No Balcão do Quiosque

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nas madrugadas do tempo...


Acordou com o barulho do vento que dançava entre os galhos ressequidos do bosque e, imaginando o frio que deveria estar fazendo lá fora, enrodilhou-se entre os lençóis, numa tentativa inútil de voltar a dormir. Era madrugada e ela sempre tivera um quezinho pelas madrugadas quando, a casa em silêncio e a cidade semiadormecida, davam-lhe a falsa sensação de que a paz reinava sobre o mundo, sobre os homens.

Sem conseguir voltar a dormir, saiu da cama e, apanhando o robe que repousava sobre a poltrona, envolvendo-se em seu aconchego, dirigiu-se até a janela. Ao abrir as cortinas deu com a beleza da neve caindo sobre o gramado, iluminada apenas pela fraca luz que vinha do poste de iluminação colocado quase em frente a casa.

E sem saber bem porque, viu-se em outra madrugada insone, diante de uma outra janela, depois de acordada pelo zunir do vento que corria por entre as casas daquela rua antiga, prenunciando uma tempestade de verão. Reviu-se jovem e cheia de sonhos, sem a menor consciência do que a esperava pelas esquinas do tempo, dos longos caminhos que ainda haveria de percorrer até chegar aquele momento.

Naquela outra madrugada, lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, lavando-lhe a alma daquela tristeza que lhe parecia sem fim e que, a luz do tempo, demonstrou ser nada mais, nada menos, do que uma tempestade num copo d’água... Ah, as doces paixões da adolescência!... Ah, a primeira paixão, quase sempre não correspondida, quase sempre inesquecível... A imagem dele ainda bailava em sua mente, congelada pelo tempo, numa linda figura de príncipe encantado... Seus olhos castanhos, seu sorriso límpido de quem anda de bem com a vida, sua voz, seus cabelos, seu porte... Vindos através dos anos, rodopiavam em torno dela, revestindo-a de saudade... Saudade dele, dela, da juventude que um dia habitara aquele corpo alquebrado e que ficara lá longe, dos sonhos que a acalentaram, de tudo o que o tempo reteve em seus caminhares...

Sentindo o frio da madrugada, deixou a janela, sentou-se na poltrona, encolhida, cobrindo as pernas com uma manta e, antes de abrir o livro que a esperava sobre a mesinha lateral, ainda ficou uns minutos cogitando sobre o quão bom era sentir tão doce saudade... Tão bom ter tais momentos guardados dentro de si, mostrando que a vida foi vivida com intensidade, com paixões, com sonhos, com esperanças, com amor... Lembranças que mostravam claramente que valera a pena cada passo percorrido nesse longo caminhar... Que razão tinha nosso Fernando Pessoa ao afirmar que “tudo vale a pena se...”


Dulce Costa

(Numa madrugada de dezembro do ano de dois mil e onze)


4 comentários:

R. R. Barcellos disse...

- Que belo contraponto entre lembranças e realidades, chuvas de verão e neve de inverno. E fica mais bonito quando se olha daqui, num janeiro de quarenta graus!

Leonel disse...

Essa "sessão nostalgia" às vezes também me ocorre, com flashback e tudo...
Pelo visto, temos um time de ótimos escritor(e/a)s neste blog!
Prazer em lê-la, Dulce!

Lu Cavichioli disse...

Querida Dulce, logo de início , ao ler o texto eu já sabia que eram tuas, as palavras.

Você sabe como construir imagens dentro de uma narrativa, fazendo do leitor, teu refém.

Não é a toa que estás no Quiosque.

Parabéns amiga!
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É isso mesmo Leonel, você é grande observador, e ficamos todos lisonjeados quando disse:

"Pelo visto, temos um time de ótimos escritor(e/a)s neste blog!

Grata em saber-te nosso leitor!
abraços.

Dulce disse...

R R Barcellos,

Leonel,

Lu,

Obrigada pela acolhida e saibam que para mim é um grande prazer, um privilégio, estar aqui com vocês.