No Balcão do Quiosque

sábado, 13 de junho de 2009

Criança tem cada uma!



Quando eu era pequena, minha mãe insistia em levar-me a velórios. Ela dizia que era importante conhecer "essas coisas" para eu ir me acostumando. E toda vez que isso acontecia eu me escondia embaixo da cama. Entretanto, era sempre descoberta, considerando que o medo era sempre maior que a imaginação.

Logo que chegavamos eu ia demonstrando toda a sorte de caretas bizarras, tantas quantas eu pudesse criar numa última tentativa de fazer minha mãe desistir levando-me embora. Porém, tudo era inútil. Sua mão em meu braço parecia mais uma prensa gigantesca esmagando meus ossos, fazendo-me sentar naqueles sofás toscos e mal-cheirosos. Eu ficava ali horas a fio; aliás, as piores de minha tenra vida. Sem contar, as vezes que precisava me sentar em outra cadeira - a do dentista.

Com os olhos meio revirados e sobrancelhas franzidas, eu olhava aparvalhada e apavorada aquele caixão preto, de alças douradas, que parecia bem maior que o normal. E sempre tendo a nítida e pavorosa impressão que o morto fosse levantar a qualquer momento e sair andando.
Coisas horríveis então começaram a passar pela minha cabeça, e levando a mão na boca eu pensava:

"Nossa! O que seria daquele defunto? Iriam fechar o caixão, enterrar bem lá no fundo daquele túmulo escuro e frio e...como iriam fazer para cortar as unhas dele? Sim, porque o falecido não poderia mais fazer isso, afinal já estava morto e ninguém mais iria vê-lo. Contudo, suas unhas continuariam crescendo, crescendo, e sairiam como farpas através do túmulo, erguendo-se em uma enorme floresta".

Sem pestanejar, eu olhava para aquelas pessoas em volta do caixão, achando que qualquer uma delas teria a solução para este enigma. O mais curioso é que eu não me atrevia a perguntar nada a ninguém, muito menos à minha mãe com medo de levar uns bons tabefes.

O cadáver continuava seu sono e eu encolhia os ombros numa atitude irônica pensando:
"Ah, prá que me preocupar com isso se da próxima vez eu encontraria um esconderijo infalível, ficando livre desses encontros chatos e tristes? Para que me incomodar? Os donos do cemitério que cortassem aquelas unhas, que certamente cresceriam sujas e escuras".

De repente, num gesto de coragem me levantei e do alto dos meus seis anos me aproximei de uma garota que chorava desde a hora que cheguei, cutuquei sua mão dizendo:
- Ei moça, você já cortou as unhas dele hoje?

Por Lu Cavichioli

17 comentários:

Ramosforest.Environment disse...

Esses pesadelos eram de todas as crianças.
Eu só não me preocupava com as unhas do defunto, mas, nos outros ítens, eu era igual a Você!!
Eu acho que havia algo de positivo no modo de agir dos nossos pais, pois, hoje, as crianças assistem a tudo de modo virtual, insenvível.
Abraços
Luiz Ramos

Leandro soriano disse...

Sou a favor da cremação. Acho toda essa cultura cadavérica uma afronta ao bom senso. Pra quê ficar horas "velando" um corpo em ritmo de decomposição? Sem falar no aspecto anti-higiênico e racionalização de espaço público e lastimável demosntração de emotividade muitas vezes falsa. Morreu, fogo nele. As crianças estão certas.

neo-orkuteiro disse...

Que interessante, Lu. Desde criança, você já era muito imaginosa, e recusava a idéia da morte bem a sua moda (as unhas do "de cujus" crecendo indefinidamente para o "além-túmulo" concreto, no caso o lado visível para os visitantes do cemitéerio).
Eu via de regra só tenho notícia de morte na família com atraso, o que pelo menos me poupa de tantos enterros. Definitivamente não gosto, nunca gostei. Fui a bem poucos na infância, mas não pude escapar de vários, com o passar do tempo.
Por mim, eu não iria a nenhum enterro, nem - ou principalmente - ao meu próprio. Só nesse minha presença será obrigatória, fazer o quê? Terei de ir. Mas garanto que só será sob muito protesto não importa daqui a quanto tempo, e eu não pretendo mesmo observar a pontualidade quando a minha hora chegar. Com certeza, de tudo farei para me atrasar o quanto puder.
Beijos, Lu

Lu Cavichioli disse...

Oi Luiz, eu tenho horror a velórios e tudo que faz parte dele. Na verdade esse texto é uma adaptação daquilo que eu pensava a respeito das unhas do morto. Eu pensava mesmo isso rsrsrs... o restante era medo e imaginação. Minha mãe nunca me forçou a ir em velórios, GRAÇAS A DEUS!.

Enfim a morte faz parte da vida e disso não podemos fugir.
Valeu a leitura amigo.

Lu Cavichioli disse...

Oi Soriano, eu concordo com vc em tudo
que falou. Cremação seria o canal. `Pelo menos estaríamos livres dos cemitérios. Todos eles deveriam ser varridos da face da terra. E no lugar deles, fizessem áreas verdes e parques.

bj

Lu Cavichioli disse...

rsrsrs.... pois é João eu pensava mesmo que as unhas iriam continuar crescendo... que louco isso né? Daí eu aliei esse fato ao texto e fui desenvolvendo.... eu mesma ri do que escrevi, no final....
ai meus sais.

Pois é... em nosso velório não vai dar pra faltar.
Bjs e boa semana

Whispers disse...

olá!
Entrei,li e não vou sair sem comentar
Achei uma Historia muito bem contada*****

Nunca fui a um velório quando criança,se alguém morria na familia ou amigos,eu era retirada para casa de amigos.
Hoje com mais de dois mil anos de idade nunca vi uma pessoa morta,e não estou a fazer conta de ver.
Minha mãe morreu não faz tanto tempo assim,mas eu não a vi morta.
Na verdade se possível quero lembrar de todos que eu amo em vida e não eles deitados frios e sem poderem mexer.

Mas uma menina de 6 anos que já sabia que o defunto cresce as unhas depois de morto,bem, parabéns você era muito(o)esperta
beijos,desculpe pela invasão

Joice Worm disse...

Até hoje fui ao menos a 2 velórios. Um da minha avó (mas não a vi hora nenhuma. Não quis. Só tenho lembranças dela viva) e outra da minha cunhada (esta vi porque uma amiga sem eu esperar, tirou o pano de cima do seu rosto (que mórbida).
Mas em resumo, não gosto de velórios. Nem de falar.

Chica disse...

Adorei essa crônica e esse tema é sempre legal! Quanto ao convite, claro que aceito, se pra ti está bem o meu estilo delas. Será um prazer.Meu email, como pedido: rtazza@gmail.com ..Aguardo as orientações!beijos,chica

Anne Lieri disse...

Lu,que situação sua mãe a colocava!Achei engraçado ver os pensamentos que vinham á sua cabeça!Excelente sua cronica!Bjs,

Chica disse...

Lu, podes mandar um email pra mim, pra que eu tenha o teu? Quero te perguntar uma coisa!beijos,chica( Já aceitei o convite enviado pelo blogger)

Lu Cavichioli disse...

Nossa Joice, comparada comigo vc nem foi a velórios.... pq eu.... ai ai meus sais
mas eu detesto essa coisa mórbida.

Lu Cavichioli disse...

Oi Ane, como eu disse ao Luiz na minha resposta a ele, esse conto foi uma adaptaçao de algumas situações... rrsrs... mas minha mãe nunca me obrigou não. Graças a Deus. rrsrsrsr
bj linda

Lu Cavichioli disse...

ok Chica, tudo em cima!

Antonio Paulo disse...

Minha grande escritora preferida você tem a mesma opinião minha cremação geral e irrestrita sempre que o ser sair fora dessa.E quando criança e até bem pouco tempo ir a velórios me deixava-me mal o dia todo sem poder comer nada.

Lu Cavichioli disse...

... pois é amigo Antonio, o mesmo acontece comigo ( e é sempre assim) - principalmente se for da familia. Parece que as imagens petrificam na cabeça... muito ruim.

Que bom ver vc aqui meu querido. Senti sua falta.

ultrabeijos da Lu

Rosemari disse...

As crianças tem medo da morte porque os adultos não sabem como lidar com ela.
Para não sofrer com a morte voce precisa lidar com sua própria morte tendo certeza de que ela faz parte da vida.

beijos amiga