No Balcão do Quiosque

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quo Vadis?

   Ocasionalmente eu uso a liberdade poética proporcionada pelos versos brancos, que não se submetem às algemas da rima ou à tirania da métrica. Mas confesso que prefiro, quando possível, cantar a música da rima seguindo o ritmo do metro. Parece-me que em mim o poeta "brada com mais vigor quando em cadeias / que quando voa livre de outras peias."
   A postagem original é de 3 de Fevereiro de 2010, no "Sete Ramos de Oliveira".
* * * * * * * * * *

   Houve época em que minha fome de leitura era insaciável. Desde os gibis infantis até a Bíblia, passando por obras de divulgação científica e de ficção, tudo era devorado. Os versos brancos que se seguem nasceram de uma combinação eclética de leituras de minha adolescência: "Nascimento e morte do Sol" (George Gamow), "Quo Vadis?" (Henryk Sienkiewicz) e o Livro do Gênesis, tudo temperado por um crescente interesse pela teoria do "Big Bang".


Quo Vadis?


Há tanto tempo...
Tanto, tanto tempo passou sobre tudo...
Tudo esvaiu-se na fumaça,
No pó,
No passado;
Tudo tornou-se neblina na lembrança dos homens,
Tornou-se tudo neblina na memória da eras,
Do espaço,
De Deus.
Nada existia então.
Não existia a Vida,
Nem o Tempo,
Nem o Espaço:
In principio erat Verbo.
E eis que surgiu um ponto,
Um ponto geométrico,
Sem dimensões;
Um nada.
Mas, nesse nada,
Rugia tudo:
Rugia o Tempo, na ânsia de marcar a sucessão das Eras;
Bramia o Espaço, querendo medir a distância entre os seres;
Gritava a Vida, aspirando a determinar a soberania do Amor.
E o ponto explodiu em fulgurações cintilantes
Que levavam consigo o Tempo,
O Espaço
E a Vida.
E surgiram majestosas as galáxias,
E os sóis,
E os planetas.
Surgiu a Terra.
A Terra era informe e nua, e o espírito de Deus pairava sobre as águas.
E nas águas, a Vida fundou seu reino;
E vieram os peixes,
E os anfíbios,
E os répteis ,
E os mamíferos.
Surgiu o Homem.
Surgiu, então, na Terra, uma centelha da divina sabedoria na inteligência do Homem.
E vieram os povos,
E vieram as nações,
E as civilizações;
E veio também a paz,
A amizade,
A fartura
E o amor;
Mas veio também a fome,
A guerra,
A miséria
E o sofrimento.
E eis que chegamos hoje à encruzilhada fatal:
Quo vadis, Homo?
Aonde vais, Homem?
Aonde vais?


   Hoje, tantos anos depois, tenho minhas dúvidas quanto à validade da teoria do Big Bang. Mas isto fica para outra ocasião.

6 comentários:

Dulce disse...

Dificil saber, não?
Eis uma pergunta que parece não ter resposta, tantas são as respostas que ela vai suscitar...

Mas do poema, gostei muito, viu?
Um abraço

Leonel disse...

Quem és tu, Bruxo herege, que se atreve a discorrer sobre o mérito da criação divina que é o universo e a tecer hipóteses sobre os destinos do homem?
Que sejas colocado em cadeias e atado ao rochedo do tempo, para que um carcará se alimente diuturnamente do teu fígado!
Mas, por força da piedade divina, suspenderei a tua sentença e a converterei no fornecimento de 5 cestas básicas para os necessitados!
Cumpra-se!

Lu Cavichioli disse...

O texto é forte e desce cortando, gerando vários questionamentos desde o principio.

Pram mim vc descreveu o limiar da vida num planeta vazio porém cheio de sons.

Toda essa visão depende somente do ponto de vista de cada um, porque todo homem é um universo em paralelo ao infinito espaço etéreo.

Acredito que há um Criador para todas as coisas... Agora para onde o Homem vai... Há inúmeras vertentes e cada uma delas é individual. Ou seja, cada um acredita naquilo que mais lhe aprouver de acordo com sua fé ou a inexistênticia dela.

Seus textos são sempre inteligentes e polêmicos e porque não dizer criativos.
Abraços da Lu

Lu Cavichioli disse...

Sobre o BIG BANG

Teorias científicas só "convém aos pragmáticos.

Milene Lima disse...

Tema por demais complexo. Minhas opiniões acerca do assunto são amadoras, feitas apenas a partir do meu sentir... Ou do não sentir.

Bacaninha, bruxo-poeta provocador.
Beijos.

Marcos Santos disse...

Olá Barcelos
Esse assunto me intriga. Como todo cético, me dou o direito de desenvolver minhas teorias.
De uma coisa tenho certeza, o tempo do homem é muito fugaz diante do tempo da natureza. A tragédia da Região Serrana do Rio é a prova disso. Famílias que vivem a gerações naqueles locais nunca viveram aqueles fatos, mas para a natureza...Apenas um "freio de arrumação", como fazem os ônibus daqui.