No Balcão do Quiosque

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Vênus

Esta é a história de Ferdinand. Milênios e milênios trabalhando como Cupido o levaram a uma estafa e como conseqüência entrou em depressão. Afastou-se do convívio com outros cupidos. Era visto vagando sozinho de asa arreada sem arco e flecha... cabisbaixo.

Um dia sentou-se no banco do jardim e ficou horas fitando a névoa. Pensava: “ Sou mesmo um estúpido Cupido; passei toda minha existência a flechar o coração de muitos casais apaixonados e o que me restou foi passar minha vida limpando arco e polindo flechas; passo meus dias sozinho e não conheci até hoje uma companheira que arrastasse uma asa pro meu lado. O que farei? Não tenho curso superior; se tivesse poderia voar mais alto. Soube que estão abertas vagas para arcanjos. O céu é o limite.
“ Já sei! Vou dar entrada com um pedido para me tornar humano. Tenho uma licença prêmio para cumprir. "

Chegando à presença de Vênus, fez a solicitação. Vênus lhe falou:

— Muito bem. Para onde queres ir?
Ingênuo como era, Ferdinand ainda escolheu o dia: 12 de junho.

— Quero surgir em meio às maiores oportunidades de ser atingido no coração; ser pego por aquilo que é o alvo de todos os seres humanos.

Num piscar de olhos o máximo que conseguiu ver foram luzes amareladas no teto do corredor de um hospital da periferia. A poucos quilômetros deixara o Morro do Céu no complexo da Lagoinha.

O tiro foi certeiro.

4 comentários:

Chica disse...

Muito legal,leandro!Isso mostra que sempre temos que pedir bem certinho....abraçoe e um lindo fim de semana,chica

Ramosforest.Environment disse...

Belo estilo e uma lição: veja onde pousa e nem sempre ser atingido no coração resulta em paixão!!
Luiz Ramos

neo-orkuteiro disse...

Excelente.
Traços de natureza genealógica, ancestral, metafísica e e literária concentrados.

Tere Tavares disse...

Leandro,
Sempre admirei a tua escrita, mormente o estilo, mas para além disso: o teor, a proposta inovadora e a criatividade. Abraço