No Balcão do Quiosque

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Virtus

Um homem, juntando todo o ouro que possuía, o enterrou longe dos olhos das pessoas com a firme intenção de não só escondê-lo, mas também, sozinho, adorá-lo periodicamente. Passado algum tempo, sem ter consciência do que lhe ocorria, foi acometido por uma crise de sonambulismo. Nesse estado, andou pelos campos até chegar ao local onde havia enterrado o tesouro e desenterrando-o deixou-o à mostra. Em seguida voltou para seu quarto mergulhando em profundo sono. No dia seguinte, sem nada lembrar do ocorrido, dirigiu-se ao local onde enterrou sua preciosidade para certificar-se de que continuava bem enterrado.

Ao chegar na área demarcada, surpreso e assustado, encontrou o buraco aberto com todo seu ouro espalhado pelo campo. Então bramiu:

— Quem será que fez isso? Ou foi um animal estúpido ou algum desafortunado ignorante!

Bufando e esbravejando consigo mesmo, recolheu todo o tesouro olhando rapidamente para os lados antes que alguém aparecesse, enterrando-o em outro lugar.

Isso acontecia de forma recorrente. Cansado de presenciar tamanho desatino, resolveu montar guarda para pegar em flagrante o malfadado incógnito.

Madrugada adentro e nada de aparecer quem ou seja lá o que fosse. Cansado e pronto para voltar eis que surge a poucos metros uma silhueta humana masculina bem alta provavelmente com mais de 1,80m. De andar estranho, parecendo um autômato.

— Ora vejam só... é um sonâmbulo, só pode ser! Então é isso! Não sabia que havia sonâmbulos por aqui. Mas espere... o que ele está fazendo?

O insone visitante carregando uma caixa, parou próximo ao local onde sem o saber, estava enterrado o tesouro do observador. Agachou-se, cavou fundo e colocando a caixa que trazia, trocava-a pela que enterrada estava; retirava o ouro nela contido espalhando-o aleatoriamente pelo terreno.

Após esperar o afastamento do sonâmbulo, correu até o local e desenterrou sofregamente a caixa. Era exatamente igual a que utilizou para “guardar” o seu tesouro. A não ser pelo seu conteúdo. Ou seja, nada! Absolutamente nada havia dentro da caixa.

— Esse sujeito tem tanto de maluquice quanto de ousadia!

Resolveu segui-lo para descobrir o que o estranho fazia com o seu tesouro.
Descobriu então que o indesejado visitante, colecionava CAIXAS VAZIAS; milhares delas. Não tinha nenhum interesse no ouro ou em qualquer outro objeto que nela estivesse contido.
Apenas o vazio das caixas tinha para ele mais valor do que qualquer quantidade de ouro.

Intrigado com esse fato, resolveu procurar o insólito colecionador.
Bateu à porta da casa e uma senhora de baixo de seus 85 anos atendeu de forma simpática.
Ele então, meio sem jeito, explicou-se ou tentou, e disse que gostaria de falar com o colecionador.

A senhora simpaticíssima, lhe disse:

— Meu querido, moro aqui há mais de 50 anos sozinha. Sou viúva há vinte anos. E não tenho filhos. Sinto lhe dizer mas acho que o Sr. se enganou de casa.

Sem graça saiu despedindo-se da Sra.
Chegou em casa foi direto para o chuveiro. Era o que estava precisando.

Lá fora, no quintal de sua casa, seus dois cachorros disputavam brincalhonamente, pedaços de várias caixas vazias espalhadas pelo terreno.

Um comentário:

Chica disse...

Que lindo o eu modo de escrever,Leandro.Sente-se pena quando chega ao fim.Linda crônica!abração,chica