No Balcão do Quiosque

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Relatividade

     O tempo escorre lentamente do relógio, em tiquetaques preguiçosos e vadios. É o velho demônio irritante, tirando do saco de minha vida, já meio murcho, uma moeda a cada tique e atirando-a no saco sem fundo da eternidade a cada taque. E ele faz isso sorrindo, sarcástico, para mim. Uma de menos... uma de menos... uma de menos... vai ele desfiando a ladainha dos segundos que se perdem sem resgate.
     Mas hoje, demônio velho, não cairei nesse truque psicológico barato. Não ligarei a TV, não lerei livros ou jornais, não telefonarei para ninguém. Porque sei que ela, a minha amada, está vindo.
     Desfia a tua ladainha, velho demônio, desfia-a mais rápido, que os segundos da espera não se contam como aqueles da tristeza. E quando minha amada estiver em meus braços, será minha vez de contar: uma a mais, uma a mais, uma a mais...
     Pois dela os beijos são vida, e os carinhos são eternidade, e seu amor não cabe neste ridículo universo onde espaço e tempo têm seus limites. Ela me levará nas asas da paixão e me guiará para onde não se contam moedas, onde não há sacos de diferentes tamanhos, onde os demônios contadores se encolhem envergonhados e perecem à míngua de relógios, onde tempo não é dinheiro e dinheiro não é mais que fumaça. E lá escarneceremos de ti, até o fim dos tempos.

8 comentários:

Lu Cavichioli disse...

UAU... haja fôlego RR!

Imagine que ao início da leitura nem imaginei que fosse teu esse texto. Depois, mais ao final quando leio sobre tua "amada imortal" já naum tive mais dúvidas.

Realmente, um amor assim não caberá jamais dentro de algo tão fugaz e cruel quanto os tic tacs insanos da real(atividade)dos séculos!

bacio, caríssimo!

Milene Lima disse...

Ainda me surpreendo contigo, nem sei porque sou tão tola.

Que lindo retrato de amor mais forte que o tempo. Que lindo retrato de amor eterno, Senhor Barcellos. Mas não pede que ela venha com tanta urgência, não pede.


Beijo-te!

João Esteves disse...

Que página inspirada, RR!
Muito boa foi a leitura durante algumas das minhas moedas a menos. Valeu cada tac.

Denise disse...

Essa presença que sentes, Rodolfo, é o perfume da intuição sinalizando, já escarnecendo do melódico tiquetaquear irritante, pois anseia pela sua chegada...

Eu achei lindo, quase me levanto e me junto a ti nessa indignação!
Beijo meu!

Ma Ferreira disse...

Eu sabia que era teu o texto só pela tua letra..rs

Amei esta tua cronica. Será cronica?

Mas não importa.

Saiu do teu coração.... Quem dera que os segundos que passamos com a pessoa amada tivesse um contar de tempo diferente.

Mas o que fica..fica pra sempre... não tem tic tac que apague!

Beijo..bom findis!!

Marcos Santos disse...

Eh eh eh...
Nada como darmos uma pernada nesse demônio.

MARILENE disse...

Meu querido
Que emocionante texto! Tamanho amor não tem limites em tempo, em espaço.
Não é medido ou contado e um tic tac não lhe faz a menor diferença, diante de sua eternidade reconhecida.

Não conhecia esse espaço e fiquei "de boca aberta" com suas palavras.

Bjs.

AyméeLucaSs disse...

Oi, Barcelos,

Este lugar descrito parece o Paraíso... uma coisa impossível de se ver, mas que muitos até desejariam realmente parar de ver o tempo passar por aqui, para matar a curiosidade e ver como seria lá.

Se pudéssemos ver daqui para podermos escolher, seria diferente, pois, tem vez que este segredo de Deus deixa tanta gente curiosa!
O amor vivido sem tempo deve mesmo ser fantástico.

Um grande abraço e obrigado por me fazer ver estas escritas, por me visitar sempre, por tudo!