No Balcão do Quiosque

domingo, 2 de janeiro de 2011

Navegar é preciso

   Há certas frases e expressões que, mesmo sendo concisas, carregam riquezas inesgotáveis. A origem da maioria delas se perde nas brumas da história de cada língua viva, mas de algumas é possível encontrar o registro de nascimento.
   Em 1325, Afonso IV assumiu o trono em Portugal e iniciou um intenso intercâmbio comercial com Florença. Como subproduto, a cultura toscana passou a ter grande - e duradoura - influência em Portugal. PETRARCA chegou a ser "clonado", duzentos anos depois, pelo próprio Camões - senão, vejamos:

Petrarca:
Questa anima gentil che si diparte,
Anzi tempo chiamata a l'altra vita...


(Esta alma gentil que agora parte,
Chamada antes do tempo à outra vida...)

Camões:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente...

   Pois foi também Petrarca que cunhou a bela frase (muitas vezes atribuída a Fernando Pessoa): "NAVEGAR É PRECISO; VIVER NÃO É PRECISO"
   Vejamos algumas acepções que ilustram a riqueza dessa frase:
   Acepção original, de Petrarca: "A navegação é uma ciência exata (precisa); a vida, não".
   Acepção de Fernando Pessoa, celebrando as grandes navegações portuguesas: "É necessário navegar; não é necessário viver".  Veja o poema em 

http://www.casadobruxo.com.br/poesia/f/navega.htm




   Para maiores detalhes sobre a origem da frase, consulte
http://cdclassic.com.br/navprec.htm
   Há inúmeros outros contextos que utilizam essa frase, completa ou pela metade. E eu peço ao leitor licença para apresentar minha própria interpretação: "Navegar é preciso; viver é navegar."
   O texto que se segue é uma transcrição revisada da matéria publicada no "Sete Ramos de Oliveira", em 18 de janeiro de 2010.  O significado de "preciso'' deixo a critério do leitor. E a imagem da nau vem de Portugal, bordada pelas mãos habilidosas de Amélia Costa, do "blog" Estados de Alma.



NAVEGAR É PRECISO
   Navegar é preciso. Remar contra a corrente nada resolve, e abandonar-se a ela pode ser pior. É preciso navegar.
   Navegar é conhecer as correntes e redemoinhos, as pedras e arrecifes, o vento e as marés, a enseada segura e a praia traiçoeira. É escolher um destino alcançável e planejar a rota em cada trecho. É estar preparado para o tufão imprevisto e saber contornar obstáculos intransponíveis. É saber usar o mapa e a bússola, o sextante, a barquilha e o cronômetro. Navegar, em suma, é saber chegar a salvo ao porto escolhido, mesmo sem o auxílio do GPS.
   Navegar pela vida não é diferente. Aprendemos desde a mais tenra infância a distinguir o alcançável do inalcançável, e como chegar aos objetivos mais tentadores. Conforme crescemos, nossos pais nos mostram os redemoinhos e escolhos da vida e nossos mestres nos fornecem os instrumentos de navegação - que mais não são que a educação formal que recebemos. E nós vamos nos aperfeiçoando na arte de navegar pela vida, começando pelas pequenas rotas lacustres e fluviais, e as linhas costeiras, onde os menos ambiciosos se acomodam, enquanto os aventureiros prosseguem até chegar à navegação de cabotagem e finalmente às travessias de longo curso.
   Mas nem todos têm a fortuna de nascer com o talento de um Torben Grael, e podemos vislumbrar muitas vezes um navegante solitário lutando contra a corrente ou dando voltas em um redemoinho. E nem sempre podemos socorrê-lo.
   Pois não podemos descansar em cada porto mais que o necessário para recuperar as forças, costurar as velas e reabastecer o navio. Sempre haverá uma próxima derrota* a ser planejada e vencida.
   Enquanto pudermos navegar.


* Derrota (Náut.): curso, caminho percorrido ou a percorrer

6 comentários:

Leonel disse...

Meu amigo, quão fundo você foi na dissecação desta enigmática frase.
Desvendou que até o divino Camões também caiu na tentação de um pequeno plágio, citando trechos do grande Petrarca!
E que Fernando Pessoa, a quem muitos conhecem como o autor da expressão, apenas foi mais um dos que a citaram, sem inclusive esclarecer o sentido.
Pois, para mim, como você deixou a critério, Petrarca era mesmo um gênio da expressão, pois vejo o "preciso" como uma alusão à precisão, tão presente no navegar quanto ausente na nossa vida, que não depende apenas de nossos atos.
Para mim, agora mais do que nunca, viver é navegar, ao sabor dos ventos, explorando as correntezas e descobrindo novas ilhas.
Linda essa caravela, lindo texto!
Um excelente começo de ano, que prenuncia o que de bom virá desta produtiva usina de pensamentos durante 2011!
Abração, Barcellos!

Maria Flor✿ܓ disse...

Maravilhoso! Nos faz navegar e repensar onde atracar!
Meus aplausos!
2011 Feliz, com muita inspiração!
Beijos

João Esteves disse...

Pois então, atendamos todos essa necessidade de navegar com precisão e principalmente de viver esse ainda tão jovem ano de 2011. O passeio pela literatura e pela história teve a brevidade da leitura do post, mas foi muito agradável. Bem começado...

Lu Cavichioli disse...

Como a primeira blogada do ano, devo confessar que estufou os cordéis do Quiosque, meu caro Rodolfo.

Petrarca, Camões e Pessoa - grandes personagens que ILUSTRES, ilustram seu texto de navegador e navegante.Posto que somos todos viajores da própria história.

Parabéns neo-quiosqueiro, a fila aumenta a cada hora e no balcão tem pastéis com novo recheio.

Tudibom!
abraços da Lu

Si Fernandes disse...

Rodolfo,Pessoa,Camões e Petrarca...
E pobre de mim que sou um nau a deriva...
ora remo contra correnteza, ora deixou o mar me levar, mas morrer na praia nem a pau!

Eu prefiro Caeiro...Creio no mundo como um malmequer,porque o vejo.Mas não penso nele.Porque pensar é não compreender...
[Alberto Caeiro]
Engraçado... eu prefiro Caeiro...

Batata quente... vc me deu foi uma baita alegria de te ler 'ajuntando' idéias com esses grandes mestres...
Vc sabia que eu ia amar, não sabia...
PETRARCA um filólogo, poeta humanista...Me lembra vc.

BEIJOS
[ Meu teclado segue sem exclamações, interrogações e tudo mais...]

Milene Lima disse...

Tentarei navegar 2011 de forma a completar a viagem sem me dever muito, contornando os redemoinhos sem jamais abandonar o barco. Se serei uma boa navegante, ah isso são outros quinhentos.

Topa fazer essa viagem comigo? A gente deixa o fusquinha só um cadim... Mas ele sempre será nosso principal meio de transporte, de sonho a sonho.

Beijos, meu querido bruxo.