No Balcão do Quiosque

sexta-feira, 26 de março de 2010

Deus é Fiel - Um Conto Ateu

Caros Amigos do Quiosque
Peço licença para postar um conto. Inicialmente pensei em postá-lo em partes, mas devido ao seu pequeno tamanho resolvi colocá-lo por inteiro.

Um Abraço
Marcos Santos


Deus é fiel


        "Armando Beiço é o tipo do sujeito preguiçoso. Se há uma coisa que ele gosta de fazer, é varrer as folhas da amendoeira de seu quintal, junta-las e atear fogo.
Feito isto, o dia está terminado,  a partir daí é só tomar conta da vida alheia.
Sua patroa, Dona Mercedes, faz o tipo "católica util". Daquelas que atende prontamente o que o Pároco pede, desde vestir um defunto paroquiano, até organizar círculos bíblicos pela vizinhança. Tudo isso, obviamente, contanto que não tenha que olhar para a cara de seu enfadonho marido, o Armando.

Mas não é só dele que quero falar, afinal de contas, só tive um contato em vida com esse sujeito e mesmo assim, ele apenas cruzou meu caminho. Meu nome é Aristides Gomes de Oliveira, ou pelo menos era..."




II - Toda história tem seu começo


        Tudo começou em 1991, com a mudança de novos vizinhos para a casa em frente a casa do Armando. Os novatos, com cara de assustados, foram se ajeitando por ali .
O marido fazia o tipo trabalhador incansável, dono da verdade e das virtudes. Já a esposa fazia o tipo organizada e séria, dedicada e limpa.

Um belo dia Armando começou a notar um movimento diferente na casa da frente. O marido saía junto com a esposa, ambos com agendas debaixo do braço. No dia seguinte o marido saia com umas bolsas de lona amarelas, vazias.

  • O que será que esse sujeito faz ?  Sai cedo com aquelas sacolas, e depois volta com elas vazias ? muito esquisito... .

Armando tocava fogo nas folhas secas, em seguida subia na pilha de tijolos e se debruçava no muro, ali ficando escondido no meio da fumaça. Sempre tomando conta da vida dos vizinhos.

  • A esposa passa o dia trabalhando, daqui dá pra ver que a casa é bem limpa, pensava consigo o bem-casado Armando.

...O tempo corre fora da casa de Armando, ele fica como se estivesse a bordo de uma máquina do tempo. Do outro lado da rua, os vizinhos se movimentam como formigas. Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça.

  • Agora descobri. Esses vizinhos vendem produtos por atacado. Só não entendo as bolsas saírem e voltarem vazias. Arranjaram um cachorro , que já cresceu, é um pastor alemão. Bobagem, uns vira-latas como os meus dão conta do recado. Parece que estão pensando em prosperar, tô duvidando... .

De vez em quando Dona Mercedes dá um “carinho” para o pobre do Armando.

  • Ô homem nojento, você é um imprestável mesmo, já não falei que quero as cortinas todas fechadas na hora que o Sol bate ?  Você não sabe que a luz atrapalha meu sono ?

        Armando pensa consigo...
  • Ainda vou me livrar dessa mulher. Sexo comigo ela não quer, diz que dou nojo. Comida pra mim ela não faz, diz que não é minha empregada.

...Mas os anos passam fora de casa e o Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça. ...Os vizinhos da frente compraram um carro velho.

  • Essa é boa, com esse carro velho duvido que eles andem pra frente.

...E os vizinhos continuavam sua vida de formiga, trabalhando, trabalhando, trabalhando. Mas os anos passam fora de casa e o Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça. Até que os vizinhos compram um caminhãozinho zero quilômetro.

  • Só podem estar roubando, ninguém progride assim do dia pra noite.
        ... Dona Mercedes nota o progresso dos vizinhos e se incomoda.
  • Gente metida a besta. Não freqüentam a igreja, não tem religião decente, devem ter conseguido essa melhora na macumba.

...Os vizinhos, alheios à vida alheia, continuam sua rotina de formiga, apesar do progresso financeiro, mantém sua vida simples, organizada e de trabalho.

Os anos passam fora da casa do Armando, ele toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça.
Dona Mercedes irritada com o progresso dos vizinhos desconta no marido, enquanto passa o henê no cabelo.

  • Ô seu traste preguiçoso!  Larga dessa vassoura e vai procurar serviço. Homem mole!  Olha o exemplo que está dando aos meninos. Gritava ela entre uma pincelada e outra do visgo negro.


III - A Iniciativa

        Um belo dia Armando, cansado de tanto esculacho, resolve sair e procurar serviço. Sua carteira de trabalho não ajudava, pois nada ele sabia fazer. Praticamente, ao longo de seus quarenta anos, só tinha trabalhado como empregado uns seis meses. Na juventude havia trabalhado na lavoura de seu pai, mas numa cidade grande, isso de nada adiantava.
Depois de muito procurar soube que o vizinho, aquele do caminhãozinho, estava precisando de um motorista. Encheu-se de coragem e pediu uma oportunidade ao rapaz.

  • Ô vizinho, será que eu poderia conversar com o senhor ??
  • Claro – respondeu o vizinho – vamos nos sentar.
  • Sabe o que é vizinho, eu tô precisando trabalhar. Já não agüento mais a patroa me humilhando. Eu preciso arrumar o que fazer, e como tô sabendo que o seu motorista tá de saída, eu queria saber se o senhor me dava preferência, afinal, sou seu vizinho de frente, além de motorista profissional.
  • O senhor já trabalhou de motorista? Perguntou o rapaz.
  • Trabalhar, trabalhar, não trabalhei, mas eu sei dirigir caminhão, pode ver minha carteira de habilitação – respondeu Armando.
  • É , parece que sua carteira é profissional, mas só tem um detalhe, o motorista que está saindo é autônomo, e eu estou procurando um outro autônomo .
  • Isso é o de menos – retrucou Armando, já com cara de senhor do trânsito - Autonomia eu também tenho.

E como num casamento, ouviu-se uma voz do Além, “...se alguém tiver uma coisa contra , que fale agora ou se cale para sempre”... . Estava arranjado o serviço do Armando.



IV - Tem galo no terreiro

        Naquele dia, a auto-estima de Armando estava nas nuvens. A patroa foi a primeira a sentir o peso das mudanças.

  • Mulher, quem põe dinheiro nessa casa sou eu, portanto trate de me respeitar, fazer seu papel de mulher e me dê o que é meu de direito que você sabe muito bem o que é e onde fica.

Mercedes relutou de início, mas acabou cedendo, e dando o que o fétido Armando a muito não tinha. Sorte dela, que o pobre sofria de ejaculação precoce e logo liberava seu corpo daquele peso desagradável.

E Armando foi-se desenvolvendo no trabalho, novos horizontes foram-se abrindo e um mundo novo de relações foi surgindo. Aquele quintal, aquelas folhas secas e aquela fogueira, eram agora, coisa do passado. Mas modéstia não fazia parte do vocabulário de Armando.

  • Eu sou mais eu, o vizinho sem mim não é ninguém – Dizia ele sem lembrar do começo de “formiga” de seu protetor.


V - Tempos de crise
        
        Tempo passa e as coisas não iam bem para o vizinho. Suas contas sempre atrasadas, além do aumento das tarifas públicas, fez com que repensasse seu negócio, uma vez que suas vendas não acompanhavam o aumento das despesas. Resolveu então, recomeçar e voltar para sua velha “vida de formiga”. Sobrou para o Armando, que acabou sobrando.

...Inconformado, Armando resolveu requerer seus direitos trabalhistas, esquecendo-se daquele que fora seu amigo e que havia lhe dado a única oportunidade na vida.

  • Isso não vai ficar assim, nem quero saber se eles estão apertados, o que for meu, será meu.

Nessa hora, o casal Armando e Mercedes estavam afinados como nunca. Afinal, tinham um objetivo comum e o vizinho era seu alvo predileto.

  • Você tem que deixar de ser molenga e buscar seus direitos – Vociferava a implacável Mercedes.
  • Vou buscar mesmo, não quero nem saber – Respondia o confiante Armando.


VI - O Litigante
        
        Já estavam todos a postos no Tribunal e o Juiz finalmente sentencia. O Armando tinha sim seus direitos e o vizinho suas obrigações. Não tem essa de informalidade pelo fato de serem vizinhos, e o Armando tem muitos direitos a serem cumpridos.

O Vizinho ficou numa situação difícil para cumprir o que o Sr. Meritíssimo ordenara. Procurou o Armando e lhe propôs pagar com o caminhãozinho. Aquele mesmo que um dia tinha sido “zero quilômetro”. Armando aceitou de pronto.

Em casa, Armando se gabava da boa nova.

  • Sabia que esse caminhãozinho seria meu um dia. Eu fiz por merecer, trabalhei pra isso – falava o “empresário” Armando
  • Agradeça a mim que sempre rezei por isso – respondia a “religiosa” Mercedes

Os dois ficavam o dia todo apreciando o caminhãozinho, até que Mercedes reclamou dos dizeres do pára-choque traseiro “Quanto mais trabalho, mais sorte tenho”.

  • Vê se isso é frase de um temente a Deus – bradou Mercedes. Eu mesma vou bolar uma pra você pintar. Deixa só eu pensar um pouco – concluiu a “pedagoga” .
  • Tá bom mulher, até porque, essa frase não tem nada a ver com a gente. Concordou o “empreendedor”.


VII - Os Compositores do Senhor

        Armando tinha acabado de tocar fogo nas folhas e se debruçado no muro, no meio da fumaça. O vizinho acabara de sair com as bolsas de lona, como nos velhos tempos – Não falei que eles não iam pra frente?   – pensou o Armando vitorioso.
Nesse momento, Mercedes vem correndo e gritando de dentro de casa. Armando leva um susto e quase cai da pilha de tijolos, onde subia para se debruçar no muro.

  • Consegui, consegui, consegui! Sabia que Deus ia me ajudar e ele não me faltou, Amém Senhor, Amém.

Mercedes veio exibindo sua composição "genial", que daquele dia em diante, faria parte da traseira do caminhãozinho , “DEUS É FIEL”.

- Isso é que é frase mulher, o resto é conversa fiada – festejou o orgulhoso Armando.



VIII - Toca o bonde, que não tenho tempo a perder

        Armando, relapso como sempre, estaciona o caminhãozinho de qualquer maneira, ao chegar na loja de rações, atravessando-o na calçada. Faz sua compra, entra no carro e prepara-se para sair. Observa então, que o retorno da estrada está um pouco antes da loja. Observa ainda, que o próximo retorno está a uns duzentos metros à frente. Dentro de sua conduta moral, de vantagem a custo zero, Armando não pensa duas vezes em fazer uma “bandalha”.

  • Mas eu não vou andar até o próximo retorno mesmo. Vou dar uma rezinha e pegar aquele dali.

E assim o fez, saiu da calçada em ré, à toda velocidade... Só deu tempo de ouvir um estrondo.



        IX - De volta ao Aristides Gomes de Oliveira


"...Eu estava feliz pois, apesar das dificuldades que tínhamos passado nos últimos tempos, finalmente havíamos recebido uma notícia boa. As pesquisas atuais indicavam que meu filho voltaria a enxergar em breve, fato que o ajudaria a aprender a andar. Depois de tantos gastos, finalmente chegara à hora de conseguirmos resultados práticos...
...Eis que de repente, surge na minha frente um caminhão vindo em ré, à toda velocidade, na minha direção. Não tive tempo de desviar, senti o impacto no meu carro e em seguida observei, entrando pelo pára-brisas, a parte traseira da carroçaria.
Aríetes de madeira e ferro, vieram em minha direção, numa velocidade impressionante. Lembro-me da última imagem que enxerguei , “DEUS É FIEL”.
Nesse lapso de tempo senti um impacto oco em minha testa, uma sensação de pressão e em seguida uma leveza como nunca havia sentido antes. Daí por diante, comecei a ter as lembranças do homem que acabei de descrever, Armando. De alguma forma conectei-me com ele.

Talvez o fato de ele ter aquele caminhãozinho como a sua maior realização na vida, fez com que seu cérebro emitisse ondas de terror e pânico no momento da batida, e de alguma forma, e pelo mesmo motivo, eu as tenha captado.
Estranho isso me ter acontecido, pois como ateu que sou, sempre achei que no momento da morte a mente apaga como uma lâmpada, mas não foi bem assim. Estranho ainda foi o fato das lembranças terem sido as do meu algoz e não as minhas. Talvez Deus, se existe, tenha encontrado uma maneira de pedir-me desculpas. Afinal, ser morto assim, numa atitude irresponsável, por um de seus fieis, um cidadão tão egoísta, e de maneira tão insólita...
...Minha família passará por dificuldades muito grandes daqui por diante, e por um bom tempo. Quanto a esse sujeito?  Continuará assim, do jeito que sempre foi, achando que basta rezar para ter seus pedidos atendidos e seus desmandos perdoados. Quanto a mim ?   Lutei muito, sempre tentei fazer o bem aos outros, sempre respeitei as pessoas e a natureza, mas infelizmente minha hora chegou...

...“Deus é Fiel”, ...essa foi boa... .

...As lembranças mudam de norte e agora estou com o Amor da minha vida, o primeiro dia que a vi, o primeiro beijo, ...o primeiro sexo, meu filho no colo, ....minha família reunida... .

...A leveza passa a ser insuportável, e parece que o corpo está para vaporizar-se.. .
...Meu peito está para explodir e ... de repente sinto todos os meus sentidos esvaírem-se pelas pontas dos dedos, dos pés e das mãos... .
...Estou deixando de ser eu... .

Ainda assim, continuo Ateu,... mas,...

...Deus...   ...desculpas aceitas.

... Aristides Gomes de Oliveira,... encerrando minha vida... . . . . * "

... E os anos passam fora de casa. Armando toca fogo nas folhas secas e se debruça no muro, no meio da fumaça.

Por Marcos Santos.

2 comentários:

Chica disse...

Maravilhoso conto e mesmo grandinho deu vontade de não perder nada.Prendes os leitores.Legal! abração,lindo fim de semana,chica

Graça disse...

Marcos,

Eu amo contos escritos em "capítulos"...

Esse seu está o máximo em conhecimentos de causa, de vizinhanças, assuntos jurídicos...rs

Vc traçou um perfil psicológico ideal para o casal "pedagoga" e "empreendedor"! Beata útil e imprestável! Que ódio desse serzinho...rs
Miserável, invejoso, mesquinho! Sinto repulsa pelo Beiço...rsrs
Coitados!

Essa sua repetição (e os anos passam...) que mostra a "vidinha-sem graça-e-totalmente-monótona" do Armando Beiço é um recurso estilístico brilhante. Parabéns!

Muito bom, amei, e olha: na minha opinião,o religioso mesmo aqui é o Aristides...