No Balcão do Quiosque

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cena Urbana - O Mendigo Molhado

Nem mesmo a sujeira de sua indumentária permanecia solidária, visto que a força das chuvas arrancavam-na,
transformando-a em lama fétida.

A enxurrada que caía sobre seu corpo, era o contado mais íntimo que a muito não tinha,
visto que até aos ossos penetrava.

A torrente fria que lhe cobria
era seu único aconchego.

Conforto sem conforto,
sem leira nem beira,
... sem ninguém...

Apenas um pedaço pensante de carne, ainda viva.
Depósito de anticorpos e defesas bacteriológicas.

Um laboratório vivo promíscuo.
Produtor de odor, suor, fezes e urina.

Um vivo morto.
Um morto vivo.
Um Ser Humano Urbano.
Um Ser do trânsito.

Como um poste,
um bueiro,
uma placa,
uma sarjeta.


Marcos Santos

Um comentário:

LC disse...

Muito pertinente , Marcos, esta cena retumbante em tempos de eleição.

Oxalá não houvesse mais os andrajos, nem a fome, nem a impunidade e todo o resto.

Excelente blogada meu amigo!

Bjs

Lu C.