátima Bernardes, Ana Paula Padrão, Luiz Bacci...Toda mídia impressa , eletrônica, radiofônica...

Um dos bairros mais antigos da cidade (1814/1815), Realengo sempre existiu como uma espécie de zona invisível. Um bairro que não existe. Um limbo espacial onde o poder público, imprensa e as populações de outros bairros mais nobres faziam questão de imaginar sua inexistência. Conheço pessoas que omitem sua origem no bairro. São pessoas sem passado e de história incompleta.

Mas foi exatamente de lá, desse local muito real para nós, desse "borrão no mapa" para os outros, que uma tragédia de proporções mundiais arrebatou e ceifou a vida de crianças inocentes. E também foi a partir de lá que sua gente simples foi exposta ao mundo.

O lugar onde nasci e passei minha infância, jaz moribundo, ferido de morte. Surge para a vida aos olhos dos outros em seu momento mais trágico, em seu momento de dor e sofrimento.

Se a partir de agora as autoridades darão mais atenção àquela região eu não sei. Só sei que se o preço a ser pago por essa atenção é esse...por favor devolva-nos ao limbo. Devolva-nos nossas crianças.


Marcos Santos
Rio de Janeiro


Em tempo:  A frase "Alô Alô Realengo" da música "Aquele Abraço" de Gilberto Gil, não é uma saudação ao povo de Realengo. Na verdade é uma frase de provocação aos militares dos quartéis situados nos bairros próximos.

7 comentários:

R. R. Barcellos disse...

- Nem Realengo nem Flamengo têm a ver com os bairros... Mas os modernos Chacrinhas continuam balançando a pança e voando em círculos, como urubus, em busca da carniça de notícias trágicas - seja em bairros nobres ou esquecidos. Um abraço.

Graça disse...

Abração, Marcos. Solidário.

Graça Lacerda

Dayse Sene disse...

Acredito que logo passe a repercussão do acontecimento, as autoridades, a mídia, e tudo mais, deixarão cair no esquecimento, até que novo fato aconteça. Autoridade não tem interesse algum em prevenir e proteger vidas, querem é cuidar de si sós..
aqui nesse chão, estamos muito mais, para "cada um par si..." e para si mesmo.
Seremos eternos vigilantes de nós mesmos...sem contar com proteção do Estado.
Uma lástima.
Uma boa noite, se é que dá para dormir, e um esperançoso amanhecer.

L.C. disse...

Infelizmente o Brasil é um país sem memórias!

abraços, meu amigo e o luto é nacional, pode acreditar.

Lu C.

Milene Lima disse...

Adoro o nome Realengo, aliás os bairros do Rio de Janeiro tem nomes muito charmosos...

Ficamos todos perplexos, incrédulos e com uma tristeza profunda diante de um ato tão horrendo. É claro que em nada se compara ao que estão sentindo as pessoas que viveram de perto todo esse horror.

Meu abraço solidário, Marcos.

Leonel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leonel disse...

Desde o início da República, quando se criou o mito "cidade maravilhosa" para o turismo, foi feita uma limpa, embelezamento e glamourização da zona sul, o cartão postal que se via ao chegar pelo mar, enquanto se desdenhava e abandonava os subúrbios em segundo plano.
Infelizmente, essa cultura de bairros e subúrbios existe até hoje!
Em Copacabana, internet sem fio gratuita! No subúrbio, a operadora de telefonia diz "não ser possível instalar banda larga no seu endereço", mesmo que o vizinho da frente a possua!
Será que isso um dia vai mudar?
Abraços, Marcos!