No Balcão do Quiosque

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Vernissage

Estava ali sentindo-me quase sufocado. Meu olhar borrado envidraçado não conhecia fixação de foco. Valia-me do surreal para conectar-me à realidade permeável pelo improvável. O que mais me atormentava eram as ondas de consciência de boa resolução, que como maré, escamoteavam no seu vai e vem as claras respostas para tudo em meio ao lixo despejado pelo turismo mental. “Como pude chegar a esse ponto?” — repensava continuamente... na mente contínua... e continua contínua mente... Meu equilíbrio advinha sabe de onde? De bocejos que estremeciam minhas estranhas entranhas devolvendo-me re-articulação perceptiva. Uma dádiva, poderiam dizer alguns introspectivos ignorantes com suas análises de fôlego curto. Que sabem eles da luminosidade turva? Da conservante oleosidade sutil? Pra lá de enfadada estava minha aquosa inteligência, tão plena, tão segura de traçar linhas tão eqüidistantes sem sair do lugar... lugar comum... comum... comunguei... excomunguei... Mais um bocejo e arremesso-me do desespero ao re-equilíbrio. Mais uma vez. Quanto tempo irei suportar esse tampão existencial? Que absurdo! ... não há voz interna! Quando isso observo torno-me servo... do quê? Pra quê? Não... outro bocejo não!

Quero dormir. Ordeno-me: Durma! Meus olhos não se fecham. Olha só... não tenho olhos! Só agora pude ver isso de tão perto que estou de algum desfecho. Fecho as mãos e liquidificam-se. Mexo-me e borbulho-me. Não há solução. Já sou solução. Uma combinação de elementos mentais que somente tornar-se-ão “coisas”, figuras, objetos, paisagens, oceanos, montanhas, céus, homens, crianças, lagartixas... lagartixas... bocejos... ensejos... que seja.

Espere... espere... algo retira-me. Gira-me... girou-me! Destampei-me! Respinguei-me de alegria! Afinal, a vida trouxe à existência o papel como suporte para minha manifestação. É festa! Vim ao mundo! Fiz-me luz e sombras, proporção e perspectiva.
Meu sangue nankin agora toma corpo à vontade sob a pena de Marta, umedecida.
Minha fome procura um ponto de fuga. Encontrei-me no início de um esboço de alguma obra! Minha existência não é vã. Meu traçado aponta infinitos inflamados pelo furor do escape ao limite imposto pela moldura tão bela quanto inocente. Fazem me crer que sou apenas um quadro na sala. Nada mais do que isso.

2 comentários:

Chica disse...

Interessantíssimo!"Apenas um quadro na sala..."

Porém um quadro daqueles que ao primeiro, não digo, mas ao segundo olhar, já podemos ver toda a expressão nele contida. Lindo e profundo.Leandro! abração,chica

Graça disse...

Que diferente...
Você se colocando 'dentro' do quadro!

Escreves muito bem...
Amei!