No Balcão do Quiosque

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O gosto de ser mineiro

(Capa do Livro)


Crônica considerada hors concours quando da realização do 5º Concurso da Superintendência Regional de Ensino de Pouso Alegre, MG, para a Semana Literária, nos idos de nem me lembro...


Chegamos. 
Estou entre a porteira e o sonho. Cheiro de leite morninho tirado na hora. O orvalho brilha no capinzal e chove torrencialmente no campo. Há neblina no milharal.
Diviso o velho riacho e escuto ainda o eco da criançada gritando, tomando banho. Fecho meus olhos e revejo num flash cenas alegres da infância. Aprendi desde cedo o gosto de ser mineiro.
Ser mineiro é o cheiro delicioso do canteiro de hortênsias, das flores silvestres e da terra molhada após a chuva. É a nostalgia da velha cozinheira cantando e cozinhando no fogão a lenha, enxugando no avental o suor de seu rosto:algo convida pra logo, tem fumaça na chaminé...
Ser mineiro é ter fundo na alma o gosto da terra. É enxergar verdinho, tentando enganar um pouco a saudade, a lembrança dos filhos longe, no estrangeiro...
Ser mineiro é curar umbigos de criança e jogar todos eles na roseira, que é pra dar sorte.
É sentar na varanda todos os dias à mesma hora, no vagaroso tecer dos anos, só pra ouvir o canto majestoso do sabiá.
Ser mineiro é a fala simples do camponês: hoje vai ter "cripe" da lua, as crianças estudadas da cidade segurando o riso, misto de interrogação e respeito!
É ser como São Tomé – não sair acreditando nas "conquistas da ciência", mas preferir ele mesmo testar. 
É ter flores de todas as cores e gostar delas.
O gosto de ser mineiro está nas grandes vaquejadas, nas pescarias à beira do rio, covos armados no verão.
Ser mineiro é afirmar de pés juntos que o Everest não é assim o pico mais alto do mundo, tamanho não é documento...
É acordar nas madrugadas com o mais gostoso despertador, cocoricando nas manhãs fresquinhas de amendoim torrado, socado de noite no pilão. É paçoca com gengibre na panela.
Ser mineiro é o chá de hortelã "pra curar as bichas", e o bicho-de-pé coçando, doendo...
É envelhecer sorrindo, sorriso de poucos dentes, enfrentando assombrações com a bravura de quem sabe a que veio!
Ser mineiro é abençoar a lua clara iluminando a estrada, e o sol escaldante dos dias de verão.
Ser mineiro são as festas do Santo Padroeiro, a Folia de Reis. Acender vela pro santo e depois brigar feio com ele.
É a fé mais inabalável, a crença mais singela, nas rezas de família, misturadas, confundidas com superstições...
É sentir na alma inteira que é sempre tempo de festa e é hora de celebrar.
Ser mineiro é aquela correria: - tarde, compadre; tarde, comadre! Lá evém chuva! E todos correndo para cobrir depressa os grãos de café no terreiro (mais preciosos que as pedras de anel das comadres chiques da cidade...).
É enxergar molhado a plantação arrastada pela enchente de janeiro! Ter fé que no ano que vem não vem aguaceiro igual.
Ser mineiro é vislumbrar por entre as montanhas um pedaço reduzido do paraíso. Deitar e esticar-se na rede, aproveitando a sombra e a fruta das mangueiras, carregadas de pardais.
Enxerguei cedo que ser mineiro é reviver tradições, remexer o passado, e, como dizia minha mãe, não saber "contar um conto sem aumentar um ponto"! É ter a dignidade de um fio de barba. É gostar de ser herói e morrer por uma causa. É jogar limpo. É ser honesto até debaixo d’água e não trair um amigo nem que a vaca tussa...
É a flor do feijão estalando ao sol e a sombra gostosa e amiga nos terreiros de café. É o gado enfileirado, sabendo a hora de voltar.
Ser mineiro é ser simples: é o doce em compota na despensa, provocando mistério. É o bule de café quentinho e a galinha esperando, desconfiando do destino...
Leitão, linguiça, mandioca:pode entrar, que a casa é nossa.
É arrear o cavalo e seguir em frente. É tirar o chapéu ao ouvir o santo nome de Deus, numa harmonia perfeita entre o criador e a sua criatura!
Viola que chora, saudade que punge no peito.
Ser mineiro também é ser modesto: comprar uma parabólica, não entender nada de Internet (ou entender e acessar o computador, mas nunca perder a sintonia com as suas raízes).
Ser mineiro é o bezerrinho ferido retirado do açude. A vaca mugindo, literalmente atolada no brejo. É conhecer que vai chover quando o calo dói e a saracura pia, longe.
Ser mineiro é registrar nosso folclore a cada ano, numa corrida desenfreada contra o tempo. É consertar o patrimônio histórico, pedindo desculpas "apológicas" aos nossos antepassados...
Ser mineiro é ter memória: guardar no museu e no coração toda nossa grandiosa história! 
Orgulho-me de você, meu irmão mineiro, trabalhador das minas, calção por vestido no corpo e lanterna pendurada na rocha. Você, lavrador das campinas, que carrega na alma a eterna sabedoria dos anos. De você, operário das máquinas, chorando o custo de vida.
Saúdo o peão ponteiro, o fiador e o meeiro.
Minas do artesanato e da grande industrialização. Do futebol e dos grandes craques. 
Minas dos grandes sertões e veredas, das corredeiras, das grutas, das lindas chapadas, da mais bela geografia!
Minas de Milton Nascimento e Adélia Prado. Elias José e Edson Arantes, Pelé. Olavo Romano e Drummond. Guimarães Rosa e Otto Lara Resende. Vanderlei Timóteo. Políticos; estadistas; grandes nomes da poesia e da prosa; ilustres; guerreiros; severos; sinceros.
Ser mineiro é, enfim, chuchar a lua com bambu, tirando o chapéu pro Olavo, o Romano, mas mineiro por vocação e berço.

É o glorioso cair da tarde. O sino da igrejinha repicando sinos, embalsamando a dor. É o silêncio da Ave-Maria. 
Do outro lado da porteira redescubro valores. Já não posso dar marcha-a-ré: é hora de pegar o trem da história e celebrar, ainda que tardio, o gosto de liberdade – o gosto de ser mineiro!
Nota: Minas Gerais, na verdade,  não possui um hino oficial. No entanto, várias composições dedicadas ao Estado se tornaram conhecidas ao longo do tempo. Uma delas é o Hino a Minas, com letra de João Lúcio Brandão, e música do padre João Lehmann. A composição era muito ouvida nas escolas, durante as décadas de 1920 e 1930, e fazia parte do hinário (livro de hinos) distribuído nos estabelecimentos de ensino.

Mas, a canção que ganhou maior popularidade, inclusive fora do Estado, foi ´Oh, Minas Gerais´. A letra é uma adaptação feita pelo compositor mineiro José Duduca de Morais, o De Moraes, gravada em 1942. Trata-se de uma tradicional valsa italiana, chamada Viene sul mare, introduzida por companhias líricas e teatrais daquele país que vinham ao Brasil no século XIX e início do século XX. Em 2000, a música foi gravada pelo cantor e compositor Milton Nascimento. Foi ainda gravada por Renato Teixeira e muitos outros cantores.

12 comentários:

Toninho disse...

É Minas, é tão Gerais.
Ah, como é bom carregar esta marca!
Um abraço mineiro carinhoso de flor.

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Bom dia meu amigo!
Já trabalhei muito em sala de aula com textos mineiros.Gosto do jeito mineiro.Seu blog lindo como sempre,
Grande abraço
se cuida

Mariangela disse...

Bom dia!
Fiquei emocionada com esse belo texto.
Sou mineira e carrego fervorosamente em meu coração o orgulho de ser mineira.
Em cada trecho deste texto vivenciei minhas raízes!
Obrigada e um grande abraço!
Mariangela

João Esteves disse...

Por ancestralidade sou mineiro também, filho de mineira.
Conheço por mim mesmo boa parte do estado, onde inclusive morei em idade adulta, nos anos 80. Tudo nesse agradável texto é facilmente confirmável.
Há quem assim pense, mas a verdade é que Minas não é só queijo, não. É ver pra crer. Bastaria considerar o peso da parcela mineira de contribuição para a arte e a cultura, pra não falar nos tantos outros setores da vida.
Afetuoso abraço à mineira nossa amiga que aqui compartilhou essa belezura de página que me toca me deixa tão mineiramente nostálgico.

R. R. Barcellos disse...

Pai de Juiz de Fora, mãe de Ponte Nova, este carioca criado em Barbacena tem nas veias o sangue das Gerais. Bote aí nos hinos o Peixe Vivo. E vamos negociar com os capixabas, naquela área contestada, uma fatia de território que vá até o mar... pois por enquanto o pedaço de Minas mais próximo da praia é minha casa, em Niterói.

Beijos.

☆Lu Cavichioli disse...

Gracinha, como foi bom re(ler) essas "mineirices"... Trem Bão sô!

E pra quem não sabe, essa belezura de texto foi o "culpado" de nosso encontro internético: Eu e Gracinha Lacerda. Saí por diante a gente consolidou a nossa "política" do café com leite! rsrs

Demorou pra você blogar esse gosto tão MINEIRO de ser!
bacios bella

Patty disse...

LINDOOOOOO, QUE DELÍCIA, SOU SUPER PAULISTANA, MAS AMO, AMO MINAS GERAIS, SEMPRE QUE VOU SOU SUPER MEGA BEM RECEBIDA, DESCANSO MTOOO, E APRECIO A BELEZA DA NATUREZA, COM POR DO SOL, AR PURO, TUDO TÃO LINDO, E MARAIVLHOSO, ADOREI LER TUDOOOOO, BJS GRANDE GRAÇA.

PATTY!

Maria das Graças Lacerda disse...

Amigos,

Os comentários de todos envaideceram (modestamente) esta que vos fala!
Senti que alguns não intuíram que o texto é de minha autoria, e não poderia ser mesmo de outra forma, uma vez que eu própria omiti esse pequeno detalhe. Mas que importa detalhes assim, se o objetivo último da escrita literária é o de envolver e agradar o leitor!
E todos, de uma forma ou de outra, apreciaram, e por isso mesmo fico contente com o objetivo alcançado.
Meu obrigada carinhoso a vocês, e a todos os mineiros, por "ancestralidade" ou não, meu sonoro:
- Gosto demais da conta docês, uai!!!!
********************
**Em tempo: verdade, esse texto foi o responsável pelo nascimento de uma bela e duradoura amizade, entre Lu e eu. Lindos tempos de 2009!!

Leonel disse...

Uma delícia de post, sobre as delícias mineiras!
Uma bela obra de divulgação da terra das alterosas!
Abraços, Graça!

Angela disse...

Tentando organizar uma viagem a Minas, acredita que não conheço?
Bjs

Marcos Santos disse...

Sou suspeito para dizer o quanto gostei desse texto, pois como carioca, devo tudo o que tenho às Minas Gerais. De lá vem o queijo que vendo e tiro o sustento de minha família e de lá vieram meus melhores amigos. Minas é tudo isso e mais um pouco.

NAVAL disse...

Só tenho que dizer uma coisa: Minas é Minas UAI!